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Natural com mais sabor
Por que o surfista que pegava onda em Santos, no litoral paulista, se tornou o dono dos alimentos Mãe Terra, uma marca identificada com saúde e bem estar


Daniel Popov

Foto: Gabriel Chiarastelli

Os surfistas são reconhecidos por sua paixão pela natureza, por sua dedicação ao esporte e por hábitos alimentares mais saudáveis. Alexandre Borges, um paulista de classe média, filho de professor universitário, que desde adolescente surfava em Santos, no litoral paulista, é um perfeito exemplar do gênero: se alimentava de produtos naturais, amava o meio ambiente e, de quebra, sonhava em ser dono de seu próprio negócio. Há três anos, Borges, 38 anos, dono de um canudo em administração de empresas, viu seu sonho virar realidade ao assumir o controle da paulista Mãe Terra, marca de alimentos naturais e orgânicos criada em 1979 na capital paulista. "A Mãe Terra é como se fosse uma namoradinha que conheci no colégio e com quem me reencontrei mais velho e casei", diz Borges.Hoje, o surfista nas horas vagas está apostando no aumento da renda dos brasileiros - que assim podem gastar mais no supermercado -, aliada ao desejo por um estilo de vida mais natural.

"Em 2012, continuaremos o projeto de agregar valor aos alimentos e aumentar a linha de produtos de conveniência"

ALEXANDRE BORGES
presidente da Mãe Terra

Borges conta que aos 6 anos de idade viu sua rotina de garoto essencialmente urbano, que nunca vira uma galinha ou um cavalo de perto, virar de cabeça para baixo. A família, que morava em São Paulo, se mudou para o interior do Estado. "Fomos para Bragança Paulista, uma cidade onde eu podia subir em árvore para chupar manga no pé e correr atrás de pipa que se perdia no céu", diz. Nessa época, no fim da década de 1970 e início dos anos de 1980, ele aprendeu as primeiras lições sobre alimentação saudável. Foram anos em que o Brasil também mudou muito, deixando para trás o ar rural e se urbanizando. "Eu via que as pessoas perdiam o vínculo com a terra", diz Borges. "Mas eu continuava a pensar na natureza como fonte de produtos que pudessem ser diferentes daqueles das prateleiras dos mercados." Borges, aos 12 anos, já vivia às voltas com as panelas, tentando receitas com aveia, flocos de trigo, açúcar mascavo e o que aparecia à sua frente. Mas o grande aprendizado aconteceu aos 16 anos, quando foi morar por um ano na Austrália, onde pegava onda e estudava inglês. "Na Austrália vi pela primeira vez barrinhas de cereais que não existiam no Brasil do fim da década de 1980." Ao voltar para o País, diz ele, já sabia o que queria fazer na vida: deixar o surfe para os fins de semana e estudar administração para, finalmente, mergulhar no sonho de ter uma empresa. "Um dia, fazendo compras no Pão de Açúcar, em São Paulo, parei em frente a uma gôndola", diz. "Foi aí que conheci a marca e me apaixonei pelo que estava na minha frente."

Borges não revela quanto pagou pela Mãe Terra, comprada em 2008, mas diz que juntou todo o dinheiro que havia ganhado com uma empresa de venda de flores online e com outra de consultoria em administração na área de sustentabilidade. Para comprar a empresa ele conseguiu uma sócia de peso, Marília Rocca, uma fera do mundo dos negócios, que aos 21 anos já era gerente de operações da Walmart no Brasil e acumula suas atribuições na Mãe Terra com a diretoria- geral no Brasil do Instituto Endeavor, instituição global dedicada ao empreendedorismo. "Marília conhece profundamente o mercado consumidor", afirma Borges.

De acordo com ele, a missão da dupla de sócios é transformar uma pequena empresa familiar em algo muito maior e sustentável, para atender à crescente demanda por produtos naturais e orgânicos. Apenas com os orgânicos, o setor faturou cerca de R$ 700 milhões no ano passado, segundo a Associação Brasileira de Orgânicos, em Franca (SP). O crescimento foi de 40%, ante 2010. "Nós queremos ganhar uma fatia maior desse mercado",diz Borges. Segundo ele, nos últimos anos, a marca vem sendo reposicionada nas prateleiras dos supermercados para perder o estigma pejorativo de "natureba" sem sabor que os alimentos naturais ainda têm perante uma parte dos consumidores. "Você acha que uma criança iria comer algo sem gosto porque quer ser saudável?", questiona. "Lógico que não. Nem os adultos precisam fazer isso." Borges diz que para lançar o "miojo" orgânico, um prato que as crianças adoram, foram criadas 33 versões, até chegar na final. Atualmente, a Mãe Terra tem 18 linhas de alimentos de pronto consumo, entre eles salgadinhos, cookies, sopas e o macarrão instantâneo, além de produtos semiprocessados, como aveia, linhaça, soja e trigo. "Em 2012, vamos continuar nosso projeto de agregar valor aos alimentos e aumentar a linha de produtos de conveniência", diz Borges.