DINHEIRO RURAL
Edição nº 9

JULHO /2005
Biô Barreira
Unidade da Bunge na Bahia: Chegada da empresa atraiu uma série de novos negócios
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Por dentro da Bunge

Saiba como funciona a empresa mais poderosa do agronegócio: uma gigante com receitas anuais de R$ 23,2 bilhões, exportações de US$ 2,5 bilhões e investimentos já aprovados de US$ 1 bilhão

Fabiane Stefano

"Já que". Essa expressão resume a filosofia de negócios ao longo dos 100 anos da Bunge no Brasil. A estratégia poderia ser descrita assim: “já que” beneficiamos soja, vamos processá-la; “já que” esmagamos o grão, vamos refinar o óleo; “já que” compramos soja do produtor, vamos vender fertilizantes. E de “já que” em “já que”, a empresa se tornou a maior empresa do agronegócio do Brasil. Tudo o que se refere a essa companhia de alimentos e fertilizantes é superlativo.

Biô Barreira
R$ 5,8 bilhões: é o faturamento da divisão de fertilizantes da Bunge, que engloba várias marcas, como IAP, Ouro Verde e Manah. Tal segmento contribui com 25% das receitas do grupo no País

Em 2004, a Bunge faturou nada menos que R$ 23,2 bilhões no País. Foi a quarta maior exportadora brasileira, atrás apenas da Petrobras, Embraer e Vale do Rio Doce. E naturalmente a número um do campo nas vendas externas: US$ 2,5 bilhões em exportações (quase o dobro da arquirival Cargill). Mais: até 2007 a empresa pretende investir US$ 1 bilhão no País. Mas, afinal, o que a líder absoluta no campo brasileiro pode querer mais? “Nosso objetivo é melhorar a cadeia do agronegócio. Quanto mais eficiente formos, maior será a receita ao produtor. E mais dinheiro nós vamos ganhar”, disse Alberto Weisser, CEO mundial da Bunge à DINHEIRO RURAL (leia entrevista à página 46). Ele é o brasileiro de ascendência germânica que comanda a maior processadora de óleo vegetal do mundo. Esse é mais um trunfo da Bunge brasileira: ter emplacado o principal executivo da companhia. É por isso mesmo que o CEO é enfático quanto ao papel do País no agricultura mundial. “O Brasil vai ter uma responsabilidade enorme para alimentar o mundo. E isso é uma obrigação”, diz Weisser, com o leve sotaque que adquiriu fora do País.

Biô Barreira

A Bunge de 2005 é uma gigante transnacional de origem holandesa, que nasceu em 1818, mas que há muito tempo perdeu a sua identidade européia. Sediada em White Plans, cidadezinha no subúrbio de Nova York, a companhia está presente em 32 países com 25 mil empregados. O Brasil é um dos seus pilares produtivos. Boa parte da soja distribuída pelos quatros cantos do mundo vem da América do Sul – principalmente do Brasil. Daqui, saíram no ano passado cerca de 9 milhões de toneladas de soja. Outros 4 foram processados e consumidos dentro do País. Mas não é só do grão amarelo que vive a empresa. Milho, algodão, trigo, canola e girassol entram nas unidades da empresa e saem processados para o mercado interno e externo. São 300 instalações entre fábricas, portos e centros de distribuição que abrigam 11 mil funcionários. Mas para entender o real poder de fogo da empresa é preciso lembrar que, onde a Bunge chega, ela muda a vida de cidades e regiões. Tome-se o exemplo da cidade de Uruçuí, no sul do Piauí. No final de 2003, a Bunge inaugurou uma unidade de recebimento de soja no município, com capacidade de processamento de 200 mil toneladas por dia. O empreendimento simplesmente mudou a cara da cidade. Diariamente, chegam entre 300 e 400 caminhões a Uruçuí para embarque e desembarque de produtos. Junto com a fábrica, uma série de pequenos negócios foram abertos. “De restaurantes a prestadores de serviços, muita gente veio para a cidade se beneficiar dos lucros da soja”, conta Ivan Pereira, secretário municipal de agricultura.

