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PAISAGEM
DESOLADA
Na Malásia, país de grandes florestas
tropicais como as brasileiras, as queimadas e o corte
indiscriminado das árvores provocam um efeito
de desertificação.
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CAPA
ESPECIAL |
GRANDES REPORTAGENS PLANETA
AQUECIMENTO GLOBAL
Meio
ambiente em crise - "Passamos do ponto de retorno"
Há pouco mais de 30 anos James Lovelock desenvolveu
a Teoria de Gaia. Agora, o cientista afirma que os abusos
que a humanidade vem praticando contra a natureza colocaram
esse sistema contra nós. Sua aterradora conclusão
é de que a mudança climática global já
chegou à insolvência e a vida na Terra nunca
mais será a mesma.
Produção
de Marcelo Musarra
A premissa central de A Vingança de Gaia,
livro recentemente lançado por James Lovelock,
é simplesmente aterradora. Segundo o autor, a deterioração
ambiental que provocamos no mundo já passou do ponto
de retorno e a civilização como conhecemos hoje
em breve deixará de existir. Para Lovelock, o guru
verde que concebeu a Teoria de Gaia, a Terra possui
meios próprios para manter a vida. Mas, em sua mais
recente avaliação, profundamente pessimista,
ele sugere que os esforços para conter o aquecimento
global já não terão mais efeito. Já
é tarde demais. O quadro da destruição
é muito pior do que imaginamos, e o tempo para que
uma devastação em cadeia ocorra é muito
menor do que todos acreditam.
Pode parecer alarmista. Principalmente por ser a declaração
de um cientista reconhecido internacionalmente como Lovelock.
Mas sendo ele o homem que concebeu a mais inovadora maneira
de entender a vida na Terra desde Charles Darwin, nós
não temos outra saída a não ser ouvi-lo
e refletir sobre seus alertas.
Lovelock acredita que o mecanismo auto-regulador de aquecimento
de Gaia (cada vez mais aceito por cientistas no mundo inteiro)
não pode mais ser gerenciado. Isso porque, no passado,
esse sistema possuía inúmeros mecanismos capazes
de manter a atmosfera mais fresca. Agora, esses mecanismos
estão debilitados e o aquecimento é potencializado
por atividades humanas como os meios de transporte e as indústrias,
que diariamente são responsáveis por imensas
emissões de gases como o dióxido de carbono
(CO2), que intensificam ainda mais o efeito estufa. Isso significa
que as ações prejudiciais dos seres humanos
sobre o sistema regulatório do planeta estão
ocorrendo de modo não-linear. E o mais provável
é que no futuro próximo essas ações
sejam aceleradas incontrolavelmente.
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AS
MAIORES VÍTIMAS
Também na Malásia, a foto em preto-e-branco
mostra uma menina em meio a um inferno de fumaça
e carvão. Ao lado, como mostra a leoa da foto,
os animais enjaulados nos zôos sofrem ainda mais
por causa do calor. Na foto inferior, o derretimento
da banquisa no Ártico está provocando
enorme impacto na ecologia e na vida selvagem da região.
O número de ursos polares diminui assustadoramente. |
Em A Vingança de Gaia, Lovelock chama atenção
de todo planeta para esse fenômeno. O diferencial da
sua análise é que seu ponto de vista é
holístico, e não reducionista. Embora esteja
comprometido em dar suporte às pesquisas avançadas
sobre mudanças climáticas realizadas pelo Hadley
Center do Reino Unido, Lovelock não está olhando
apenas para as facetas parciais, como faz a maioria dos demais
cientistas. Ele está analisando integralmente como
o sistema de controle geral da Terra se comporta quando é
exposto a uma situação de estresse reiterado.
Há cerca de 30 anos, o professor Lovelock foi um dos
primeiros cientistas a nos advertir sobre os perigos das mudanças
climáticas. Em 1989, ele fez parte de um seleto grupo
de cientistas que deram os alertas iniciais sobre o aquecimento
global para o poderoso gabinete da primeira-ministra inglesa,
Margaret Thatcher. Desde então, seus interesses sobre
o tema têm aumentado consideravelmente, uma vez que
as evidências de que o clima está aquecendo se
tornaram ainda mais claras.
