DINHEIRO RURAL
Edição nº 25

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NOVEMBRO /2006
Fotos: Humberto Franco
Roberto Rodrigues: ex-ministro
da Agricultura

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A iniciativa privada de
Roberto Rodrigues
Depois de três anos e meio a frente
da pasta da Agricultura, ex-ministro está prestes a lançar um fundo milionário para financiar projetos
de álcool e biodiesel


POR Fabiane Stefano


A vida do ex-ministro Roberto Rodrigues continua tão atribulada quanto na época em que comandava a pasta da Agricultura. Antes, na condição de gestor público, Rodrigues se reunia diariamente com empresários, representantes de entidades do campo e produtores rurais. Agora, ele continua seguindo à risca a mesma rotina – só que do outro lado do balcão. Depois de três anos e meio à frente da principal do Ministério da Agricultura e uma quarentena de quatro meses, Rodrigues volta à ativa como professor, dirigente de entidade e, pela primeira vez, como empreendedor no setor de agroenergia. O engenheiro agrônomo está montando um fundo de investimentos para financiar projetos em álcool e biodiesel. Em entrevista à DINHEIRO RURAL, Rodrigues dá detalhes do seu plano, que inclui a atração de capital nacional e estrangeiro. “Quem fizer comigo, vai acertar”, diz o ex-ministro. “Não vai plantar cana onde não é para plantar. Não vai vender o álcool quando não é para vender. Não tem erro. É uma coisa séria”. O papel de Rodrigues no fundo será uma espécie de gestor, que vai unir as áreas técnicas e financeiras e dará a palavra final nos projetos escolhidos. Por isso, o ex-ministro tem discutido diariamente com investidores interessados. “Estou conversando com bancos nacionais e estrangeiros”, diz ele, que pretende lançar o fundo até o fim de novembro ou começo de dezembro.O grande chamariz do projeto é o próprio nome de Rodrigues. Além de suas novas credenciais de ex-ministro, o engenheiro agrônomo é considerado uma das principais lideranças rurais do Brasil, uma vez que já presidiu entidades como a Sociedade Brasileira Rural e a Organização das Cooperativas do Brasil. Por isso, não faltam interessados. No começo de outubro, um diretor do banco holandês Rabobank mandou um e-mail para o ex-ministro dizendo estar interessado em vir ao Brasil para conversarem sobre o fundo. “Acho que sou capaz de atrair gente séria para esse projeto”, diz ele. Por enquanto, o ex-ministro evita em falar em cifras. Mas deixa escapar que o fundo deve ser lançado com capital de pelo menos US$ 200 milhões. “Com US$ 150 milhões, por exemplo, daria para construir uma usina rentável com capacidade para moer 2 milhões de toneladas de cana por ano”. O fundo, no entanto, não terá suas atividades limitadas a novos empreendimentos agroindustriais. Poderá também atuar na compra de terras e na aquisição de partipações acionárias. Até uma incursão na Bolsa de Valores já é levada em conta. “Quero tocar um projeto que envolva toda cadeia produtiva da agroenergia”.

O ex-ministro, na fazenda: captação
do fundo pode chegar a US$ 200 milhões e terá investidores
nacionais e estrangeiros

Além da atividade empresarial, Rodrigues volta a assumir funções institucionais e acadêmicas. Ele foi convidado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp, para presidir o Conselho Superior de Agronegócios da entidade. O objetivo do conselho será apresentar propostas ao governo para o desenvolvimento da cadeia do agronegócio. Já na primeira reunião de trabalho, no começo de novembro, Rodrigues deve levar Silvio Crestana, presidente da Embrapa, para abordar a questão de tecnologia. A idéia é convencer quase uma centena de membros do Conselho a aprovar a necessidade da criação de um fundo de pesquisas com dinheiro privado. Rodrigues também irá dirigir o recém criado Centro de Estudos do Agronegócio na Fundação Getúlio Vargas (FGV). A presença do ex-ministro na Fiesp e na FGV irá criar uma espécie de sinergia entre as duas instituições. A idéia é que o centro da fundação de ensino desenvolva os estudos para viabilizar as propostas do conselho da entidade empresarial. Em ambos os cargos, Rodrigues não receberá salário. Ele também quer limitar sua participação, deixando de lado as atividades executivas. “Não quero ser presidente de mais nada. Quero apenas dar conselhos”, diz ele. É justamente na função de conselheiro que o engenheiro agrônomo deverá participar do Conselho de Administração da Agrenco, multinacional da área de grãos que expande suas atividades no Brasil. Já na vida acadêmica, Rodrigues continuará ministrando a disciplina de cooperativismo na Unesp de Jaboticabal. Mesmo na época de Ministério, o professor estava à frente do concorrido curso, no qual há provas em todas as aulas. Rodrigues também assume como pesquisador do Instituto de Estudos Avançados, da USP. Lá irá coordenador projetos interdisciplinares sobre temas geopolíticos e econômicos. “O primeiro deles será sobre o verdadeiro impacto da agricultura na Amazônia”, diz ele.

