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| Penido: “Quando
cheguei, era só selva. Hoje a fazenda é um mundo”
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Como é a fazenda mais
cara do Brasil
O empreiteiro Pelerson Penido formou
uma propriedade que é maior do que São Paulo, tem
quase 100 mil animais, 697 quilômetros de estradas e onde
o gado bebe água “na bandeja”. Ela está
à venda. Seu preço: R$ 420 milhões

por leonardo attuch e ana paula
paiva (fotos), de Querência (MT)
No princípio, havia só selva. Para atravessar um
rio naquele fim de mundo, o empresário Pelerson Penido costuma
contar que colhia fruta-pão no pé e depois atirava
a polpa na água. “Quando o rio ficava coalhado de sucuris,
a gente escolhia as de cabeça grande e ia pisando até
chegar à outra margem”, brinca Penido, dono da propriedade
rural mais valiosa do País – a Roncador, no Mato Grosso
– e grande narrador de “causos”. A heróica
travessia das águas no lombo das sucuris costumava ocorrer
no início dos anos 70, quando Penido, fundador da Serveng-Civilsan,
chegou à Amazônia. Como muitos outros empresários
do seu tempo, ele foi atraído à região por
incentivos fiscais oferecidos pelos militares. A diferença
é que Penido, desde que chegou, nunca mais parou de construir.
Fez 100 barragens, pavimentou 697 quilômetros de estradas
em que as picapes rodam a 80km/h, asfaltou um aeroporto, ergueu
hidrelétricas, pontes e ainda construiu a obra de que mais
se orgulha: os 350 quilômetros de curvas de nível.
São pequenos canais que percorrem toda a propriedade, com
30 centímetros de profundidade e 1,5 metro de largura, levando
água farta a todos animais, em qualquer época do ano.
“Aqui, o gado bebe água na bandeja”, orgulha-se
Penido. E não são poucos animais. Na última
contagem, eram exatos 96.627 bois, vacas, novilhas e bezerros da
raça nelore. “No Brasil, a Roncador é hoje a
empresa agropecuária que tem o maior rebanho de corte concentrado
em uma única propriedade”, garante Hélio Beraldo
de Souza, administrador da fazenda.
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| Epopéia na selva Penido
trouxe uma draga do Jari para abrir canais, construiu sua sede
confortável e a vila dos funcionários. |
Aos 87 anos, porém, Penido decidiu colocar à venda
sua menina dos olhos, que fica em Querência, um município
mato-grossense próximo ao Alto Araguaia. Fixou o valor da
Roncador em R$ 420 milhões. Caso consiga vender, será,
disparado, a maior transação envolvendo uma propriedade
rural no Brasil. “Ela vale uns 600 milhões de reais”,
garante Penido. Antes de definir o preço, Penido listou tudo
que há lá dentro. Só em terras, são
144 mil hectares – tal área é 4 mil hectares
maior do que a da cidade de São Paulo. Além disso,
a fazenda, que foi dividida em vinte grandes retiros, já
é toda formada. As cercas, os currais e os cochos estão
prontos. As terras não têm uma capoeira e são
corrigidas com calcário – a preços de hoje,
valem R$ 412,5 milhões. Os 96,7 mil animais, cotados pela
arroba atual, renderiam R$ 45,7 milhões. E há ainda
R$ 20,9 milhões em estradas, outros R$ 5 milhões em
barragens e mais R$ 4 milhões em pivôs de irrigação,
entre muitos ativos (veja a tabela abaixo). No entanto, o dado mais
relevante é o próprio giro da fazenda. A receita anual
com a venda de animais, que segue quase toda para o frigorífico
Friboi, é da ordem de R$ 30 milhões, com uma margem
de lucro da ordem de 33%. “A fazenda é uma verdadeira
jóia”, diz Aramis Maia, pecuarista brasileiro que é
um dos principais criadores da Austrália e que já
se colocou como um potencial comprador. Além dele, os irmãos
Bertin, da família que controla um dos principais frigoríficos
do País, também têm demonstrado interesse. “A
dificuldade é que eu só vendo em cash”, diz
Penido.
