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REVISTA PLANETA
EDIÇÃO 412

 
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JANEIRO /2007

BANHO DE SOL
O iguana-marinho de Galápagos (Amblyrhynchus cristatus) se alimenta principalmente de algas. Centenas deles se reúnem nas pedras vulcânicas, sob o sol, para absorver o calor.

 

VIAJOLOGIA
GALÁPAGOS
A destruição das espécies no arquipélago de Darwin


Parece que a lição deixada pelo cientista rendeu pouco efeito. Como um lugar tão excepcional, que serviu de inspiração para compreender a origem de nossa própria espécie, pode ser destruído de forma tão covarde?


Texto e fotos: Haroldo Castro

Existe nos Estados Unidos um caloroso debate sobre como explicar para estudantes a criação das espécies. De um lado, estão cristãos fundamentalistas que acreditam que Deus criou – do nada ou do caos – o universo e nosso mundo. Até o início do século 20, quase todas as escolas norte-americanas consideravam a Bíblia, além de livro sagrado, como um compêndio de ciências. Baseada na premissa de que a Bíblia é infalível, os evangélicos propunham – e ainda propõem – que a criação de tudo que existe foi uma obra divina, interpretando literalmente os versículos do livro do Gênese. Essa linha de pensamento é chamada de criacionismo. Do outro lado da controvérsia estão a comunidade científica e os pesquisadores que conseguiram montar um quebra-cabeça explicando que a evolução da vida na Terra se fez de maneira gradativa. Espécies se desenvolveram tendo como base uma espécie anterior e todos os organismos existentes se relacionam com um ancestral comum. A evolução das espécies seria a responsável pela criação da magnífica diversidade de vida na Terra.

Quem deu início, sem saber, a essa polêmica entre criação e evolução foi Charles Darwin, biólogo e geólogo inglês, quando ele descreveu a teoria da seleção natural no livro As Origens das Espécies. Darwin havia sido convidado para participar de uma expedição a bordo do navio britânico HMS Beagle e, ao chegar ao arquipélago de Galápagos em 1835, se surpreendeu com a quantidade de animais e plantas que ele jamais havia observado. Ficou fascinado quando soube que as tartarugas gigantes eram distintas em cada ilha do arquipélago. Durante cinco semanas, o jovem naturalista, então com apenas 26 anos, coletou espécies em quatro ilhas. Quando regressou à Inglaterra, deparou-se com outra constatação: os tentilhões de cada ilha também mostravam diferenças marcantes entre si. O tamanho dos bicos das aves variava de acordo com a ilha e com a dieta de grãos.

GAIVOTA NOTURNA
Em cima, à esquerda, o pingüim de Galápagos, que é endêmico do arquipélago e, segundo a Lista Vermelha da UICN, está ameaçado de extinção; abaixo, à esquerda, a gaivota de cauda bifurcada, que também só existe em Galápagos e é a única gaivota noturna. À direita, do topo do vulcão, o ponto mais alto da Ilha Bartolomeu, avista-se a Rocha do Pináculo, a Baía Sullivan e, ao fundo, a Ilha de Santiago.

 

Em 1859, 24 anos depois de sua visita às ilhas encantadas, Darwin finalmente apresentou uma nova perspectiva ao mundo, com a publicação de sua teoria da seleção natural. Ele explicou que organismos com certas características favoráveis tinham mais chances de sobreviver do que outras (sem esses mesmos traços) e assim passar essa herança às gerações seguintes. Com o tempo, essas características positivas de um mesmo grupo de organismos resultariam na formação de uma nova espécie, melhor adaptada a seu ambiente. Os tentilhões de Galápagos evidenciavam esse processo, indicando que a evolução das espécies teria acontecido dessa forma em todo o planeta. Para qualquer amante da natureza, viajar às ilhas de Galápagos é, portanto, uma aventura emblemática, pois significa compreender, in loco, a evolução da Terra. E a maneira mais apropriada para conhecer o arquipélago é viajar como o próprio Darwin fez, conhecendo ilha a ilha. Durante sete dias, o barco Daphne transformou-se em nossa casa e nos levou aos mais belos recantos desse arquipélago localizado a quase mil quilômetros da costa do Equador. Formadas por erupções vulcânicas entre dois e dez milhões de anos, as 20 ilhas e 40 ilhotas comportam uma população de animais e plantas totalmente singulares. O próprio nome do arquipélago se inspira em uma espécie de tartaruga gigante, somente encontrada na região.

Começamos nossas explorações descobrindo as iguanas terrestres e marinhas. Com tão pouca vegetação disponível, cada espécie foi obrigada a encontrar seu próprio nicho de alimentos. As que vivem no solo são meio amareladas e sua dieta se baseia em suculentos cactos. Já as iguanas marinhas adoram algas e são negras, confundindo-se impecavelmente com as pedras vulcânicas do litoral. Ambas chegaram do continente americano há milhões de anos, trazidas por alguma ilha de vegetação. Esse meio de transporte flutuante foi utilizado por répteis, pequenos mamíferos e insetos para viajar até o arquipélago. Essa jornada penosa, de pelo menos três semanas e debaixo de um tremendo sol equatorial, limitou os primeiros imigrantes. Por isso, nenhum anfíbio ou grande mamífero conseguiu chegar a Galápagos e formar família. Os leões-marinhos, as tartarugas e os pingüins vieram nadando. O pingüim endêmico de Galápagos utilizou o fluxo de uma das correntes frias vindas do sul. Chegou, casou, teve filhos e ficou. Em vez de regressar à Antártica, preferiu sua nova residência na linha do Equador. A cada ilha visitada, os habitantes nativos nos esperavam sem medo. Muitas vezes encontramos leões-marinhos e iguanas no meio das trilhas e tínhamos de desviar nossos passos. Ao contrário dos animais do continente, os de Galápagos não vêm o ser humano como um predador.

