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TERMAS SULFUROSAS
As casas de madeira na capital Roseau (em cima)
são multicoloridas, celebrando a alegre personalidade
caribenha. Acima, à esquerda, a Baía de
Soufrière e o pacato e colorido vilarejo de pescador
com o mesmo nome, na costa sul da ilha. Na baía
desemboca um riacho de águas termais sulfurosas.
À direita, as terras vulcânicas de Dominica
e o clima tropical proporcionam à ilha uma vegetação
abundante, como no Parque Nacional Morne Trois Pitons. |
VIAJOLOGIA
DOMINICA
Na Ilha natureza em busca de cachoeiras
e fumarolas
Uma belíssima ilha independente da Coroa Britânica
desde 1978, com apenas 70 mil habitantes e uma modesta área
de 754 km²
Texto e fotos: Haroldo Castro
Ainda não estou convencido que minha fantasia
de conhecer todos os países do mundo é realista
ou até mesmo viável. Certamente essa proeza
não me fará entrar no Guinness Book, uma vez
que a categoria “pessoa mais viajada” foi abolida
do livro dos recordes no século passado. Talvez essa
ilusão seja apenas fruto de um bizarro delírio
ou de algum trauma de infância, quando meu pai incluiu
Andarahy como um dos meus sobrenomes. Mas a verdade é
que andar po aí faz parte da minha sina e, quanto mais
viajo, mais vontade tenho de percorrer o mundo. No início
do ano, tempo de decisões e de votos renovados, resolvi
fazer as contas para avaliar se era realmente possível,
ainda nesta reencarnação, fechar os 222 países
e territórios existentes hoje no planeta. Para mim,
faltam uns 90 e ter realizado 60% da meta me dá alguma
esperança. Durante uma década de viagens intensas,
eu poderia cumprir a promessa à Omega Megog, divindade
da Viajologia. Mas para encontrar hoje um “país
novo” não é brinquedo, não. As
nações óbvias já foram visitadas
várias vezes e somente pequenas ilhas ou países
distantes sobram na lista. Por isso, quando surgiu a possibilidade
de uma viagem ao Caribe, minha prioridade passou a ser conhecer
uma das quatro nações ainda não visitadas.
Mesmo se por apenas um dia.
A escolha recaiu em Dominica, uma ilha independente da Coroa
Britânica desde 1978, com apenas 70 mil habitantes.
Possui, como a maioria das outras ilhas caribenhas, uma área
bem modesta: seus 754 km2 representam apenas a metade do município
de São Paulo. Dominica conta com o maior número
de vulcões ativos na região. Enquanto algumas
das ilhas das Antilhas abrigam um único vulcão,
Dominica congrega nove. Entretanto, desde 1493, quando Cristóvão
Colombo ancorou numa enseada, num domingo ensolarado (daí
vem o nome da ilha), não se tem conhecimento de nenhuma
erupção. Isso não significa que não
exista atividade vulcânica – e um dos meus objetivos
durante as oito horas em terra era precisamente observar algum
desses vestígios.
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ÁGUA
ESMERALDA
Dentro do Parque Nacional Morne Trois Pitons,
a Piscina Esmeralda é uma das dezenas de cachoeiras
de água cristalina da ilha (à esq.). Acima
e à direita, a capital Roseau; toda a ilha é
extremamente montanhosa. Embaixo, à direita,
no vilarejo Scotts Head, pescadores limpam a rede de
arrastão que será utilizada no dia seguinte.
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Ao desembarcar no porto da capital Roseau, contatei imediatamente
a sra. Casemira, proprietária de uma garagem, que confirmou
ter um jipe à minha espera. Quando nos encontramos
e mencionei que eu pretendia visitar Boiling Lake, a bem nutrida
caribenha deu uma forte gargalhada, me deixando abobalhado
por um instante. “Você pretende ir correndo pela
trilha até chegar ao lago?”, perguntou ela, fazendo
troça do meu programa inicial. “Você precisaria
de quatro horas a pé para alcançar o lago e
mais quatro para regressar. Se você pensa passar apenas
um dia na nossa ilha, aconselho que visite outros lugares”,
concluiu, não deixando margem a nenhuma negociação.
Conformado que o lago de águas sulfurosas ferventes
(com uma temperatura média de 88ºC) ficaria para
uma próxima visita, abri o mapa e pedi a Casemira que
marcasse alguns de seus lugares prediletos. Ela foi direto
ao centro da ilha e sublinhou Emerald Pool, a Piscina Esmeralda.
“Como estarei indo naquela direção, aconselho
que você me siga. Não temos muitas placas de
sinalização nas nossas estradas”, disse
ela sorrindo, deixando entender que eu dificilmente encontraria
a cachoeira sozinho. Concordei com Casemira quando ela, à
minha frente, começou a subir uma rua estreita, cheia
de meandros e de forquilhas. Não havia nenhuma placa.
Confirmei que é sempre bom seguir as dicas dos habitantes
locais para ganhar tempo.
A cachoeira que buscávamos estava localizada dentro
do Parque Nacional Morne Trois Pitons – Montanha dos
Três Picos, em francês. A formação
vulcânica é a segunda mais alta do país,
chegando a quase 1.400 metros de altitude. O parque, estabelecido
pelo Parlamento em 1975, foi reconhecido pela Unesco como
Patrimônio Mundial em1997. À medida que subíamos
a encosta, a vegetação tropical se mostrava
cada vez mais exuberante. As férteis terras vulcânicas
e a abundante chuva conferem à Dominica o título
de “Ilha-Natureza”. Pude constatar a imensa diversidade
de plantas ao chegar à trilha que nos levaria à
piscina natural. Bromélias, samambaias e epífitas
davam um gostinho de Mata Atlântica – mas o que
não temos nas cachoeiras brasileiras é uma água
tão turquesa como a da Piscina Esmeralda. Após
um mergulho rejuvenescedor e com o relógio mostrando
que eu só tinha cinco horas pela frente, tomei o rumo
sul, em busca de uma fonte sulfurosa. Casemira tinha me dito
que a sete quilômetros de Roseau, no vilarejo de Soufrière,
eu poderia encontrar uma nascente de águas quentes.
