| Fotos: Humberto Franco |
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Roberto Rodrigues: ex-ministro
da Agricultura |
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A iniciativa privada de
Roberto Rodrigues
Depois de três anos
e meio a frente
da pasta da Agricultura, ex-ministro está prestes a lançar
um fundo milionário para financiar projetos
de álcool e biodiesel
POR
Fabiane Stefano
A vida do ex-ministro Roberto Rodrigues continua
tão atribulada quanto na época em que comandava a
pasta da Agricultura. Antes, na condição de gestor
público, Rodrigues se reunia diariamente com empresários,
representantes de entidades do campo e produtores rurais. Agora,
ele continua seguindo à risca a mesma rotina – só
que do outro lado do balcão. Depois de três anos e
meio à frente da principal do Ministério da Agricultura
e uma quarentena de quatro meses, Rodrigues volta à ativa
como professor, dirigente de entidade e, pela primeira vez, como
empreendedor no setor de agroenergia. O engenheiro agrônomo
está montando um fundo de investimentos para financiar projetos
em álcool e biodiesel. Em entrevista à DINHEIRO
RURAL, Rodrigues dá detalhes do seu plano, que inclui
a atração de capital nacional e estrangeiro. “Quem
fizer comigo, vai acertar”, diz o ex-ministro. “Não
vai plantar cana onde não é para plantar. Não
vai vender o álcool quando não é para vender.
Não tem erro. É uma coisa séria”. O papel
de Rodrigues no fundo será uma espécie de gestor,
que vai unir as áreas técnicas e financeiras e dará
a palavra final nos projetos escolhidos. Por isso, o ex-ministro
tem discutido diariamente com investidores interessados. “Estou
conversando com bancos nacionais e estrangeiros”, diz ele,
que pretende lançar o fundo até o fim de novembro
ou começo de dezembro.O grande chamariz do projeto é
o próprio nome de Rodrigues. Além de suas novas credenciais
de ex-ministro, o engenheiro agrônomo é considerado
uma das principais lideranças rurais do Brasil, uma vez que
já presidiu entidades como a Sociedade Brasileira Rural e
a Organização das Cooperativas do Brasil. Por isso,
não faltam interessados. No começo de outubro, um
diretor do banco holandês Rabobank mandou um e-mail para o
ex-ministro dizendo estar interessado em vir ao Brasil para conversarem
sobre o fundo. “Acho que sou capaz de atrair gente séria
para esse projeto”, diz ele. Por enquanto, o ex-ministro evita
em falar em cifras. Mas deixa escapar que o fundo deve ser lançado
com capital de pelo menos US$ 200 milhões. “Com US$
150 milhões, por exemplo, daria para construir uma usina
rentável com capacidade para moer 2 milhões de toneladas
de cana por ano”. O fundo, no entanto, não terá
suas atividades limitadas a novos empreendimentos agroindustriais.
Poderá também atuar na compra de terras e na aquisição
de partipações acionárias. Até uma incursão
na Bolsa de Valores já é levada em conta. “Quero
tocar um projeto que envolva toda cadeia produtiva da agroenergia”.
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O ex-ministro, na fazenda:
captação
do fundo pode chegar a US$ 200 milhões e terá
investidores
nacionais e estrangeiros |
Além da atividade empresarial, Rodrigues volta a assumir
funções institucionais e acadêmicas. Ele foi
convidado pela Federação das Indústrias do
Estado de São Paulo, a Fiesp, para presidir o Conselho Superior
de Agronegócios da entidade. O objetivo do conselho será
apresentar propostas ao governo para o desenvolvimento da cadeia
do agronegócio. Já na primeira reunião de trabalho,
no começo de novembro, Rodrigues deve levar Silvio Crestana,
presidente da Embrapa, para abordar a questão de tecnologia.
A idéia é convencer quase uma centena de membros do
Conselho a aprovar a necessidade da criação de um
fundo de pesquisas com dinheiro privado. Rodrigues também
irá dirigir o recém criado Centro de Estudos do Agronegócio
na Fundação Getúlio Vargas (FGV). A presença
do ex-ministro na Fiesp e na FGV irá criar uma espécie
de sinergia entre as duas instituições. A idéia
é que o centro da fundação de ensino desenvolva
os estudos para viabilizar as propostas do conselho da entidade
empresarial. Em ambos os cargos, Rodrigues não receberá
salário. Ele também quer limitar sua participação,
deixando de lado as atividades executivas. “Não quero
ser presidente de mais nada. Quero apenas dar conselhos”,
diz ele. É justamente na função de conselheiro
que o engenheiro agrônomo deverá participar do Conselho
de Administração da Agrenco, multinacional da área
de grãos que expande suas atividades no Brasil. Já
na vida acadêmica, Rodrigues continuará ministrando
a disciplina de cooperativismo na Unesp de Jaboticabal. Mesmo na
época de Ministério, o professor estava à frente
do concorrido curso, no qual há provas em todas as aulas.
