Quem é e o que pensa José Graziano da Silva, o brasileiro que vai comandar a FAO e tem US$ 1 bilhão para combater a fome no mundo
Denize Bacoccina
No próximo dia 1º de janeiro, o agrônomo paulista José Graziano da Silva assumirá a missão mais importante de sua vida profissional. Aos 62 anos, Graziano será o primeiro brasileiro a sentar-se na cadeira de diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO ), a mais importante instituição mundial destinada à formulação e execução de políticas de combate à fome. Ele não desembarcará em Washington de mãos abanando. Doutor em economia rural, Graziano foi um dos responsáveis pelo Programa Fome Zero, durante o primeiro mandato do ex-presidente Lula, e deverá levar para a FAO algumas das experiências bem-sucedidas do governo brasileiro no campo social. Representante regional da FAO para América Latina e Caribe, desde 2006, ele falou com exclusividade à DINHEIRO RURAL .
“Não podemos tratar os alimentos como uma commodity financeira”
DINHEIRO RURAL – Qual será sua prioridade como diretor-geral da FAO?
José Graziano da Silva – Fui eleito com uma proposta composta de cinco pilares, que vão orientar meu trabalho. A primeira proposta é a erradicação da fome. O segundo pilar se refere às mudanças a padrões mais sustentáveis de produção e de consumo de alimentos. As duas outras propostas são a criação de um sistema de governança da segurança alimentar mundial mais eficiente e a conclusão da reforma interna da FAO. O quinto pilar é a ampliação das alianças e o fortalecimento da cooperação Sul-Sul, formada por América Latina, Caribe, África e alguns países da Ásia do Oriente Médio e da Oceania.
RURAL – Quais são as perspectivas para a fome no mundo com o agravamento da crise europeia?
Graziano – A desaceleração europeia diminui a renda e a oferta de emprego de qualidade em todo o mundo. Isso reduz o poder de compra das famílias mais pobres. A crise europeia também pode limitar os investimentos de países desenvolvidos em cooperação internacional, incluindo a assistência à agricultura e a segurança alimentar.
RURAL – Como a FAO vai enfrentar essa crise?
Graziano – Vamos reduzir gastos não essenciais para não ter de cortar os investimentos nas áreas de nosso interesse. Além disso, devemos buscar novas fontes de financiamento e estimular a entrada de novos atores no mundo da cooperação, como Argentina, Brasil, Chile e tantos outros. No médio e no longo prazo, a necessidade de se adaptar a essa nova realidade de crise na Europa pode ser positiva à FAO.
RURAL – A produção mundial de alimentos está em alta, mas a demanda cresce ainda mais. Isso não a torna cada vez menos acessível aos mais pobres?
Graziano – O crescimento da demanda por alimentos se deve a vários fatores, entre eles a melhoria da qualidade de vida e do poder de consumo de milhões de pessoas. Isso dinheiro rural/086-dezembro-2011 19 é muito positivo. Hoje, o mundo já produz alimentos para satisfazer às necessidades de toda a sua população. A fome está muito mais relacionada ao acesso que à disponibilidade de alimentos. Por isso a crise preocupa: ela dificulta o acesso dos mais pobres aos alimentos.
RURAL – Há algum caminho para tornar os alimentos acessíveis a essas populações?
Graziano – Acredito que para levar alimento a essas pessoas é preciso estabelecer um conjunto de políticas de estímulo à criação de empregos de qualidade e geração de renda, o apoio à agricultura familiar para aumentar a oferta local de alimentos e fortalecer a rede de proteção social, como os programas de transferência de renda.
“A crise europeia pode limitar os investimentos dos países em cooperação internacional”
RURAL – A FAO pretende se engajar em ações para promover algum controle dos preços das commodities agrícolas?
Graziano – Embora os preços dos alimentos estejam elevados, esse não é o principal problema. Produtores e consumidores podem, com apoio público, adaptar-se a esses níveis de preço. O maior problema, hoje, é a volatilidade e a velocidade das mudanças. E, nesse contexto, a especulação é um dos fatores que têm acentuado isso. Os preços têm variado muito e rapidamente, diminuindo os tempos para a implementação de medidas de proteção ao consumidor e aumentando a incerteza relacionada à agricultura. Isso é fatal porque, sem um sinal claro dos preços no momento da colheita, os produtores ficam com as mãos amarradas para investir.
RURAL – De que maneira o Brasil, que se beneficia com o aumento dos preços agrícolas, pode se engajar num plano que limite a alta dos preços?
Graziano – Não vamos nos esquecer que, entre o início dos anos 1970 e 2005, houve uma redução violenta nos investimentos em agricultura e segurança alimentar e isso também teve um impacto negativo sobre o setor, prejudicando principalmente os pequenos produtores. Por isso,insisto que a principal questão é como reduzir a volatilidade dos preços. Precisamos encontrar um ponto de equilíbrio e é isso que os países têm feito nos seus debates no G-20, na FAO e no seu Conselho de Segurança Alimentar em outros foros multilaterais. O ponto de partida deve ser o entendimento de que não podemos tratar alimentos como uma commodity financeira como outra qualquer.
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