| Biô Barreira |
 |
| Unidade da Bunge na Bahia:
Chegada da empresa atraiu uma série de novos
negócios |
 |
|
Por dentro da Bunge
Saiba como funciona a empresa mais poderosa
do agronegócio: uma gigante com receitas anuais de R$ 23,2
bilhões, exportações de US$ 2,5 bilhões
e investimentos já aprovados de US$ 1 bilhão

Fabiane Stefano
"Já que". Essa expressão resume a filosofia
de negócios ao longo dos 100 anos da Bunge no Brasil. A estratégia
poderia ser descrita assim: “já que” beneficiamos
soja, vamos processá-la; “já que” esmagamos
o grão, vamos refinar o óleo; “já que”
compramos soja do produtor, vamos vender fertilizantes. E de “já
que” em “já que”, a empresa se tornou a
maior empresa do agronegócio do Brasil. Tudo o que se refere
a essa companhia de alimentos e fertilizantes é superlativo.
| Biô Barreira |
 |
| R$ 5,8 bilhões: é
o faturamento da divisão de fertilizantes da Bunge, que
engloba várias marcas, como IAP, Ouro Verde e Manah.
Tal segmento contribui com 25% das receitas do grupo no País |
Em 2004, a Bunge faturou nada menos que R$ 23,2 bilhões
no País. Foi a quarta maior exportadora brasileira, atrás
apenas da Petrobras, Embraer e Vale do Rio Doce. E naturalmente
a número um do campo nas vendas externas: US$ 2,5 bilhões
em exportações (quase o dobro da arquirival Cargill).
Mais: até 2007 a empresa pretende investir US$ 1 bilhão
no País. Mas, afinal, o que a líder absoluta no campo
brasileiro pode querer mais? “Nosso objetivo é melhorar
a cadeia do agronegócio. Quanto mais eficiente formos, maior
será a receita ao produtor. E mais dinheiro nós vamos
ganhar”, disse Alberto Weisser, CEO mundial da Bunge à
DINHEIRO RURAL (leia entrevista à página 46). Ele
é o brasileiro de ascendência germânica que comanda
a maior processadora de óleo vegetal do mundo. Esse é
mais um trunfo da Bunge brasileira: ter emplacado o principal executivo
da companhia. É por isso mesmo que o CEO é enfático
quanto ao papel do País no agricultura mundial. “O
Brasil vai ter uma responsabilidade enorme para alimentar o mundo.
E isso é uma obrigação”, diz Weisser,
com o leve sotaque que adquiriu fora do País.
| Biô Barreira |
 |
A Bunge de 2005 é uma gigante transnacional de origem holandesa,
que nasceu em 1818, mas que há muito tempo perdeu a sua identidade
européia. Sediada em White Plans, cidadezinha no subúrbio
de Nova York, a companhia está presente em 32 países
com 25 mil empregados. O Brasil é um dos seus pilares produtivos.
Boa parte da soja distribuída pelos quatros cantos do mundo
vem da América do Sul – principalmente do Brasil. Daqui,
saíram no ano passado cerca de 9 milhões de toneladas
de soja. Outros 4 foram processados e consumidos dentro do País.
Mas não é só do grão amarelo que vive
a empresa. Milho, algodão, trigo, canola e girassol entram
nas unidades da empresa e saem processados para o mercado interno
e externo. São 300 instalações entre fábricas,
portos e centros de distribuição que abrigam 11 mil
funcionários. Mas para entender o real poder de fogo da empresa
é preciso lembrar que, onde a Bunge chega, ela muda a vida
de cidades e regiões. Tome-se o exemplo da cidade de Uruçuí,
no sul do Piauí. No final de 2003, a Bunge inaugurou uma
unidade de recebimento de soja no município, com capacidade
de processamento de 200 mil toneladas por dia. O empreendimento
simplesmente mudou a cara da cidade. Diariamente, chegam entre 300
e 400 caminhões a Uruçuí para embarque e desembarque
de produtos. Junto com a fábrica, uma série de pequenos
negócios foram abertos. “De restaurantes a prestadores
de serviços, muita gente veio para a cidade se beneficiar
dos lucros da soja”, conta Ivan Pereira, secretário
municipal de agricultura.
 |
| Tradição de
séculos: A Bunge nasceu em 1818 na Holanda.