Rodrigues também assume como pesquisador do Instituto de
Estudos Avançados, da USP. Lá irá coordenador
projetos interdisciplinares sobre temas geopolíticos e econômicos.
“O primeiro deles será sobre o verdadeiro impacto da
agricultura na Amazônia”, diz ele.
Outro campo de atuação será o rentável
mercado de palestras. Acostumado a falar para grandes platéias,
o ex-ministro vai falar sobre o agronegócio para empresas
e instituições – só que agora cobrando.
“Tenho até vergonha porque fiz isso a vida inteira
de graça”, diz Rodrigues. Calcula-se que no mercado
de palestrantes que um ex-ministro cobre cerca de R$ 10 mil por
apresentação. Mesmo com tantos compromissos na nova
vida privada, Rodrigues continuará a dar suas escapadas para
a Fazenda Santa Isabel, em Jaboticabal. Dedicada à produção
de cana-de-açúcar, a propriedade da família
é administrada por seu filho Paulo, que também é
engenheiro agrônomo. É na fazenda, no escritório
repleto de suas memórias rurais, que o ex-ministro bota em
dia sua correspondência. A cada três meses, ele escreve
uma carta endereçada a cerca de 100 colegas da época
de faculdade. É também na tranqüilidade da Santa
Isabel que Rodrigues se dedica aos três livros que pretende
lançar. Dois deles são coletâneas de artigos
que escreveu ao longo de 40 anos dedicados ao campo. Um será
sobre agronegócio e outro sobre cooperativismo. O terceiro
livro é um romance que Rodrigues encara como um hobby das
madrugadas, já que dorme apenas quatro horas por noite. O
tema? Agronegócio, é claro, só que na ótica
de quatro amigos unidos por um segredo. Mais uma desculpa para falar
do seu assunto preferido. “
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"Vamos
vencer a guerra da energia”
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Foto:
Humberto Franco |
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| Roberto
Rodrigues:
"Eu já vivi no bolso duas crises. E
não é brincadeira". |
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Roberto Rodrigues
falou com exclusividade à DINHEIRO RURAL
dos seus planos na iniciativa privada. O principal deles
é voltado ao setor sucroalcooleiro.
O mundo inteiro despertou
para o etanol. O futuro é a agroenergia?
Não é um modismo mais. A questão
central é segurança de abastecimento de
combustível. Nunca aceitei o fato da humanidade
ficar dependente de um produto fóssil, finito,
mal distribuído e com exploração
concentrada em poucas pessoas. Depois da primeira guerra,
a civilização foi construída em
cima do petróleo. E eu contestava isso já
nos anos 70. Passei uma vida inteira defendendo a agroenergia.
E acredito que estamos no umbral de uma nova civilização.
Qual o papel do Brasil
no setor?
O Brasil tem vantagens competitivas reais. Acho que
podemos dobrar a produção de etanol por
hectare no País. Com clima e logística,
há 50% de chances de um projeto dar certo. A
terra não é mais relevante. Os outros
50% são tecnologia e gestão. Pronto. E
temos padrão tecnológico para ganhar essa
guerra.
Essa expansão
acelerada da cana no Brasil não pode acarretar
problemas para o futuro?
O que me incomoda muito é que virou uma onda.
Tem muito investidor estrangeiro querendo entrar. O
que pode transformar em oportunidade um projeto mal
feito. A crise agrícola grave é da abundância,
não da escassez. A escassez se resolve em seis
meses. A abundância demora uns cinco anos. Daqui
a dez anos, vamos ter muito álcool. Se o cara
fizer um projeto em uma terra com baixa produtividade,
ele vai quebrar.
No futuro, o setor sucroalcooleiro
vai ganhar tanto dinheiro como ganha hoje?
Se fizer bem feito, o produtor pode até não
ganhar tanto dinheiro, mas não quebra. Eu já
vivi no bolso duas crises. E não é brincadeira.
Não podemos jogar fora a oportunidade de um projeto
universal, por conta da pressa e de uma ambição
desmedida. |
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