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BANHO DE SOL
O iguana-marinho de Galápagos (Amblyrhynchus
cristatus) se alimenta principalmente de algas.
Centenas deles se reúnem nas pedras vulcânicas,
sob o sol, para absorver o calor. |
VIAJOLOGIA
GALÁPAGOS
A destruição das espécies
no arquipélago de Darwin
Parece que a lição deixada pelo cientista rendeu
pouco efeito. Como um lugar tão excepcional, que serviu
de inspiração para compreender a origem de nossa
própria espécie, pode ser destruído de
forma tão covarde?
Texto e fotos: Haroldo Castro
Existe nos Estados Unidos um caloroso debate sobre
como explicar para estudantes a criação das
espécies. De um lado, estão cristãos
fundamentalistas que acreditam que Deus criou – do nada
ou do caos – o universo e nosso mundo. Até o
início do século 20, quase todas as escolas
norte-americanas consideravam a Bíblia, além
de livro sagrado, como um compêndio de ciências.
Baseada na premissa de que a Bíblia é infalível,
os evangélicos propunham – e ainda propõem
– que a criação de tudo que existe foi
uma obra divina, interpretando literalmente os versículos
do livro do Gênese. Essa linha de pensamento é
chamada de criacionismo. Do outro lado da controvérsia
estão a comunidade científica e os pesquisadores
que conseguiram montar um quebra-cabeça explicando
que a evolução da vida na Terra se fez de maneira
gradativa. Espécies se desenvolveram tendo como base
uma espécie anterior e todos os organismos existentes
se relacionam com um ancestral comum. A evolução
das espécies seria a responsável pela criação
da magnífica diversidade de vida na Terra.
Quem deu início, sem saber, a essa polêmica
entre criação e evolução foi Charles
Darwin, biólogo e geólogo inglês, quando
ele descreveu a teoria da seleção natural no
livro As Origens das Espécies. Darwin havia sido convidado
para participar de uma expedição a bordo do
navio britânico HMS Beagle e, ao chegar ao arquipélago
de Galápagos em 1835, se surpreendeu com a quantidade
de animais e plantas que ele jamais havia observado. Ficou
fascinado quando soube que as tartarugas gigantes eram distintas
em cada ilha do arquipélago. Durante cinco semanas,
o jovem naturalista, então com apenas 26 anos, coletou
espécies em quatro ilhas. Quando regressou à
Inglaterra, deparou-se com outra constatação:
os tentilhões de cada ilha também mostravam
diferenças marcantes entre si. O tamanho dos bicos
das aves variava de acordo com a ilha e com a dieta de grãos.
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GAIVOTA
NOTURNA
Em cima, à esquerda, o pingüim
de Galápagos, que é endêmico do
arquipélago e, segundo a Lista Vermelha da UICN,
está ameaçado de extinção;
abaixo, à esquerda, a gaivota de cauda bifurcada,
que também só existe em Galápagos
e é a única gaivota noturna. À
direita, do topo do vulcão, o ponto mais alto
da Ilha Bartolomeu, avista-se a Rocha do Pináculo,
a Baía Sullivan e, ao fundo, a Ilha de Santiago.
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Em 1859, 24 anos depois de sua visita às ilhas encantadas,
Darwin finalmente apresentou uma nova perspectiva ao mundo,
com a publicação de sua teoria da seleção
natural. Ele explicou que organismos com certas características
favoráveis tinham mais chances de sobreviver do que
outras (sem esses mesmos traços) e assim passar essa
herança às gerações seguintes.
Com o tempo, essas características positivas de um
mesmo grupo de organismos resultariam na formação
de uma nova espécie, melhor adaptada a seu ambiente.
Os tentilhões de Galápagos evidenciavam esse
processo, indicando que a evolução das espécies
teria acontecido dessa forma em todo o planeta. Para qualquer
amante da natureza, viajar às ilhas de Galápagos
é, portanto, uma aventura emblemática, pois
significa compreender, in loco, a evolução da
Terra. E a maneira mais apropriada para conhecer o arquipélago
é viajar como o próprio Darwin fez, conhecendo
ilha a ilha. Durante sete dias, o barco Daphne transformou-se
em nossa casa e nos levou aos mais belos recantos desse arquipélago
localizado a quase mil quilômetros da costa do Equador.
Formadas por erupções vulcânicas entre
dois e dez milhões de anos, as 20 ilhas e 40 ilhotas
comportam uma população de animais e plantas
totalmente singulares. O próprio nome do arquipélago
se inspira em uma espécie de tartaruga gigante, somente
encontrada na região.
Começamos nossas explorações descobrindo
as iguanas terrestres e marinhas. Com tão pouca vegetação
disponível, cada espécie foi obrigada a encontrar
seu próprio nicho de alimentos. As que vivem no solo
são meio amareladas e sua dieta se baseia em suculentos
cactos. Já as iguanas marinhas adoram algas e são
negras, confundindo-se impecavelmente com as pedras vulcânicas
do litoral. Ambas chegaram do continente americano há
milhões de anos, trazidas por alguma ilha de vegetação.