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A paixão de Penido por dinheiro sonante tem muito a ver
com seu principal negócio fora do meio rural. O grupo Serveng-Civilsan
é hoje o principal acionista da Companhia de Concessões
Rodoviárias, que administra os pedágios de estradas
como Dutra e a Anhangüera-Bandeirantes, e tem patrimônio
de R$ 2 bilhões. “O segredo é nunca parar de
trabalhar”, conta Penido, que, apesar da idade, imprime um
ritmo frenético às suas atividades. Nas idas mensais
à Roncador em seu jato Citation, ele visita todos os retiros,
onde é feita a cria, a recria e a engorda dos animais. Logo
que vê um animal com problema de peso, ordena que seja transferido
a uma área onde possa receber cuidados especiais. “Ele
é a prova viva do provérbio que diz que o olho do
dono é que engorda o boi”, diz o administrador da fazenda.
Na Roncador, os animais vão para o abate com três anos
de idade e 17 arrobas – ótima média de peso
e precocidade para fazendas de pecuária extensiva. A mortalidade,
da ordem de 1%, é também muito baixa e a principal
causa mortis são os ataques de animais como cobras e onças.
Por lá, vez por outra, aparecem três tipos de felinos
típicos do Mato Grosso: a onça pintada, a vermelha
e a sussuarana, a onça negra. Neste ano, estão previstos
27 mil nascimentos de bezerros, que são programados para
ocorrer sempre entre junho e setembro, antes das chuvas. Em 2005,
a meta é emprenhar nada menos que 50 mil vacas. “Com
isso, dá para esperar uns 40 mil nascimentos”, diz
Pelerson Penido Dalla Vechia, neto do empreiteiro.
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| Acima, ele posa com a equipe e o neto
Pelerson |
O construtor que se tornou grande fazendeiro tem sido uma espécie
de Forrest Gump da história política do Brasil. Nascido
em Resende Costa, um município mineiro na região de
São João del Rey, Penido foi colega de Tancredo Neves.
“Tomei muitas namoradas dele”, brinca. Anos mais tarde,
presidiu uma comissão de inquérito no governo Getúlio
Vargas. Em seguida, nos anos JK, Penido foi um dos principais empreiteiros
de Brasília. Com os militares, ele se tornou secretário
de Viação e Obras de São Paulo, graças
à amizade estreita com o Marechal Castelo Branco. “Naquele
tempo, o grande problema de São Paulo era a falta de água
e eu fui chamado para resolver esse problema”, conta Penido,
sem disfarçar o orgulho. Topógrafo, ele também
aplicou no Roncador técnicas criativas na gestão da
água. Na fazenda, que é uma imensa planície,
a área mais alta tem 320 metros e a mais baixa está
a 280 metros do mar. Mesmo com pouca diferença, Penido pesquisou
todas as nascentes da região e fez represas nos pontos mais
altos, de modo a que a água sempre possa correr para todos
os cantos da propriedade. “É uma obra de arte”,
diz, encantado com a própria criação.
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Além dos canais onde os bois bebem água, Penido abriu
vários pequenos rios na fazenda. Isso porque boa parte do
terreno da fazenda era pantanoso. Para contornar o problema, o jeito
foi trazer uma draga gigante, de 300 toneladas, que veio do Projeto
Jari, no Amapá. “Isso foi uma epopéia”,
relembra. “A draga foi desmontada e veio em 10 caminhões
com 30 toneladas cada, passando onde nem havia estrada”, diz.
Hoje, a peça fica exposta na fazenda como uma recordação
dos tempos difíceis. Com a venda da Roncador, o empreendedor
Penido, que já foi um dos principais criadores de leite do
País, não pretende se aposentar. “Sempre gostei
de criar algo novo”, diz ele. “Se vender, vou logo bolar
um outro negócio”. Convém não duvidar.

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| As jóias da roncador
O empreiteiro Penido, dono de um jato Citation, detalhou
o valor de cada item de sua propriedade. Além dos ativos,
a Roncador fatura cerca de R$ 30 milhões por ano
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Quantidade |
Valor |
Terras |
144 mil hectares |
R$ 412,5 milhões |
Fêmeas |
64.323 |
R$ 29,6 milhões |
Machos |
31.302 |
R$ 16,0 milhões |
Estradas |
697 km |
R$ 20,9 milhões |
Curvas de nível |
350 km |
R$ 10,5 milhões |
Aeroporto |
28 mil m2 |
R$ 1,2 milhão |
Pivôs |
5 |
R$ 4,0 milhões |
Outros |
diversos |
R$ 34,7 milhões |
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