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HOME: REVISTA: Reportagens Janeiro/2012

Biocombustível
A prioridade é investir
Com a abertura do enorme mercado americano, o setor sucroalcooleiro precisa correr para ampliar a produção


Daniel Popov e LuÍs Artur Nogueira

Estoque de etanol: a relação entre oferta e demanda pode seguir desbalanceada em 2012

O ano novo começa com notícias aguardadas há três décadas pelos usineiros. Os subsídios à produção de etanol à base de milho nos Estados Unidos não existem mais e o Congresso americano eliminou a sobretaxa de US$ 0,54 sobre cada galão (3,78 litros) do etanol de cana-de-açúcar exportado pelo Brasil. Mas há um porém: a crise vivida pelo setor sucroalcooleiro nacional impede maiores comemorações. De que adianta ter acesso ao gigante mercado americano se o setor nem sequer consegue atender à demanda dos consumidores brasileiros? "Nada será alterado no curto prazo, pois não temos excedente de etanol", diz, sem rodeios, o diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Antonio de Pádua Rodrigues.

Para complicar, a safra de cana-de-açúcar 2011/2012, prevista para encerrar em março deste ano, foi um desastre. Com uma produção menor, o etanol encareceu, perdeu competitividade em relação à gasolina nas bombas e ainda pressionou a inflação. Houve uma quebra de quase 18% da produção (passou de 24,7 bilhões de litros de etanol em 2010/2011 para 20,3 bilhões de litros na atual safra). Foi um enorme susto para um setor que se acostumou a crescer 10% ao ano, em média, de 2003 a 2008. Dentre as dificuldades enfrentadas pelos produtores no ano passado, estiveram a escassez de chuvas, um solo mais compactado, que dificultou o desenvolvimento da planta, e o ressurgimento de pragas nas lavouras. O desempenho pífio, porém, é principalmente resultado da falta de investimentos no setor nos últimos três anos. Embora uma parte dos usineiros já tenha decidido desengavetar novos planos de expansão, os primeiros efeitos da renovação dos canaviais só serão sentidos na safra 2013/2014. "É um processo lento, com muitos percalços pelo caminho", afirma Pádua. Nesse contexto, os analistas não arriscam projeções muito otimistas para a próxima colheita. "A produção do ano que vem deve ficar igual ou um pouco maior que a de 2011", diz Plínio Nastari, presidente da consultoria paulista Datagro. Resignado, o presidente da Unica, Marcos Jank, não acredita nem em empate de zero a zero. (ver entrevista abaixo)

Apesar de o setor não vislumbrar números expressivos em 2012, a expectativa dos empresários é que, ao menos, o ano fique marcado como o início de uma guinada do ritmo de investimentos.
Bons motivos para isso não faltam. O mercado interno é um deles, já que demanda por etanol está garantida por muito tempo, graças à explosão de vendas de carros flex. Até 2020, estima-se que será necessário um total de 40 bilhões de litros de combustível para mover a frota nacional. Se o etanol de cana-de-açúcar não estiver disponível em quantidade suficiente, será atropelado pela gasolina, o que seria um retrocesso do ponto de vista ambiental. E pior: corre-se o risco de o etanol americano à base de milho invadir os postos de serviços brasileiros - em 2011, o País importou 1,4 bilhão de litros, equivalente a 7% da produção doméstica.

Em relatório divulgado no fim do ano passado pelo banco Itaú, as economistas Giovanna Siniscalchi e Natasha Daher mostram que o fim dos subsídios e da sobretaxa aprovado pelo Congresso dos Estados Unidos ainda não garante livre acesso do etanol de cana ao maior mercado consumidor de combustível do mundo. Pelo menos temporariamente, a taxa de câmbio e o valor do petróleo no mercado internacional deixam o combustível verde brasileiro menos competitivo que a gasolina americana. Dada a volatilidade desses ativos, porém, o quadro pode ficar favorável ao Brasil nos próximos anos. Daí a urgência na retomada dos investimentos, sem os quais o Brasil não conseguirá desfrutar essas novas oportunidades. "Com o atual tamanho da safra de cana brasileira, ainda que os preços favorecessem as vendas de etanol para os Estados Unidos, haveria escassez do produto no mercado brasileiro", afirmam as economistas do Itaú. A prioridade é investir na produção.

Ponto de vista

FOTO: WELLINGTON CERQUEIRA/AG. ISTOÉ

Com Marcos Jank, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica)

O que esperar de 2012?
A palavra de ordem hoje é crescer, crescer e crescer. No entanto, não será fácil, já que a safra de 2012 tende a ser menor que a de 2011. Também não podemos descartar os efeitos da crise financeira mundial e da perda de competitividade do etanol ante a gasolina.

Quais são as metas de crescimento definidas pelo setor?
Precisamos dobrar de tamanho até 2020, e para isso são necessários investimentos na ordem de R$ 156 bilhões. Esse valor daria para construir 130 novas usinas até lá.

Como envolver o governo federal nesse processo para garantir os investimentos necessários?
O governo tem de entender que o etanol perdeu competitividade em relação à gasolina porque ela tem seu preço congelado há seis anos. O etanol deveria ter o mesmo tratamento da gasolina, beneficiada pela redução de impostos como a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico, a Cide.

O que muda com a abertura do mercado nos Estados Unidos ao etanol de cana-de-açúcar brasileiro?
Os Estados Unidos são o maior mercado consumidor de combustíveis do mundo. O mercado agora se abre para a competição internacional. É um sinal muito importante para que outros países sigam essa direção. Pode acontecer com os biocombustíveis o mesmo que vimos na história com o petróleo.