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CORREDOR DE BROMÉLIAS
Na foto maior, uma vista parcial do Parque
Nacional de Itatiaia, na Serra da Mantiqueira, que foi
criado em 1937. Abaixo à esquerda, uma Amaryllis
(açucena) no Maciço da Prateleiras. À
direita, Carlos Simas - proprietário da Mitra
do Bispo, uma reserva particular do Patrimônio
Natural - e seu filho Nemo, no chamado "Corredor
das Bromélias". |
VIAJOLOGIA
SERRA
DA MANTIQUEIRA
As pedras protegidas de Itatiaia
e da Mitra do Bispo
Texto e fotos: Haroldo Castro
Minha viagem para filmar a Serra da Mantiqueira,
em outubro passado, representou uma guinada na minha vida,
pois foi a última filmagem que realizei para a Conservação
Internacional. Ela teve um gosto doce de alívio, misturado
ao sabor amargo de separação brusca, porém,
imperativa. Os elementos naturais pareciam acompanhar minhas
emoções. Nuvens escuras, chuvas intermitentes
e um frio desagradável estavam de conivência
com os desafios que eu vivia internamente. Um raio de sol
fortuito – como uma brecha acidental aberta por alguma
nuvem de esperança – era sempre motivo para um
clique fotográfico. Eu nunca havia visitado o Parque
Nacional do Itatiaia, o primeiro a ser criado no Brasil. Havia
ouvido muitas estórias, inclusive do meu próprio
pai, Armando de Faria Castro. Ele dizia que havia feito parte
da comissão que estabelecera o parque em 1937. Confirmava
o fato com uma velha foto preto-e-branco, que mostrava o presidente
Getúlio Vargas com ele e outros senhores usando chapéus,
ternos escuros e gravatas finas, passeando por uma alameda
cheia de hortênsias. O retrato deve ter sido captado
no próprio parque, na sua parte baixa, perto de Resende.
Meu interesse era conhecer de perto o Pico das Agulhas Negras
e o Maciço das Prateleiras. Para isso, precisávamos
dar uma volta grande, passar por três estados (RJ, SP
e MG) e entrar no Parque do Itatiaia pela sua “parte
alta”. Já era noite quando saímos da Via
Dutra e pegamos a estrada para Itamonte, MG, em busca da Pousada
dos Lobos. Perguntei aos guardas da guarita de fiscalização
da Garganta do Registro como eu deveria fazer para chegar
à pousada. Eles riram de minha ingenuidade. “Com
esse carro baixo, você não chega lá, não.
São 12 km de estrada de terra, com muitos buracos”,
disse um deles. “Se dirigir com cuidado, quem sabe…
Mas vai demorar umas três horas; vocês vão
chegar à meia-noite. E muito cuidado com as pedras”,
expôs o mais esperançoso.
Os primeiros 8 km faziam parte da estrada de acesso ao parque.
Antigamente – muito antigamente mesmo – a estrada
era asfaltada. Ainda era possível encontrar trechos
de 50 ou 100 metros com uma capa macia de pavimentação.
Os amortecedores do carro agradeciam esse refresco momentâneo.
Mas, à medida que a estrada subia, o tamanho dos buracos
e das pedras também aumentava.
Dirigi com atenção e demorei uma hora para chegar
até a encruzilhada onde vi a placa da pousada. Os restantes
4 km, embora em descida estonteante, foram mais fáceis.
A estrada estava ladrilhada de paralelepípedos pois
era utilizada por caminhões de madeireiros. Graças
à indústria do desmatamento da Mata Atlântica,
conseguimos chegar à pousada, sãos e salvos
e com o carro ainda funcionando.
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SAPO
NAS ALTURAS
Em cima, um vendedor de leite chegando na cidade
de Aiuruoca, em Minas Gerais; um sapo visto no Parque
Nacional do Itatiaia, a 2.500 metros de altitude; e
uma samabaia de altura na Serra da mantiqueira.
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Na manhã seguinte, subimos a ladeira para reencontrar
a estrada do parque. Era uma segunda-feira e cruzamos com
dois caminhões vazios. Em poucas horas eles subiriam
a mesma rampa, trazendo toras de araucárias, cortadas
legal ou ilegalmente. Sempre me impressionou o fato de os
madeireiros conseguirem chegar aos pontos mais remotos desse
planeta, em busca dos últimos recursos naturais.
Na guarita do parque, depois de percorrer 5 km infernais,
fomos recebidos por Leandro Pinto, que propôs uma caminhada
até o Maciço das Prateleiras. Ameaçava
chover e precisávamos dar início às filmagens
imediatamente. “Mas, antes, venham conhecer o Flamenguinho”,
nos recomendou Leandro com entusiasmo. O Flamenguinho é
uma minúscula perereca de três centímetros.
Obviamente, seu corpo é preto e suas patas vermelhas.
“É uma espécie endêmica. Só
existe nessa região da Mata Atlântica”,
concluiu. Conseguimos usar o carro por apenas mais um quilômetro,
até o abrigo Rebouças. “Depois disso,
nem tanque de guerra”, riu Leandro. “Há
alguns anos, uma enxurrada levou embora a estrada.”
Compreendi melhor a alegoria do tanque quando precisei escolher
meu caminho entre buracos, poças de água, lama
e restos mortais de placas de asfalto. Mesmo com nuvens baixas
e cerração, o Pico das Agulhas Negras apareceu
de forma extasiante. Com 2.792 metros acima do nível
do mar, é a quinta montanha mais alta no Brasil. Como
caminhávamos a 2.500 metros de altitude, parecíamos
estar bem pertinho dessas pedras com gigantescas fendas verticais.