Em setembro do ano passado, ele compartilhou com muitos cientistas
a preocupação sobre o fato de que o gelo que
cobre vastas áreas do Ártico está se
derretendo ainda mais rapidamente do que em 2005, quando atingiu
o ponto mais baixo em toda a história contemporânea.
Há dois anos Lovelock provocou uma grande controvérsia
ao publicar um artigo que incitava os ambientalistas a abandonar
as idéias contrárias ao uso da energia nuclear,
uma vez que ela não produz os gases que provocam o
efeito estufa. Na época, ele afirmou que o aquecimento
global está prosseguindo tão rapidamente que
só poderá ser contido com a adoção
massiva da energia nuclear. A maioria do movimento verde rejeitou
seu alerta, mas agora seus esforços têm uma nova
ênfase: mais que encontrar soluções adicionais
para conter as mudanças climáticas, Lovelock
está empenhado em convencer o governo britânico
a adotar medidas práticas para viver o que ele chama
de “um clima infernal”, quando a Europa estará
até 8oC mais quente do que ela é na atualidade.
No capítulo final de seu livro, Lovelock escreve:
“Qual será o governo europeu sensível
o suficiente para dar início imediato às mudanças?
Acho que temos poucas opções e devemos nos preparar
para o pior, pois nossa situação não
tem mais retorno.”
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OS
RESPONSÁVEIS
Em cima e à esquerda, a foto na Nasa mostra o
recuo de 2 km desde 1973 do glaciar Breidamerkurj, na
Islândia. Em cima, à direita, a queima
de combustíveis fósseis é a maior
responsável pelo aquecimento global. Embaixo,flagrante
de protesto cada vez mais freqüente contra o efeito
estufa e, à direita, foto aérea de Caapiranga,
perto de Manaus, durante a seca de 2005: a região
sempre alagada, virou um charco. |
O cientista acredita que os governos domundo devem planejar
o quanto antes quais serão os alimentos e quais serão
as fontes de energia que poderão ser utilizados quando
o aquecimento global tiver realmente chegado ao seu ápice.
Além disso, devem ser previstas defesas para proteger
e retirar as populações litorâneas quando
ocorrerem elevações do nível do mar.
Lovelock chama a atenção para o fato de que
a subida das temperaturas ainda está tolerável
graças a uma camada de poeira na atmosfera do Hemisfério
do Norte do planeta, onde se concentram as mais intensas atividades
industriais em todo o mundo. Essa camada nos protege artificialmente
da radiação do Sol por meio de um fenômeno
conhecido como “escurecimento global”. Porém,
se ocorrer uma drástica redução dessa
camada de poluentes, haverá um aumento radical da temperatura
global.
Uma das idéias mais impressionantes de A Vingança
de Gaia é que devemos elaborar imediatamente um guia
para os sobreviventes do aquecimento global, a fim de ajudar
os seres humanos que ainda resistirem após o colapso
total da civilização.
Para Lovelock, esse guia contendo todos os conhecimentos essenciais
que a humanidade conquistou arduamente ao longo de milênios
de civilização deve ser escritos não
em computador, mas “em papel resistente, com cópias
de longa duração”. Em seu conteúdo
devem constar, por exemplo, informações sobre
a nossa posição no Sistema Solar ou como se
proteger de bactérias e vírus que causam doenças
infecciosas. Enfim, um guia direcionado a um planeta que corre
o sério risco de destruição diante do
aquecimento global – a maior ameaça que a humanidade
já enfrentou, porque põe em xeque a possibilidade
real de se preservar a vida na Terra. Nas próximas
décadas, as temperaturas elevadas poderão tornar
inviável a agricultura em grandes áreas, principalmente
nos países mais pobres onde imensas populações
já sofrem com a fome e a miséria. As fontes
de água, que já são exíguas, poderão
se extinguir por completo. Os níveis do mar se elevarão,
destruindo substancialmente áreas litorâneas
dos países de baixas altitudes, o que se torna ainda
mais grave nesse momento em que suas populações
crescem vertiginosamente.
