O sertão movido a óleo O Estado do Rio Grande do Norte é o maior produtor de
petróleo em terra do país. Descoberto por acaso há 30 anos, o ouro negro tem alterado em muito as paisagens e a vida das pessoas do sertão potiguar. Tornou-se sinônimo de riqueza para alguns, mas também é mais um símbolo dos contrastes presentes no Nordeste brasileiro.
Texto e fotos: João Correia Filho

Há 24 anos, Cosme Ferreira da Silva, hoje com 64, saiu com a espingarda em punho para defender sua propriedade. Levou um grande susto quando viu desconhecidos rondando o sítio que havia herdado de seus pais, no município de Alto do Rodrigues, interior do Rio Grande do Norte. Ao perceber que pretendiam avançar cerca adentro, partiu para cima deles. Embora pequena, sua lavoura de milho e feijão era tudo que tinha.
Passadas quase três décadas, o lavrador sorri ao lembrar da confusão que armou quando os técnicos da Petrobras apareceram para fazer as primeiras pesquisas em busca de algo tão cobiçado no mundo e ainda desconhecido para a maioria dos moradores da região, o petróleo. Hoje, o líquido que sai da terra é a base do sustento não apenas de Cosme, mas de milhares de pessoas do sertão potiguar.

Na CIDADE do Alto do Rodrigues, no Vale do Assu, não faltam EXEMPLOS de pessoas que “ENRICARAM” com o dinheiro dos royalties
É símbolo de riqueza fácil para alguns, que chegam a receber mais de R$ 100 mil por mês em royalties, o equivalente a 1% sobre o valor do petróleo encontrado em suas terras. Não é exatamente o caso de Cosme, que recebe uma quantia bem inferior pelos 42 poços instalados no seu quintal, mas que, ao longo dos últimos anos, o ajudou a comprar três casas na cidade, colocar (e manter) os filhos na escola e viver uma vida muito mais tranqüila. É um dos exemplos de sertanejos que tiveram sua vida mudada pelo ouro negro.
No ano passado, a Petrobras repassou dinheiro para 1.096 proprietários de terras do Rio Grande do Norte, num total de R$ 30 milhões. Este ano espera-se que a marca atinja R$ 34 milhões. Para quem viaja pelo Vale do Assu, onde está localizada Alto do Rodrigues, cidade com pouco mais de nove mil habitantes, não faltam exemplos de pessoas que “enricaram” com o dinheiro dos royalties. Em alguns casos, a natureza foi bastante generosa, e as suas fazendas chegam a ter mais de 100 poços, embora a quantidade de poços nem sempre tenha relação direta com sua rentabilidade.
HÁ AINDA OUTRA forma de pagamento que deriva do petróleo, conhecida como “servidão”. Nesse sistema, o proprietário não recebe um valor pelo que é retirado de suas terras, mas pelo que deixa de plantar nas áreas onde estão instalados os “cavalos-de-pau”, nome dado às unidades de bombeamento (UBs), que retiram o óleo do subsolo. Diferentemente do royalty, a servidão é paga anualmente e também depende da produtividade das áreas que estão plantadas.
Em geral, a riqueza vinda do petróleo depende da forma como o dinheiro ganho é aplicado, como é o caso de Joaquim Tomaz Neto, proprietário de terras na cidade de Carnaubais. Em uma propriedade de 19 hectares, que comprou com o dinheiro de um único poço descoberto em 1985, trabalha há três anos no plantio da banana, atualmente uma das culturas mais rentáveis dessa região do Rio Grande do Norte.
Atualmente, Joaquim possui dois poços que lhe rendem o dinheiro suficiente para manter uma das propriedades mais lucrativas da região por área plantada, mantida por um eficiente sistema de irrigação. “De royalty ganho bem pouco, mas compenso na servidão. Se você não plantar nada, não recebe quase nada. Eu que tenho uma plantação bem produtiva consigo tirar um bom dinheiro, que volta para a terra para que ela produza ainda mais”, explica ele.
Quem chega ao Vale do Assu, região abarrotada de cavalos-de-pau, facilmente percebe essa realidade – plantações de banana e mamão (as mais lucrativas) misturam-se à flora da caatinga. Gerson Pereira da Silva, técnico da Petrobras, conta que ao final da safra é feita uma avaliação da produtividade de cada propriedade, de acordo com os índices de mercado. “Dessa forma, a servidão gera um verdadeiro círculo virtuoso entre os proprietários, pois os incentiva a investir cada vez mais na produtividade da terra, em melhores sistemas de irrigação e, assim, aumentando mais seus ganhos e investindo mais e mais, sucessivamente”, esclarece Gerson.
MAS NÃO É SOMENTE a história de vida de quem tem o petróleo em suas terras que mudou. Cidades inteiras tiveram os seus destinos alterados, já que o bolo é dividido com o governo estadual e as prefeituras de 93 municípios que recebem os repasses, sendo que 15 deles são efetivamente produtores de petróleo e gás – Macau, Mossoró e Guamaré são os que mais se beneficiam dos recursos.
Alto do Rodrigues, cidade onde vive Cosme, está em sexto lugar no ranking – recebeu mais de R$ 4,6 milhões em 2006. No total, as administrações estaduais e municipais receberam R$ 325,77 milhões.
Outro fator importante é a geração de empregos. Um grande número de empresas migrou para a região com o objetivo de prestar serviços ligados à exploração de petróleo. É talvez um dos poucos lugares do Brasil onde se ouve pessoas dizendo que não falta emprego. Mais de 80% da população está direta ou indiretamente ligada à renda do petróleo, e é fácil perceber o fato pela movimentação matutina de ônibus e microônibus que levam os funcionários para as regiões onde há centrais de exploração.
ESSE AQUECIMENTO econômico também se reflete nos índices de desenvolvimento. Nos últimos 20 anos, Alto do Rodrigues teve um aumento considerável do seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), passando de 0,30 para 0,68. A vizinha Carnaubais, com um pouco mais de sete mil habitantes, é a que representa o maior crescimento nesse sentido, indo de 0,25 para 0,65. No entanto, é necessário lembrar que índices entre 0,50 e 0,79 ainda são considerados apenas medianos pela Organização das Nações Unidas (ONU). Ainda há muito a ser feito.
Outro exemplo é Mossoró, cidade de 215 mil habitantes, a 277 quilômetros de Natal, que recebe a maior parte dos repasses – foram quase R$ 25 milhões em 2006, o que vem tornando o município uma referência de qualidade em todo o Estado. Aliás, foi ali que tudo começou: no ano de 1977, quando perfuravam poços para construir um balneário de águas quentes, o que encontraram foi um líquido preto viscoso. Onde era para jorrar água, jorrou petróleo.
HOJE, A EXPLORAÇÃO do petróleo gera 22,53% da receita total dos municípios produtores, ficando entre as três principais receitas do Estado. Além de recursos fáceis, a entrada dos “petrodólares” também representa um alto grau de dependência por parte dos governos. A distribuição e o controle da aplicação desse dinheiro, sob a responsabilidade da Agência Nacional do Petróleo (ANP), ainda está longe de ser a ideal. Há empregos, as cidades são mais limpas, com asfalto e praças bonitas, mas a população ainda sofre com sistemas educacionais e de saúde precários, saneamento básico insuficiente e uma enxurrada de notícias de desvio de verbas.
Na zona rural, a situação não é diferente: comunidades inteiras ainda vivem à mercê da riqueza proporcionada pelo ouro negro, como é o caso do Assentamento Serra Vermelha, em Canto do Amaro, uma das regiões petrolíferas mais produtivas do município de Mossoró, mas que amarga a falta de água e recursos característicos do Nordeste brasileiro. Sobram exemplos de prefeitos que fazem assistencialismo com os recursos que recebem do petróleo.
Atualmente, o PETRÓLEO gera 22,53% da renda dos MUNICÍPIOS produtores, ficando entre as três principais RECEITAS do Estado