Outro campo de atuação será o rentável mercado de palestras. Acostumado a falar para grandes platéias, o ex-ministro vai falar sobre o agronegócio para empresas e instituições – só que agora cobrando. “Tenho até vergonha porque fiz isso a vida inteira de graça”, diz Rodrigues. Calcula-se que no mercado de palestrantes que um ex-ministro cobre cerca de R$ 10 mil por apresentação. Mesmo com tantos compromissos na nova vida privada, Rodrigues continuará a dar suas escapadas para a Fazenda Santa Isabel, em Jaboticabal. Dedicada à produção de cana-de-açúcar, a propriedade da família é administrada por seu filho Paulo, que também é engenheiro agrônomo. É na fazenda, no escritório repleto de suas memórias rurais, que o ex-ministro bota em dia sua correspondência. A cada três meses, ele escreve uma carta endereçada a cerca de 100 colegas da época de faculdade. É também na tranqüilidade da Santa Isabel que Rodrigues se dedica aos três livros que pretende lançar. Dois deles são coletâneas de artigos que escreveu ao longo de 40 anos dedicados ao campo. Um será sobre agronegócio e outro sobre cooperativismo. O terceiro livro é um romance que Rodrigues encara como um hobby das madrugadas, já que dorme apenas quatro horas por noite. O tema? Agronegócio, é claro, só que na ótica de quatro amigos unidos por um segredo. Mais uma desculpa para falar do seu assunto preferido. “

US$ 200 milhões é a meta de captação do fundo de investimento
do ex-ministro

Na onda do capital estrangeiro

Foto: Calé
Reichstul: Migração da Petrobras para o álcool


Até agora apenas um fundo internacional desembarcou para valer no Brasil. O inglês Infinity Bio Energy já anunciou a construção de duas usinas de açúcar e álcool, uma no Espírito Santo e outra na Bahia. A companhia também incorporou o fundo Evergreen, que já havia comprado as usinas Alcana, em Minas Gerais, e Coopernavi, no Mato Grosso do Sul. O último investimento do Infinity foi a aquisição da usina Cridasa, também no Espírito Santo. Os cinco empreendimentos somam a quantia de R$ 400 milhões. Outro fundo que aposta no setor sucroalcooleiro é o Bioenergy Development Fund (BDP), criado pelo banco francês Société Générale e que pretende investir até US$ 1 bilhão em usinas brasileiras. No lado nacional, quem também está de olho no mesmo modelo de financiamento é o ex-presidente da Petrobras, Henri Philippe Reichstul. Ele já procurou gente do setor e ficou animado com as possibilidades de negócio em açúcar e álcool.

"Vamos vencer a guerra da energia”

Foto: Humberto Franco
Roberto Rodrigues: "Eu já vivi no bolso duas crises. E não é brincadeira".


Roberto Rodrigues
falou com exclusividade à DINHEIRO RURAL dos seus planos na iniciativa privada. O principal deles é voltado ao setor sucroalcooleiro.

O mundo inteiro despertou para o etanol. O futuro é a agroenergia?
Não é um modismo mais. A questão central é segurança de abastecimento de combustível. Nunca aceitei o fato da humanidade ficar dependente de um produto fóssil, finito, mal distribuído e com exploração concentrada em poucas pessoas. Depois da primeira guerra, a civilização foi construída em cima do petróleo. E eu contestava isso já nos anos 70. Passei uma vida inteira defendendo a agroenergia. E acredito que estamos no umbral de uma nova civilização.

Qual o papel do Brasil no setor?
O Brasil tem vantagens competitivas reais. Acho que podemos dobrar a produção de etanol por hectare no País. Com clima e logística, há 50% de chances de um projeto dar certo. A terra não é mais relevante. Os outros 50% são tecnologia e gestão. Pronto. E temos padrão tecnológico para ganhar essa guerra.

Essa expansão acelerada da cana no Brasil não pode acarretar problemas para o futuro?
O que me incomoda muito é que virou uma onda. Tem muito investidor estrangeiro querendo entrar. O que pode transformar em oportunidade um projeto mal feito. A crise agrícola grave é da abundância, não da escassez. A escassez se resolve em seis meses. A abundância demora uns cinco anos. Daqui a dez anos, vamos ter muito álcool. Se o cara fizer um projeto em uma terra com baixa produtividade, ele vai quebrar.

No futuro, o setor sucroalcooleiro vai ganhar tanto dinheiro como ganha hoje?
Se fizer bem feito, o produtor pode até não ganhar tanto dinheiro, mas não quebra. Eu já vivi no bolso duas crises. E não é brincadeira. Não podemos jogar fora a oportunidade de um projeto universal, por conta da pressa e de uma ambição desmedida.