Minha grande descoberta aconteceu embaixo d'água. A cada mergulho, as águas cristalinas e turquesas do Pacífico revelavam suas maravilhas. Em uma das primeiras incursões, passei alguns minutos conversando, olho a olho, com uma doce raia-diamante. Ela descansava na areia do fundo do mar e todo seu corpo seguia um leve movimento ondulante. No dia seguinte, a surpresa aconteceu com uma tartaruga: nadamos lado a lado como se estivéssemos voando juntos. Mais tarde, um grupo de leões- marinhos parecia estar se divertindo à minha custa, girando em alta velocidade ao meu redor e me deixando totalmente estonteado. A experiência mais emocionante foi o encontro com um dos gigantes do mar. Mergulhávamos perto dos arrecifes quando nosso guia resolveu sair em direção ao mar aberto. Em poucos minutos nos encontramos cercados por um mundo totalmente azul. A não ser pela roupa negra e os tanques de alumínio dos mergulhadores, não víamos nenhuma outra cor ao nosso redor. Era como se estivéssemos perdidos na imensidão de um céu.

ARQUIPÉLAGO RARO
Em cima e à esquerda, uma tartaruga gigante de Galápagos, que deu nome ao arquipélago; no meio, um iguana-terrestre, endêmico da região; embaixo, ainda à esquerda, um leão-marinho, animal inteligente, que gosta de se divertir com os mergulhadores. À direita, uma tomada da Ilha Bartolomeu, onde existem poucos animais e a vegetação é rara.

 

O dedo do guia nos indicou algumas sombras. Elas se aproximavam num elegante movimento. As formas escuras se transformaram, pouco a pouco, em animais nítidos. Quando vimos sete tubarões-martelo passar à nossa frente, prendemos a respiração por alguns segundos. Acredito que os tubarões nem tomaram conhecimento da nossa existência, mas, para mim, foi um momento que marcou meu currículo de viajólogo. De volta ao barco, ainda extasiados com a cena, nosso guia resolveu nos dar uma ducha fria e contar que a realidade dos tubarões de Galápagos não era tão romântica como a imagem que tínhamos acabado de ver. “Existe muita pesca ilegal, principalmente na Ilha Isabela, onde mais de três mil tubarões são capturados por mês”, disse o guia, que pediu para não ser identificado, com medo de retaliações. “Os pescadores ilegais têm apoio de políticos poderosos e até da polícia; enquanto isso, o Parque Nacional Galápagos não faz nada para frear essa pressão, pois não tem recursos nem pessoal”, completou.

Ele pediu licença para ir a seu camarote e regressou com alguns artigos de página inteira de diários locais. Reconheci o nome de um dos jornalistas, Franklin Vega, que trabalhava no El Comercio de Quito. A reportagem de Franklin delatava o massacre de tubarões e explicava que a razão da chacina é a exportação de barbatanas para o mercado asiático. Consideradas como iguarias pela culinária chinesa, as cartilagens são apreciadas por suas propriedades pseudo-afrodisíacas e apenas por sua textura, uma vez que não possuem nenhum sabor. “Um quilo de barbatanas secas vale 65 dólares no Equador, porém um prato de sopa em um restaurante em Hong Kong pode custar cem dólares. Acredita-se que 80% das exportações equatorianas de barbatanas provêm de tubarões caçados ilegalmente no Parque Nacional Galápagos”, revelava Franklin em seu artigo “Desenfreado Massacre de Tubarões em Galápagos”.
As denúncias contra a devastação dos recursos naturais marinhos de Galápagos são inúmeras e a imprensa equatoriana tem realizado um bom trabalho de cão de guarda. Além do extermínio dos tubarões, outras espécies estão em perigo. Lagostas, bacalhaus e pepinos-do-mar são recolhidos acima da taxa de sustentablidade e suas populações diminuem anualmente. Enquanto isso, os políticos e a indústria pesqueira fazem vista grossa e o governo autoriza a exportação.

Parece que a lição deixada por Charles Darwin rendeu pouco efeito em Galápagos. Como um lugar tão excepcional, que serviu de inspiração para compreender a origem da nossa própria espécie, pode ser tão pouco protegido e destruído de forma tão covarde? “

Conhecer Galápagos é um dos 150 Lances de Viajologia
que constam do Teste de Viajologia Mundial.

Haroldo Castro, fundador do Clube de Viajologia e vice-presidente de comunicação da ONG Conservação Internacional, viaja como fotojornalista e diretor de documentários e visitou 131 países. Ele esteve em Galápagos duas vezes.
CLUBE DE VIAJOLOGIA
Texto e Fotos: Haroldo Castro
haroldo@viajologia.com.br
www.viajologia.com.br