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DINHEIRO RURAL
Edição nº 87

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HOME: REVISTA: Entrevista Janeiro/2012

"As barreiras comerciais fazem parte de uma guerra"
No afã de proteger seus agricultores, os países desenvolvidos não hesitam em dificultar o livre acesso dos produtos das nações menos ricas. Para Lars Schobinger, CEO da Kleffmann Group no Brasil, a informação e a tecnologia são as armas para vencer esses obstáculos


Alécia Pontes

Na corrida contra a competição externa, países desenvolvidos, com políticas agrícolas bem definidas, impõem cada vez mais obstáculos às exportações dos países emergentes, como forma de proteger sua própria produção. Lars Schobinger, agrônomo pós-graduado em marketing e CEO da Kleffmann Group, no Brasil, uma multinacional alemã que atua em mais de 60 países na área de pesquisa agrícola, fala da importância da inteligência no agronegócio como ferramenta na tomada de decisões estratégicas para ganhar espaço nos mercados consumidores. "As barreiras comerciais e tecnológicas fazem parte de uma guerra", diz Schobinger.

DINHEIRO RURAL - É possível dizer que já estamos em uma guerra de barreiras tecnológicas e comerciais?
LARS SCHOBINGER -
Sim, e essas barreiras vão aumentar cada vez mais. Elas fazem parte do jogo político. Nesse sentido, existe uma guerra que está apenas no começo. Em alguns lugares a política agrícola é bastante forte, como nos Estados Unidos e na Europa. Com o crescimento das exportações brasileiras, estamos começando a sentir os efeitos dessa guerra mais intensamente. Barreiras estão sendo criadas e mercados sendo fechados para os produtos brasileiros, por questões políticas. A Rússia é um exemplo recente disso, ao embargar a carne bovina, suína e de aves. Se o País não se preparar, vai sofrer muito no futuro.

RURAL - Qual a dinâmica dessa corrida comercial, com barreiras? SCHOBINGER - Em relação ao Brasil, essa corrida está acontecendo em função da importância agrícola do País. Comparado ao que o País produzia, há 15 anos, houve um crescimento significativo que veio, em grande parte, pela injeção de tecnologia no campo. Essa tecnologia foi trazida por empresas da Europa e dos Estados Unidos que, em contrapartida, queriam cada vez mais informações de mercado. Essa dinâmica, lá fora, gera cada vez mais competitividade em todos os setores da economia.

RURAL - A Ásia participa dessa corrida tecnológica?
SCHOBINGER -
A Ásia é a penúltima grande fronteira de inteligência. O uso de tecnologia na Ásia é muito menos intensivo do que no Brasil. Mas os asiáticos estão começando a migrar para um mercado de tecnologia. E é dado como certo que o enriquecimento das populações da Ásia levará essa parte do mundo a consumir cada vez mais biotecnologias.

RURAL - Qual o setor que detém os maiores investimentos?
SCHOBINGER -
Hoje, o investimento maior está na área da biotecnologia, uma ciência que tem como base o uso dos conhecimentos dos processos biológicos e dos seres vivos, para solucionar problemas e criar produtos de utilidade. Tentar monitorar os caminhos que os mercados irão trilhar, em função da biotecnologia, é um grande desafio. O foco é saber como ela vai impactar nos mercados, quanto vai gerar de riqueza, quanto será transferido de um setor para outro e quem são os grandes players e consumidores.

RURAL - Os interesses estão concentrados em que áreas da biotecnologia?
SCHOBINGER -
O que temos hoje é uma grande fusão de duas grandes indústrias, a de sementes e a de defensivos. Atualmente, todas as grandes empresas de sementes estão nas mãos de empresas de defensivos. Esse movimento começou há dez anos, nos Estados Unidos, depois migrou para a Argentina. No Brasil, o movimento começou há seis anos. Essa é uma tendência que vai avançar para outros segmentos de mercado.

"Cada vez mais, os consumidores querem saber o que o campo produz"

Foto: MURILLO CONSTANTINO / AG. ISTOÉ

Embargo: russos fecharam suas fronteiras para os produtos brasileiros, como carnes bovina, suína e de aves

RURAL - O que é a inteligência no agronegócio?
SCHOBINGER -
Inteligência no agronegócio pode ser traduzida como uma cesta de ferramentas, composta por pesquisas direcionadas, que contribuem para a tomada de decisões estratégicas. Ela serve para monitorar o mercado de consumo, em todas as suas etapas. São ferramentas geradoras de informações sobre lançamentos de produtos, de tendências, de investimentos futuros e para o dia a dia das empresas como, por exemplo, preços, reposicionamento de produtos e distribuição. É um misto do que faz uma consultoria de pesquisa e uma consultoria em estratégia.

RURAL - Em que medida esse monitoramento é importante?
SCHOBINGER -
O agronegócio tem um ponto muito importante de divisão, que começa na porteira da fazenda. O que chamamos "da porteira para trás" é uma parte significativa do negócio. É um setor que envolve indústrias milionárias. O consumo de produtos da porteira para trás é monitorado no mundo inteiro, incluindo mercados como os de sementes, defensivos, máquinas e fertilizantes. Mas os serviços de inteligência se desdobram em outras áreas mais específicas como encaixar produtos em determinados mercados, de acordo com o potencial de crescimento. O uso de informações geradas por monitoramento é muito comum para a indústria, mas pouco utilizado pelos produtores rurais.

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