Tradição de séculos: A Bunge nasceu em 1818 na Holanda. Expandiu-se no mundo todo e hoje está presente em 32 países. Um dos investimentos mais recentes foi o centro de processamento de soja em Luís Eduardo Magalhães, na Bahia

Embora a soja seja a grande estrela dentro do portfólio da empresa, a estréia da companhia no País aconteceu por conta do trigo. A história da Bunge começou em 1905, quando a empresa se associou a um grupo de empresários de Santos para financiar a instalação do primeiro moinho de trigo da cidade, o Moinho Santista. Depois veio a cultura do algodão, que deu origem às atividades no setor têxtil. A soja só chegaria nos anos 70 na vida da empresa. Ali começava uma forte expansão na cultura da oleoginosa. Nos anos 90, a abertura da economia exigiu um grande redimensionamento da companhia no País. Naquela época, a Bunge era um imenso conglomerado que incluía indústrias, banco, corretora, imobiliária, processamento de dados, produção de computadores entre outras atividades. A empresa chegou a controlar mais de 130 empresas no Brasil – entre elas a Tintas Coral e a Vera Cruz Seguradora. Tamanha diversificação ao longo do tempo cobrou seu preço. A Bunge havia se tornado um mamute complexo e vagaroso. A companhia então decidiu voltar a suas origens no agronegócio. Vendeu boa parte dos ativos que nada tinham a ver com o campo e passou a comprar empresas que reforçassem sua posição. É dessa nova fase que vieram as aquisições no setor de fertilizantes. Marcas fortes no campo como IAP, Ouro Verde e Manah foram compradas. Hoje, a divisão de fertilizantes responde por 25% do faturamento da empresa. Curiosamente, essa era uma área que deveria ser limada dentro do portfólio da companhia durante a reestruturação. Mas foi a habilidade de Mário Barbosa, ex-executivo da Manah e da Fosfertil, que reverteu o jogo. Contratado em 1996 para vender a Serrana, principal marca da Bunge em fertilizantes, ele convenceu os executivos a ampliar a atuação na área. E é com a mesma habilidade que Barbosa está costurando novos investimentos de fertilizantes no mundo. Ele é membro do board da empresa – das 12 cabeças, três são brasileiras – e está liderando o processo de investimentos na Ucrânia e no Marrocos. No Brasil, a empresa deve dobrar a produção de ácido sulfúrico em Araxá, Minas Gerais, e reabrir uma mina em Itápolis, Santa Catarina, em associação com a concorrente Yara. Planos mais ambiciosos, no entanto, estão descartados enquanto uma importante peça desse tabuleiro estiver suspensa: o fator Petrobras. Há meses, a estatal voltou a flertar com o mercado de fertilizantes e pode vir a fabricar o insumo. “Não sabemos se a Petrobras será fornecedora de gás ou concorrente nesse mercado”, diz Barbosa.

Alvo do Greenpeace: Movimento ambientalista espalhou outdoors contra a multinacional

Ok. Mas todo esse gigantismo não veio de graça. A companhia tem fama de ser truculenta nas negociações com fornecedores. No ano passado, por exemplo, a companhia foi encarada como uma das vilãs da crise que espremeu a renda dos produtores de soja. A chamada operação “soja verde”, em que as companhias financiam aos sojicultores a compra de insumos, a produção e a comercialização da safra em troca do produto, acabou penalizando boa parte dos que aderiram ao esquema, já que eles haviam se comprometido quando a cotação do produto estava mais baixa e viram, depois, os preços subirem. “Os produtores ficaram nas mãos das grandes empresas”, diz um produtor do Mato Grosso. “Esse é um importante instrumento de financiamento, em um País que não tem recursos para a agricultura”, diz Barbosa. Nessa mesma linha, a Bunge começa a desenhar um projeto de seguro rural em parceria com bancos, já que a empresa está escaldada de ver crises no campo por conta das intempéries climáticas. A multinacional também costuma ser alvo preferencial de ONGs como a Greenpeace. No final de junho, a organização lançou uma campanha incentivando os consumidores a pressionarem a Bunge por produção livre de transgênicos.