EM MUITOS LUGARES, esses contrastes estão expressos na própria paisagem. Tubulações cruzam áreas repletas de carnaubais, mata nativa e rios. É, sem dúvida alguma, uma imagem que deve arrepiar qualquer ecologista que se preze, por mais que as empresas envolvidas digam que estão fazendo a constante segurança ambiental. Um acidente ecológico parece ser iminente em meio a tanta interferência do homem.
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...Riquezas naturais
Na página oposta, acima, tubulações da Petrobras cortam lagos e carnaubais; abaixo, gado cruza fazendas com exploração de petróleo. Nesta página, ao lado, moradores do assentamento Serra Vermelha; e, acima, o proprietário Cosme Ferreira da Silva. |
Em outros locais, os cavalos-de-pau convivem com vacas, galinhas e outros animais domésticos, e disputam lugar com emas, tatus e preás, típicos da caatinga. É uma região onde o pôrdo- sol é único, com cercas de madeira, cactos e unidades de bombeamento quebrando o clima. Deixam no ar um som que não é alto, mas constante, que impregna.
Entre Alto do Rodrigues e Carnaubais, a bela lagoa do Poré, repleta de carnaubais, é toda entrecortada de estradas, tubulações e cavalos-de-pau, máquinas que trabalham incessantemente, num ritmado sobe e desce, até arrancar a última gota de petróleo do solo. Uma máquina ambiciosa que não pára sequer na madrugada, não tem descanso. Tal como os homens e governos, que, ao que tudo indica, ainda não pararam para pensar que o dinheiro que brota da terra não vai continuar jorrando eternamente.
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