WILLY HOFFMANN
De caçador a ecologista Descendente de alemães, o catarinense Willy Hoffmann foi educado na tradição européia segundo a qual os homens foram feitos para caçar. Mas hoje, aos 95 anos, ele se dedica a preservar a fauna e a flora de suas terras
Por Giselle Zambiazzi Fotos: Patrick Rodrigues
Quem entra na casa pelo escritório não acredita que está na casa de um ecologista. No chão, uma pele de zebra trazida da África. Nas paredes, várias cabeças de animais selvagens empalhadas, como aquelas que a gente vê em filme. Mas a conversa vai ser na sala. Ele espera sentado na sua poltrona de veludo bege, cobertor sobre as pernas. Uma bronquite forte, que o levou a ser internado por cinco dias em um hospital, debilitou sua saúde.
Ernesto Guilherme Hoffmann aproveitou muito bem seus 95 anos. Fez tudo o que a vida permitiu. Já esteve do Pólo Norte ao Pólo Sul. Fala das muralhas da China como quem conta da pracinha do bairro. “E então nós subimos bem no alto. Aquilo é impressionante”, lembra.
O safári na África foi uma das aventuras mais incríveis. “Os elefantes vinham em bandos, eram lindos.” A aurora boreal também foi uma experiência marcante, assim como a primeira vez que topou com uma onça ao vivo e em cores em uma das dezenas de viagens ao Pantanal. “Ficamos parados, olhando. Não deu medo. Ela estava com mais medo de nós do que o contrário”, conta.
Saudades mesmo ele sente dos tempos em que ia a Nova York, nos Estados Unidos, para ver espetáculos de música clássica, seu gênero favorito. Não se esquece das três vezes em que viu o tenor Luciano Pavarotti se apresentando na China, nos Estados Unidos e em Cingapura.
Mas nada, nada mesmo, o emociona mais do que um pedaço de terra a alguns quilômetros da sua casa. São 415 hectares – mais de quatro milhões de metros quadrados – que têm por nome Fazenda Hoffmann. Ficam em Brusque, cidade catarinense 100 quilômetros ao norte de Florianópolis.
Foi lá, numa casa perto do que hoje é a Rodovia Antônio Heil, que Hoffmann nasceu. E aprendeu a amar a natureza. No mesmo lugar, ele recebeu o apelido que tem até hoje. Em uma terra colonizada por alemães, Guilherme significa Wilhelm. Daí para Willy, é um piscar. Pronto. Assim ficou.
A área da fazenda foi uma herança do avô paterno. Heinrich Hoffmann veio da Alemanha para o Rio Grande do Sul no final do século 19. Ele não sabia, mas tinha nos Estados Unidos um parente milionário que havia morrido. As autoridades procuraram Heinrich por toda parte, já que ele era o único herdeiro do tal parente.
Quando o encontraram, ele recebeu tanto dinheiro que acabou comprando um considerável pedaço de terra onde, mais tarde, seria a cidade de Brusque.
No total, eram 12 milhões de metros quadrados. Hoje, englobaria a metade do centro mais três bairros, sempre margeando o rio Itajaí-Mirim. E ainda sobrou para emprestar a perder de vista aos “amigos”.
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No sentido horário, a partir da esquerda: Willy Hoffman e sua esposa, Tina; certificado de área preservada da Chácara Hoffman (também conhecida como Chácara Edith); Willy na sala de sua casa, decorada com animais empalhados por ele. |
Uma parte foi vendida e restaram dez milhões de metros quadrados, que foram destinados aos herdeiros. Entre eles, o pai de Willy, que também se chamava Heinrich. Como tinha formação em administração na Alemanha e um bom cargo na indústria têxtil do então cônsul Carlos Renaux (até hoje uma das mais importantes indústrias do setor em Santa Catarina), Heinrich filho não deu muita importância ao que herdou. Para a sorte de Willy, já que naquela época a primeira coisa que passava pela cabeça do proprietário de uma terra como aquela era explorar a madeira nobre e abundante que havia sobre ela.
Na verdade, era exatamente isso que faziam os arrendatários de partes da fazenda. Os agricultores alugavam áreas de mata virgem, derrubavam as árvores, vendiam a madeira e, depois, abriam pastagens e plantações. Até os cinco anos, Willy presenciou tudo. Com a mudança da família para outra casa, acabou se afastando um pouco. Mas sempre que podia estava lá.
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