Soufrière significa em francês “lugar
de enxofre”. O nome é comum no Caribe, pois designa
dois vilarejos (um em Santa Lúcia e outro em Dominica)
e três vulcões (em Montserrat, Saint Vincent
e Guadalupe). A erupção do Soufrière
de Montserrat provocou, a partir de 1995, grandes estragos
na pequena ilha britânica. A capital Plymouth foi abandonada
e metade do território não pode ser habitado
ainda por uma década. O vilarejo Soufrière de
Dominica é bem mais ameno e pitoresco. Seguindo um
estreito caminho encosta acima, descobri a fonte termal e
mais uma piscina. Pedi licença aos banhistas –
um grupo de senhoras negras e seus filhotes espevitados –
para avaliar a temperatura da água. Estava quentinha,
como se fosse a de uma banheira. Mas a cor da água
e seu cheiro de enxofre não tinham nada em comum com
a Piscina Esmeralda. Apesar dos simpáticos convites
para entrar no jacuzzi natural, preferi não atrapalhar
a reunião de família.
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PRAIA
VULCÂNICA
Champanhe, ao sul da capital, é uma
das poucas praias da ilha. É formada de pedra
roliças e não de areia. Á esquerda,
um pescador do vilarejo Scotts Head, orientando o arrastão.
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Segui o riacho de água sulfurosa que desembocaria
obrigatoriamente no mar. Os rastros alaranjados e ocres deixados
pelo enxofre confirmavam a direção. Cheguei
finalmente a uma enseada e a uma praia de pedras roliças.
A água quente e turva se misturava delicadamente com
a água cristalina salgada, criando mais uma surpresa
da natureza de Dominica: uma piscina morna de água
do mar. O tempo, porém, continuava a passar e faltavam
menos de três horas para encerrar minha visita. Seguindo
dicas de jovens de Soufrière, continuei até
a praia Champanhe, dois quilômetros ao norte. Como a
maior parte do litoral de Dominica, essa praia também
era de pedras redondas e achatadas. Na verdade, o visitante
em busca de praias de areia branca nem deve pensar em Dominica
como destino, uma vez que as poucas areias encontradas são
de origem vulcânica, negras ou acinzentadas.
Entendi o nome da praia quando vi a garotada local com máscaras
de mergulho. Não eram apenas peixinhos coloridos que
eles espreitavam, porém, mais um fenômeno natural.
Dentro da água translúcida, centenas de minúsculas
fumarolas soltavam constantes bolhas. Estávamos envolvidos
por borbulhas cintilantes, como se fossem de mercúrio.
Nos sentíamos, literalmente, numa piscina de champanhe.
Embora a curtição valesse toda uma tarde e até
mesmo uma noite – dizem que mergulhar na praia Champanhe
em noite de Lua cheia é uma experiência inesquecível
–, resolvi aproveitar o final do dia para alcançar
Scotts Head, na ponta sul da ilha, onde o Atlântico
agitado se encontra com o pacato Caribe. Cheguei na hora certa.
Um grupo de pescadores concluía um arrastão
e a movimentação era intensa na beira do mar.
Dezenas de pessoas – homens, mulheres e crianças
– ajudavam a puxar as duas pontas da rede. Jovens com
máscaras de mergulho asseguravam que a rede de pesca
não ficasse presa nas rochas do fundo. Um pescador
experiente dava orientações de dentro de sua
canoa.
William Adams, um velho marinheiro do vilarejo, explicou
que todos que participavam do arrastão levavam algum
peixe para casa. “Metade da pesca é compartilhada
com aqueles que puxam a rede. O que sobra é dividido
entre o dono da rede e os que trabalham para ele”, esclareceu
Adams. “Se o resultado for bom, ninguém sai de
estômago vazio.” Fiquei até o final para
matar a curiosidade e comprovar que o resultado – mais
de 50 quilos de peixe – havia sido satisfatório.
O sol baixo no horizonte apontava que eu deveria retornar
a Roseau. Como a capital alberga casas de madeira multicoloridas,
celebrando o charme caribenho, ainda perambulei pelas ruelas
do bairro do mercado, puxando conversa aqui e fotografando
acolá. Aproveitei a luz do sol até a sua última
gota. Mesmo ficando apenas oito horas em Dominica, adorei
suas montanhas, enseadas e fenômenos naturais. Entretanto,
gostei mais ainda do que não encontrei. Contrastando
com a maioria dos portos do Caribe, em Roseau não vi
cassinos, lojas de diamantes, quiosques de camisetas para
turistas e os onipresentes restaurantes fast-food. Espero
que a “Ilha-Natureza” continue resguardada dessas
invasões por mais uma década e eu possa retornar
algum dia a Dominica para conhecer o lago de águas
ferventes. “
Conhecer
Dominica é um dos 222 países e territórios
que constam do Teste de Viajologia Mundial.
Haroldo Castro, fundador do Clube
de Viajologia, viaja como fotojornalista e diretor de documentários.
Dominica foi se 132º país visitado.
CLUBE DE VIAJOLOGIA
Texto e Fotos: Haroldo Castro
haroldo@viajologia.com.br
www.viajologia.com.br
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