Zeca Caldeira
Waldrich e Barbosa: Presidentes da divisão Alimentos e Fertilizantes no Brasil influenciam a companhia no mundo todo

Mas enquanto a Bunge comemora seu centenário no País, os ventos prósperos da companhia sopram para a vizinha Argentina. A empresa está construindo uma megaunidade de esmagamento de soja com capacidade para 19 mil toneladas por dia – juntas as três unidades brasileiras processam 13,3 mil toneladas diariamente. A planta industrial poderia muito bem ter sido feita no Brasil, mas a justificativa pela opção argentina é que a carga tributária tira a lucratividade da atividade em solo brasileiro. Fica, então, mais fácil deslocar a produção da matéria-prima. “Poderíamos ter feito essa fábrica aqui. Mas o ICMS aumenta o custo de moagem”, diz Sergio Waldrich, presidente da Bunge Alimentos, o terceiro brasileiro com assento no conselho mundial. É ele quem cuida da divisão alimentícia, colosso que envolve 30 mil fazendeiros que fornecem grãos e área de produtos ao consumidor. São 16 produtos destinados as prateleiras dos supermercados, área que ainda responde por uma fração pequena do faturamento. Mas “já que” a Bunge é a maior companhia do agronegócio nacional também não custa nada ganhar o estômago dos brasileiros.

Weisser: Exportação de milho e soja pelo Brasil irá dobrar em cinco anos
“O Brasil vai alimentar o mundo”

O executivo Alberto Weisser, CEO mundial da Bunge, tem uma posição rara. É daqueles brasileiros, como Carlos Ghosn, da Renault, à frente de impérios globais. Em São Paulo, Weisser falou com exclusividade à DINHEIRO RURAL.

DINHEIRO RURAL – Que futuro a Bunge enxerga para o Brasil?
ALBERTO WEISSER
– A demanda mundial por grãos cresce 3% ao ano e vai continuar a se expandir, principalmente na Ásia. As agriculturas dos Estados Unidos, Europa e Ásia estão limitadas ou até diminuindo. Isso significa que a responsabilidade do Brasil de prover o mundo com grãos vai aumentar. Em cinco anos, a exportação de milho e soja vai ter de dobrar. O Brasil terá de alimentar o mundo. E não é um direito ou uma oportunidade. É uma obrigação.

DR - O Brasil é sua maior aposta?
WEISSER
– Temos que olhar o mundo como um todo. É uma cadeia. Então, vemos a originação do negócio na América do Sul e o destino na Ásia. Fazemos a ponte. No Brasil, estamos investindo US$ 1 bilhão até 2007.

DR – Vocês são líderes no País. O que falta fazer?
WEISSER
– O nosso objetivo é melhorar a cadeia do agronegócio. Quanto mais eficientes nós formos, maior vai ser a receita ao produtor.

DR – A Cargill, principal concorrente de vocês, está investindo em carnes e cana-de-açúcar no País. A Bunge também tem interesse em investir em novas áreas?
WEISSER
– Começamos com soja e temos grande importância na área de fertilizantes. O casamento da cadeia é importante: fertilizantes com soja. Em outros países do mundo, somos hoje o maior processador de girassol. O Brasil também vai ter de ser muito importante na produção de milho, uma vez que vai faltar milho no mundo. Se surgirem outras oportunidades, por que não?

DR – Como o sr. vê a atual gritaria dos produtores no Brasil?
WEISSER
– Em parte, eles estão certos. O que mais atrapalha é o dólar baixo. O que eu recomendo ao produtor é vender a soja e comprar dólar. Com isso, ele ganha dinheiro. A soja está alta e, se ele esperar, o real vai se desvalorizar.