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HOME: REVISTA: Entrevista Junho/2007

" Os olhos do mundo estão voltados para o Brasil "
Dono da São Martinho diz que argumentos dos ambientalistas que apontam a ameaça de uma mono cultura canavieira no País são uma falácia


LÍVIA ANDRADE

RURAL – Há muitos estudiosos que não acreditam que o etanol possa substituir o petróleo, já que os fertilizantes usados na lavoura são de origem fóssil...
Ometto – Primeiramente é o seguinte: é interessante o cultivo da cana, pois nele você tem três grandes fertilizantes: o nitrogênio, o fósforo e o potássio. No caso da cana, ela é uma gramínea e tem uma capacidade muito grande de absorção de matéria orgânica. Quando você faz o álcool, sobra o vinhoto, que é muito rico em potássio.

Isso retorna ao solo. Então, na parte de potássio, nós seríamos independentes. No nitrogênio, ele agrega muita matéria orgânica no solo. Principalmente agora com a colheita mecanizada, a massa de matéria orgânica é muito grande. Temos a entrega ao solo de muita matéria orgânica que alimenta a planta com nitrogênio. Nós teríamos a falta de fósforo. O Brasil tem um problema sério de abastecimento de fertilizantes. Nosso fósforo é mais pobre que o de outros países, mas o Brasil tem que ter uma certa independência em fertilizantes. O caminho é descobrir novas jazidas. Agora, o impacto ambiental é facilmente removido, pois você só extrai do solo, você não queima.

RURAL – O Brasil não está se focando muito no aumento da produção de cana-de-açúcar? O País não ganharia mais exportando a tecnologia de produção em vez do etanol em si?
Ometto – O Brasil é interessante. Nós temos a tecnologia tropical. A cana é uma planta tropical. No mundo, só a encontramos em países de clima tropical. Podemos citar Austrália, África do Sul... O Brasil desponta como um país que tem o centro de tecnologia mais avançado. Na parte industrial, além de termos dominado a tecnologia de produção de álcool e açúcar, temos grandes fábricas de produção de máquinas para isso localizadas em Piracicaba e Sertãozinho. O Brasil tem as duas condições: condição de ser um campeão nessa parte de produção e também de vender a nossa tecnologia para os países tropicais; tanto a tecnologia de produção como a de maquinários.

RURAL – Mas o Brasil está preparado para fazer esta transferência?
Ometto – Sempre se vendeu. Agora há pouco, venderam- se moendas para os EUA. Foram vendidos maquinários para a Bolívia, para os países da América Central, para a África, sempre se vendeu. Na época do Pró-álcool, fizeram até projeto de usinas de açúcar e álcool no Irã. O Brasil está há anos vendendo tecnologia para outros países.

RURAL – Ambientalistas estão erguendo a bandeira da monocultura...
Ometto – Não podemos seguir os exemplos dos países que têm uma limitação de área. O Brasil ê muito grande. A cultura da cana nunca vai ser uma cultura de expansão rápida como foi a da soja porque ela é limitada à implantação de uma indústria. A cana não suporta transporte acima de 25 quilômetros. Ela não é como a soja, uma cultura de prazo curto, que tendo logística você implanta em qualquer lugar. É uma expansão mais coordenada e limitada. Por enquanto, a área de cana é 1% do território nacional. Não podemos pensar que, ao se plantar uma área, vamos coibir o desenvolvimento de outra planta. Mesmo porque, no meio da cana, se podem plantar outras culturas. Então, dizer que a cana segura outras culturas é uma falácia.

RURAL – E a questão dos empregos que são tirados pela colheita mecânica... Para onde vão estes cortadores de cana?
Ometto – Por isso que houve uma grande discussão no estado de São Paulo sobre como fazer esta substituição do corte mecânico para o manual. No Estado de São Paulo há um programa para isso, seguindo a legislação estadual, que dita que isso aconteça aos poucos, sem impacto.

“O Torrijos já fala até num alcoolduto para bombear o etanol do Atlântico ao Pacífico”

RURAL – O presidente do Panamá visitou a São Martinho e demonstrou interesse pela tecnologia nacional de produção de álcool...
Ometto – O Panamá é um país tropical e que pode ter uma sinergia grande com o Brasil, pois o Brasil é um País voltado para o Atlântico. Nós temos as cordilheiras dos Andes, que é uma barreira para chegarmos ao Pacífico. E hoje o Pacífico, com o grande avanço das economias asiáticas, a China e o Japão são grandes mercados. O Panamá é a porta de entrada para o Pacífico através do Canal do Panamá e agora eles estão com um projeto de alargar este canal, permitindo que navios de maior porte façam a transferência de carga do Atlântico para o Pacífico. Por outro lado, eles querem incentivar a indústria local. Eles têm regiões onde se planta cana e também há uma indústria açucareira. Mas, pelo volume, eles não têm condições de ter tecnologia, variedades. Isso seria um mercado para nós. Eles também estão fazendo um acordo com os EUA de livre-comércio. Ali, surgem oportunidades para o Brasil. Eles têm um grande interesse pelo álcool, pensam até em um alcoolduto para ligar com o Pacífico. Você chegaria com um navio de álcool no Atlântico e bombearia para chegar ao Pacífico.

RURAL – Isso seria um ótimo negócio para o Brasil, não?
Ometto – Seria uma rota para atingirmos os países asiáticos e a costa oeste dos EUA, a Califórnia, uma das regiões que mais defendem o clima no mundo e que quer aumentar o uso dos combustíveis renováveis.

RURAL – Você é um dos porta-vozes do agronegócio na Fiesp. No momento, qual é a principal reivindicação ?
Ometto – Na última reunião, a discussão foi em torno dos defensivos genéricos. A Kátia Abreu está levantando esta bandeira. Precisamos da liberação deles logo.

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