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DINHEIRO RURAL
Edição nº 86

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HOME: REVISTA: Entrevista Dezembro/2011

Quem é e o que pensa José Graziano da Silva, o brasileiro que vai comandar a FAO e tem US$ 1 bilhão para combater a fome no mundo

Denize Bacoccina

Foto: PEDRO DIAS

No próximo dia 1º de janeiro, o agrônomo paulista José Graziano da Silva assumirá a missão mais importante de sua vida profissional. Aos 62 anos, Graziano será o primeiro brasileiro a sentar-se na cadeira de diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO ), a mais importante instituição mundial destinada à formulação e execução de políticas de combate à fome. Ele não desembarcará em Washington de mãos abanando. Doutor em economia rural, Graziano foi um dos responsáveis pelo Programa Fome Zero, durante o primeiro mandato do ex-presidente Lula, e deverá levar para a FAO algumas das experiências bem-sucedidas do governo brasileiro no campo social. Representante regional da FAO para América Latina e Caribe, desde 2006, ele falou com exclusividade à DINHEIRO RURAL .

 

“Não podemos tratar os alimentos como uma commodity financeira”

 

DINHEIRO RURALQual será sua prioridade como diretor-geral da FAO?
José Graziano da Silva – Fui eleito com uma proposta composta de cinco pilares, que vão orientar meu trabalho. A primeira proposta é a erradicação da fome. O segundo pilar se refere às mudanças a padrões mais sustentáveis de produção e de consumo de alimentos. As duas outras propostas são a criação de um sistema de governança da segurança alimentar mundial mais eficiente e a conclusão da reforma interna da FAO. O quinto pilar é a ampliação das alianças e o fortalecimento da cooperação Sul-Sul, formada por América Latina, Caribe, África e alguns países da Ásia do Oriente Médio e da Oceania.

RURALQuais são as perspectivas para a fome no mundo com o agravamento da crise europeia?
Graziano – A desaceleração europeia diminui a renda e a oferta de emprego de qualidade em todo o mundo. Isso reduz o poder de compra das famílias mais pobres. A crise europeia também pode limitar os investimentos de países desenvolvidos em cooperação internacional, incluindo a assistência à agricultura e a segurança alimentar.

RURALComo a FAO vai enfrentar essa crise?
Graziano – Vamos reduzir gastos não essenciais para não ter de cortar os investimentos nas áreas de nosso interesse. Além disso, devemos buscar novas fontes de financiamento e estimular a entrada de novos atores no mundo da cooperação, como Argentina, Brasil, Chile e tantos outros. No médio e no longo prazo, a necessidade de se adaptar a essa nova realidade de crise na Europa pode ser positiva à FAO.

RURALA produção mundial de alimentos está em alta, mas a demanda cresce ainda mais. Isso não a torna cada vez menos acessível aos mais pobres?
Graziano – O crescimento da demanda por alimentos se deve a vários fatores, entre eles a melhoria da qualidade de vida e do poder de consumo de milhões de pessoas. Isso dinheiro rural/086-dezembro-2011 19 é muito positivo. Hoje, o mundo já produz alimentos para satisfazer às necessidades de toda a sua população. A fome está muito mais relacionada ao acesso que à disponibilidade de alimentos. Por isso a crise preocupa: ela dificulta o acesso dos mais pobres aos alimentos.

RURALHá algum caminho para tornar os alimentos acessíveis a essas populações?
Graziano – Acredito que para levar alimento a essas pessoas é preciso estabelecer um conjunto de políticas de estímulo à criação de empregos de qualidade e geração de renda, o apoio à agricultura familiar para aumentar a oferta local de alimentos e fortalecer a rede de proteção social, como os programas de transferência de renda.

 

Foto: Wolfgang Fuchs

“A crise europeia pode limitar os investimentos dos países em cooperação internacional”

 

RURALA FAO pretende se engajar em ações para promover algum controle dos preços das commodities agrícolas?
Graziano – Embora os preços dos alimentos estejam elevados, esse não é o principal problema. Produtores e consumidores podem, com apoio público, adaptar-se a esses níveis de preço. O maior problema, hoje, é a volatilidade e a velocidade das mudanças. E, nesse contexto, a especulação é um dos fatores que têm acentuado isso. Os preços têm variado muito e rapidamente, diminuindo os tempos para a implementação de medidas de proteção ao consumidor e aumentando a incerteza relacionada à agricultura. Isso é fatal porque, sem um sinal claro dos preços no momento da colheita, os produtores ficam com as mãos amarradas para investir.

RURALDe que maneira o Brasil, que se beneficia com o aumento dos preços agrícolas, pode se engajar num plano que limite a alta dos preços?
Graziano – Não vamos nos esquecer que, entre o início dos anos 1970 e 2005, houve uma redução violenta nos investimentos em agricultura e segurança alimentar e isso também teve um impacto negativo sobre o setor, prejudicando principalmente os pequenos produtores. Por isso,insisto que a principal questão é como reduzir a volatilidade dos preços. Precisamos encontrar um ponto de equilíbrio e é isso que os países têm feito nos seus debates no G-20, na FAO e no seu Conselho de Segurança Alimentar em outros foros multilaterais. O ponto de partida deve ser o entendimento de que não podemos tratar alimentos como uma commodity financeira como outra qualquer.

 

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