Toda a paisagem ao nosso redor formava o Planalto do Itatiaia
e era composta de campos de altitudes, com espécies
vegetais bem diferentes das que habitam a Mata Atlântica
tropical. Um vento cortante recordava que estávamos
em um outro mundo.
Ao nos aproximarmos da base das Prateleiras, nossa trilha
de terra virou caminho pelas pedras. Era preciso saltar, subir
escadas naturais e ser criativo para encontrar o caminho mais
seguro – nem sempre o mais curto. Depois de uma miniescalada,
recebemos enfim nossa recompensa: do topo de uma rocha avistávamos,
lá embaixo, um oceano de nuvens brancas que encobria
todo o Vale do Paraíba. Montanhas escuras da Serra
da Mantiqueira conseguiam romper o manto de algodão.
Alguns cerros mais humildes apareciam apenas como ilhas nesse
mar de névoa. A imagem lá de cima era mística,
como se fizesse parte de uma paisagem do filme Senhor dos
Anéis. Mas o eco amedrontador de um trovão nos
fez rapidamente cair na real. Era preciso retornar e viajar
até Caxambu, ainda naquela tarde, para que a etapa
do dia seguinte pudesse ser realizada.
Carlos e Lucia Simas conhecem profundamente o encanto da
Serra da Mantiqueira. Trocaram as praias do Rio de Janeiro
por essas terras distantes, incrustadas no meio das montanhas
mineiras, na região de Aiuruoca. Conseguiram montar
uma casa, criar cinco filhos e estabelecer uma Reserva Particular
do Patrimônio Natural (RPPN). Durante dez anos viveram
isolados do mundo, convencendo amigos e parentes que a sua
RPPN Mitra do Bispo, no município de Bocaina de Minas
(MG), merecia ser preservada e que seus aliados deveriam comprar
terras ao redor das suas.
Como no Brasil a maioria das áreas bem conservadas
está nas mãos de particulares, as RPPNs representam
uma forma criativa de aumentar o número de áreas
de conservação. Em 1996, o Ibama regulamentou
as RPPNs e centenas de proprietários passaram a procurar
a instituição federal. Apesar de não
perder o direito de propriedade, os donos das RPPNs se comprometem
a conservá-las para sempre. Mesmo se a propriedade
for vendida, os novos donos devem respeitar a área
protegida, pois a decisão é irrevogável.
Carlos Simas teve sua RPPN oficializada em 1999. “Nossas
terras estarão protegidas por décadas, talvez
séculos. Isso dá um sentido de permanência
e continuidade. Bom saber que meus netos e bisnetos terão
de cuidar de árvores que ainda nem nasceram.”
Chegar na RPPN Mitra do Bispo não é para qualquer
viajante. Tivemos de recorrer a uma Rural Wyllis de Aiuruoca
para atacar o caminho de terra, pois meu automóvel
urbanóide não daria conta dessa tarefa. Somente
com tração e marcha reduzida poderíamos
vencer os 24 km de subidas íngremes, curvas tortuosas
e pontes cambaleantes. Pedro Guatimosin, de 21 anos, bem mais
jovem que sua Rural ano 73, trabalhava como guia de ecoturismo.
Ele tinha ouvido falar da Mitra, mas não havia visitado
ainda o local. “O desconto no aluguel do carro é
porque vou aproveitar para conhecer outros visuais”,
confessou Pedro. Depois, ele quase se arrependeu. Os 24 km
foram cobertos em três horas.
No dia seguinte, partimos para a derradeira aventura: escalar
a pedra da Mitra do Bispo. Tínhamos pela frente uma
bela subida, com um desnível de mais de 500 metros:
sairíamos de 1.600 e chegaríamos a quase 2.200
metros de altitude.
Demoramos para passar por um pequeno trecho da trilha apelidada
de “Corredor das Bromélias” pela família
Simas. A cada dois metros, uma bromélia em flor nos
esperava para uma foto ou uma estória. Listamos quase
uma dezena de espécies diferentes. “Ainda bem
que as orquídeas não estão floridas,
porque, a esse passo, nunca chegaríamos no topo da
Mitra”, riu Carlos.
A floresta tropical cedeu espaço a um bosque mais
baixo e mais aberto. A camada de terra fértil era cada
vez mais escassa e fina. Finalmente, chegamos na rocha viva,
granito puro. Já não tínhamos árvores
e galhos para usar como apoio. A leve caminhada tornou-se
subida íngreme, a quatro “patas”. Os escorregões
seriam mais perigosos. O consumo de água dobrou, triplicou.
O topo parecia estar cada vez mais longe.
Quando eu já pensava em desistir, um suave raio de
sol me fez recobrar forças para a escalada final. Enquanto
eu retomava meu fôlego, Carlos admirava sua paisagem
preferida. Do alto da Mitra, ele contemplava a RPPN, a Serra
do Papagaio e o perfil ondulado das montanhas da Serra da
Mantiqueira. “Isso aqui é um paraíso.
Pena que você tenha de voltar para Washington.”
Concordei com ele e me entreguei ao visual. Algo me dizia
que aquela imagem do alto da Mitra do Bispo seria a última
a ser gravada para a Conservação Internacional.
E foi. “
•••
Conhecer a Mata Atlântica é um dos 150 Lances
de Viajologia
que constam do Teste de Viajologia Brasill.
Haroldo Castro, fundador do Clube
de Viajologia, viajou como fotojornalista e diretor de documentários
a 131 países. A viagem à Serra da Mantiqueira
marcou o final de 16 anos de colaboração com
a Conservação Internacional..
CLUBE DE VIAJOLOGIA
Texto e fotos: Haroldo Castro
haroldo@viajologia.com.br
www.viajologia.com.br
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