Os inúmeros refugiados ambientais esgotarão
a capacidade de qualquer país para lidar com os problemas
de sobrevivência. O caos será ainda maior quando
a infra-estrutura urbana sofrer a devastação
provocada por eventos climáticos extremamente poderosos,
tais como o furacão Katrina que destruiu Nova Orleans,
nos Estados Unidos, em 2005. A comunidade científica
internacional aceita plenamente a necessidade de se conter
o aquecimento global proposta pelo Painel Intergovernamental
de Mudanças Climáticas das Nações
Unidas (IPCC). Em seu último relatório, realizado
em 2001, o órgão apontou que, antes do final
deste século, as temperaturas médias globais
irão se elevar em até 5,8oC. Nas latitudes elevadas,
o aumento será ainda maior e poderá chegar a
8oC. O aquecimento parece prosseguir mais rapidamente do que
o previsto: relatório do IPCC de 2007, indica que esse
tempo poderá ser ainda mais curto. Ainda perdura uma
suposição de que as mudanças climáticas
poderão ser controladas, caso as emissões do
CO2 sejam reduzidas. No entanto, James Lovelock adverte: não
é bem assim. Então, é preciso repensar
em tudo seriamente. E muito rapidamente.
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AS
MAIORES VÍTIMAS
Também na Malásia, a foto em preto-e-branco
mostra uma menina em meio a um inferno de fumaça
e carvão. Ao lado, como mostra a leoa da foto,
os animais enjaulados nos zôos sofrem ainda mais
por causa do calor. Na foto inferior, o derretimento
da banquisa no Ártico está provocando
enorme impacto na ecologia e na vida selvagem da região.
O número de ursos polares diminui assustadoramente. |
Por que Gaia está
se vingando de nós?
Não importa o que façamos, a
sociedade humana, como nós a conhecemos hoje, está
condenada pelas mudanças climáticas. Essa idéia
parece não apenas ser muito radical, mas um exagero
bizarro. Instintivamente nós negamos essa possibilidade,
pois ela parece ser uma especulação muito sombria.
Porém, James Lovelock tem uma visão catastrófica
para o destino de nosso planeta. A Teoria de Gaia
mostra que a Terra conspira a favor da vida. Mas, por uma
ironia do destino, esse mesmo sistema se volta hoje contra
nós. Um dos exemplos mais visíveis é
o derretimento da calota polar na região do Ártico.
O que irá acontecer com os ursos que necessitam de
gelo para caçar e sobreviver? Quando esse gelo se derreter,
o oceano irá absorver o calor, em vez de refleti-lo
de volta para a atmosfera. O aquecimento será ainda
maior. As previsões de James Lovelock são baseadas
na inevitabilidade do sistema de Gaia: “Se duplicarmos
a quantidade de CO2 em Marte, que é um planeta sem
vida, podemos prever qual será o aumento da temperatura
da sua atmosfera”. Porém, se fizermos isso na
Terra, essa previsão se torna impossível, pois
não sabemos como o biota – o conjunto de formas
de vida aqui existentes – irá reagir. “Despejar
toneladas de CO2 na atmosfera, cultivar imensas áreas
e destruir florestas não irá resultar apenas
num aumento linear da temperatura, mas sim num aumento progressivo”,
sentencia Lovelock. Segundo ele, quando se destrói
um dos pontos de sustentação do delicado equilíbrio
do ecossistema terrestre, a temperatura aumenta ainda mais
rapidamente, tendendo ao infinito. “É como se
estivéssemos passeando prazerosamente de barco pelas
Cataratas do Niágara e, ao nos aproximarmos da queda,
percebemos que os motores pararam de funcionar. Aí,
já é tarde demais para saltar do barco e o desastre
se torna inevitável.”
Para ele, a maioria dos cientistas ainda não tem conhecimento
sobre a teoria de sistemas: “Eles seguem a visão
de Descartes e acreditam que tudo pode ser explicado se os
fenômenos forem reduzidos até o nível
atômico para serem reconstruídos depois.”
Já a análise de Lovelock parte de uma visão
holística, que observa os sistemas integralmente, como
eles funcionam e quais são suas inter-relações.
Diante desse ponto de vista, perguntei a ele como podemos
resumir a mensagem de seu novo livro. Lovelock simplesmente
me disse: “É um chamado de alerta!”
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