Esse meio de transporte flutuante foi utilizado por répteis,
pequenos mamíferos e insetos para viajar até
o arquipélago. Essa jornada penosa, de pelo menos três
semanas e debaixo de um tremendo sol equatorial, limitou os
primeiros imigrantes. Por isso, nenhum anfíbio ou grande
mamífero conseguiu chegar a Galápagos e formar
família. Os leões-marinhos, as tartarugas e
os pingüins vieram nadando. O pingüim endêmico
de Galápagos utilizou o fluxo de uma das correntes
frias vindas do sul. Chegou, casou, teve filhos e ficou. Em
vez de regressar à Antártica, preferiu sua nova
residência na linha do Equador. A cada ilha visitada,
os habitantes nativos nos esperavam sem medo. Muitas vezes
encontramos leões-marinhos e iguanas no meio das trilhas
e tínhamos de desviar nossos passos. Ao contrário
dos animais do continente, os de Galápagos não
vêm o ser humano como um predador.
Minha grande descoberta aconteceu embaixo d'água.
A cada mergulho, as águas cristalinas e turquesas do
Pacífico revelavam suas maravilhas. Em uma das primeiras
incursões, passei alguns minutos conversando, olho
a olho, com uma doce raia-diamante. Ela descansava na areia
do fundo do mar e todo seu corpo seguia um leve movimento
ondulante. No dia seguinte, a surpresa aconteceu com uma tartaruga:
nadamos lado a lado como se estivéssemos voando juntos.
Mais tarde, um grupo de leões- marinhos parecia estar
se divertindo à minha custa, girando em alta velocidade
ao meu redor e me deixando totalmente estonteado. A experiência
mais emocionante foi o encontro com um dos gigantes do mar.
Mergulhávamos perto dos arrecifes quando nosso guia
resolveu sair em direção ao mar aberto. Em poucos
minutos nos encontramos cercados por um mundo totalmente azul.
A não ser pela roupa negra e os tanques de alumínio
dos mergulhadores, não víamos nenhuma outra
cor ao nosso redor. Era como se estivéssemos perdidos
na imensidão de um céu.
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ARQUIPÉLAGO
RARO
Em cima e à esquerda, uma tartaruga
gigante de Galápagos, que deu nome ao arquipélago;
no meio, um iguana-terrestre, endêmico da região;
embaixo, ainda à esquerda, um leão-marinho,
animal inteligente, que gosta de se divertir com os
mergulhadores. À direita, uma tomada da Ilha
Bartolomeu, onde existem poucos animais e a vegetação
é rara.
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O dedo do guia nos indicou algumas sombras. Elas se aproximavam
num elegante movimento. As formas escuras se transformaram,
pouco a pouco, em animais nítidos. Quando vimos sete
tubarões-martelo passar à nossa frente, prendemos
a respiração por alguns segundos. Acredito que
os tubarões nem tomaram conhecimento da nossa existência,
mas, para mim, foi um momento que marcou meu currículo
de viajólogo. De volta ao barco, ainda extasiados com
a cena, nosso guia resolveu nos dar uma ducha fria e contar
que a realidade dos tubarões de Galápagos não
era tão romântica como a imagem que tínhamos
acabado de ver. “Existe muita pesca ilegal, principalmente
na Ilha Isabela, onde mais de três mil tubarões
são capturados por mês”, disse o guia,
que pediu para não ser identificado, com medo de retaliações.
“Os pescadores ilegais têm apoio de políticos
poderosos e até da polícia; enquanto isso, o
Parque Nacional Galápagos não faz nada para
frear essa pressão, pois não tem recursos nem
pessoal”, completou.
Ele pediu licença para ir a seu camarote e regressou
com alguns artigos de página inteira de diários
locais. Reconheci o nome de um dos jornalistas, Franklin Vega,
que trabalhava no El Comercio de Quito. A reportagem de Franklin
delatava o massacre de tubarões e explicava que a razão
da chacina é a exportação de barbatanas
para o mercado asiático. Consideradas como iguarias
pela culinária chinesa, as cartilagens são apreciadas
por suas propriedades pseudo-afrodisíacas e apenas
por sua textura, uma vez que não possuem nenhum sabor.
“Um quilo de barbatanas secas vale 65 dólares
no Equador, porém um prato de sopa em um restaurante
em Hong Kong pode custar cem dólares. Acredita-se que
80% das exportações equatorianas de barbatanas
provêm de tubarões caçados ilegalmente
no Parque Nacional Galápagos”, revelava Franklin
em seu artigo “Desenfreado Massacre de Tubarões
em Galápagos”.
As denúncias contra a devastação dos
recursos naturais marinhos de Galápagos são
inúmeras e a imprensa equatoriana tem realizado um
bom trabalho de cão de guarda. Além do extermínio
dos tubarões, outras espécies estão em
perigo. Lagostas, bacalhaus e pepinos-do-mar são recolhidos
acima da taxa de sustentablidade e suas populações
diminuem anualmente. Enquanto isso, os políticos e
a indústria pesqueira fazem vista grossa e o governo
autoriza a exportação.
Parece que a lição deixada por Charles Darwin
rendeu pouco efeito em Galápagos. Como um lugar tão
excepcional, que serviu de inspiração para compreender
a origem da nossa própria espécie, pode ser
tão pouco protegido e destruído de forma tão
covarde? “
Conhecer
Galápagos é um dos 150 Lances de Viajologia
que constam do Teste de Viajologia Mundial.
Haroldo Castro, fundador do Clube
de Viajologia e vice-presidente de comunicação
da ONG Conservação Internacional, viaja como
fotojornalista e diretor de documentários e visitou
131 países. Ele esteve em Galápagos duas vezes.
CLUBE DE VIAJOLOGIA
Texto e Fotos: Haroldo Castro
haroldo@viajologia.com.br
www.viajologia.com.br
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