Expandiu-se no mundo todo e hoje está presente em 32
países. Um dos investimentos mais recentes foi o centro
de processamento de soja em Luís Eduardo Magalhães,
na Bahia |
Embora a soja seja a grande estrela dentro do portfólio
da empresa, a estréia da companhia no País aconteceu
por conta do trigo. A história da Bunge começou em
1905, quando a empresa se associou a um grupo de empresários
de Santos para financiar a instalação do primeiro
moinho de trigo da cidade, o Moinho Santista. Depois veio a cultura
do algodão, que deu origem às atividades no setor
têxtil. A soja só chegaria nos anos 70 na vida da empresa.
Ali começava uma forte expansão na cultura da oleoginosa.
Nos anos 90, a abertura da economia exigiu um grande redimensionamento
da companhia no País. Naquela época, a Bunge era um
imenso conglomerado que incluía indústrias, banco,
corretora, imobiliária, processamento de dados, produção
de computadores entre outras atividades. A empresa chegou a controlar
mais de 130 empresas no Brasil – entre elas a Tintas Coral
e a Vera Cruz Seguradora. Tamanha diversificação ao
longo do tempo cobrou seu preço. A Bunge havia se tornado
um mamute complexo e vagaroso. A companhia então decidiu
voltar a suas origens no agronegócio. Vendeu boa parte dos
ativos que nada tinham a ver com o campo e passou a comprar empresas
que reforçassem sua posição. É dessa
nova fase que vieram as aquisições no setor de fertilizantes.
Marcas fortes no campo como IAP, Ouro Verde e Manah foram compradas.
Hoje, a divisão de fertilizantes responde por 25% do faturamento
da empresa. Curiosamente, essa era uma área que deveria ser
limada dentro do portfólio da companhia durante a reestruturação.
Mas foi a habilidade de Mário Barbosa, ex-executivo da Manah
e da Fosfertil, que reverteu o jogo. Contratado em 1996 para vender
a Serrana, principal marca da Bunge em fertilizantes, ele convenceu
os executivos a ampliar a atuação na área.
E é com a mesma habilidade que Barbosa está costurando
novos investimentos de fertilizantes no mundo. Ele é membro
do board da empresa – das 12 cabeças, três são
brasileiras – e está liderando o processo de investimentos
na Ucrânia e no Marrocos. No Brasil, a empresa deve dobrar
a produção de ácido sulfúrico em Araxá,
Minas Gerais, e reabrir uma mina em Itápolis, Santa Catarina,
em associação com a concorrente Yara. Planos mais
ambiciosos, no entanto, estão descartados enquanto uma importante
peça desse tabuleiro estiver suspensa: o fator Petrobras.
Há meses, a estatal voltou a flertar com o mercado de fertilizantes
e pode vir a fabricar o insumo. “Não sabemos se a Petrobras
será fornecedora de gás ou concorrente nesse mercado”,
diz Barbosa.
 |
| Alvo do Greenpeace:
Movimento ambientalista espalhou outdoors contra a multinacional |
Ok. Mas todo esse gigantismo não veio de graça. A
companhia tem fama de ser truculenta nas negociações
com fornecedores. No ano passado, por exemplo, a companhia foi encarada
como uma das vilãs da crise que espremeu a renda dos produtores
de soja. A chamada operação “soja verde”,
em que as companhias financiam aos sojicultores a compra de insumos,
a produção e a comercialização da safra
em troca do produto, acabou penalizando boa parte dos que aderiram
ao esquema, já que eles haviam se comprometido quando a cotação
do produto estava mais baixa e viram, depois, os preços subirem.
“Os produtores ficaram nas mãos das grandes empresas”,
diz um produtor do Mato Grosso. “Esse é um importante
instrumento de financiamento, em um País que não tem
recursos para a agricultura”, diz Barbosa. Nessa mesma linha,
a Bunge começa a desenhar um projeto de seguro rural em parceria
com bancos, já que a empresa está escaldada de ver
crises no campo por conta das intempéries climáticas.
A multinacional também costuma ser alvo preferencial de ONGs
como a Greenpeace. No final de junho, a organização
lançou uma campanha incentivando os consumidores a pressionarem
a Bunge por produção livre de transgênicos.
| Zeca Caldeira |
 |
| Waldrich e Barbosa:
Presidentes da divisão Alimentos e Fertilizantes no Brasil
influenciam a companhia no mundo todo |
Mas enquanto a Bunge comemora seu centenário no País,
os ventos prósperos da companhia sopram para a vizinha Argentina.
A empresa está construindo uma megaunidade de esmagamento
de soja com capacidade para 19 mil toneladas por dia – juntas
as três unidades brasileiras processam 13,3 mil toneladas
diariamente. A planta industrial poderia muito bem ter sido feita
no Brasil, mas a justificativa pela opção argentina
é que a carga tributária tira a lucratividade da atividade
em solo brasileiro. Fica, então, mais fácil deslocar
a produção da matéria-prima. “Poderíamos
ter feito essa fábrica aqui. Mas o ICMS aumenta o custo de
moagem”, diz Sergio Waldrich, presidente da Bunge Alimentos,
o terceiro brasileiro com assento no conselho mundial. É
ele quem cuida da divisão alimentícia, colosso que
envolve 30 mil fazendeiros que fornecem grãos e área
de produtos ao consumidor. São 16 produtos destinados as
prateleiras dos supermercados, área que ainda responde por
uma fração pequena do faturamento. Mas “já
que” a Bunge é a maior companhia do agronegócio
nacional também não custa nada ganhar o estômago
dos brasileiros. 
 |
 |
 |
| Weisser: Exportação
de milho e soja pelo Brasil irá dobrar em cinco
anos |
“O Brasil vai alimentar o mundo”
O executivo Alberto Weisser, CEO mundial da Bunge, tem uma
posição rara. É daqueles brasileiros,
como Carlos Ghosn, da Renault, à frente de impérios
globais. Em São Paulo, Weisser falou com exclusividade
à DINHEIRO RURAL.
DINHEIRO RURAL – Que futuro a Bunge enxerga
para o Brasil?
ALBERTO WEISSER – A demanda mundial por grãos
cresce 3% ao ano e vai continuar a se expandir, principalmente
na Ásia. As agriculturas dos Estados Unidos, Europa
e Ásia estão limitadas ou até diminuindo.
Isso significa que a responsabilidade do Brasil de prover
o mundo com grãos vai aumentar. Em cinco anos, a exportação
de milho e soja vai ter de dobrar. O Brasil terá de
alimentar o mundo. E não é um direito ou uma
oportunidade. É uma obrigação.
DR - O Brasil é sua maior aposta?
WEISSER – Temos que olhar o mundo como um todo.
É uma cadeia. Então, vemos a originação
do negócio na América do Sul e o destino na
Ásia. Fazemos a ponte. No Brasil, estamos investindo
US$ 1 bilhão até 2007.
DR – Vocês são líderes
no País. O que falta fazer?
WEISSER – O nosso objetivo é melhorar
a cadeia do agronegócio. Quanto mais eficientes nós
formos, maior vai ser a receita ao produtor.
DR – A Cargill, principal concorrente de vocês,
está investindo em carnes e cana-de-açúcar
no País. A Bunge também tem interesse em investir
em novas áreas?
WEISSER – Começamos com soja e temos
grande importância na área de fertilizantes.
O casamento da cadeia é importante: fertilizantes com
soja. Em outros países do mundo, somos hoje o maior
processador de girassol. O Brasil também vai ter de
ser muito importante na produção de milho, uma
vez que vai faltar milho no mundo. Se surgirem outras oportunidades,
por que não?
DR – Como o sr. vê a atual gritaria dos
produtores no Brasil?
WEISSER – Em parte, eles estão certos.
O que mais atrapalha é o dólar baixo. O que
eu recomendo ao produtor é vender a soja e comprar
dólar. Com isso, ele ganha dinheiro. A soja está
alta e, se ele esperar, o real vai se desvalorizar.
|
 |
 |
 |
|
 |
 |
 |