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Transcendendo: Religião

 

Um zikr em São Paulo

Débora Lerrer

Sábado à noite, em uma tekkia na Penha, reúnem-se os dervixes da ordem Halveti AI-Jerrahi, fundada no século XVIII por Hazret Pir Muhammad Nureddin AI- Jerrahi. Ramo da ordem Halveti, criada no século XIV, "a Jerrahi é considerada o selo das tarikas", explica o sheik Ragip, pois é a última ordem sufi que surgiu e por essa razão herdou práticas consagradas por outras ordens, como a dança cósmica dos dervixes rodopiadores praticada pela ordem Mevlevi.

Atualmente, essa ordem encontra-se estabelecida nos cinco continentes, com representações nos EUA, Canadá, México, Brasil, Argentina, Chile, Grécia, Alemanha, Bélgica, Itália , Espanha e Austrália. Sua sede está localizada em lstambul, na Turquia, onde fica o mestre - o Sheik Tugrui Muradi Baba, que mantém a cadeia de transmissão de conhecimento dessa ordem.

A maioria dos dervixes presentes nessa tekkia, homens e mulheres, não possuem origem árabe ou muçulmana. Chegaram ao Islã via sufismo. Sheik Ragip conta está em contato com o sufismo há 20 anos, mas que só o pratica corretamente há uns 16. Há cerca de dois anos, a ordem decidiu divulgar um pouco mais suas práticas, antes restrita ao círculo familiar e aos amigos íntimos. Assim, membros da ordem convidaram algumas pessoas conhecidas para vir participar de um jantar de confraternização e para a cerimônia do zikr, a ser realizada nessa noite.

Débora Lerrer

Às mulheres convidadas pediu-se que fossem de calças e blusas de mangas compridas. As dervixes que freqüentam a tekkia usavam saias longas e lenços nos cabelos, cumprindo o costume muçulmano execrado por muitas mulheres ocidentais.

Após o jantar - feito à moda árabe, em uma mesa baixa, com os convidados sentados em almofadões - todos foram convidados a cantar uma oração, cuja principal estrofe La ilaha ill-Allah, "não existe divindade a não ser A Divindade", é a profissão de fé da religião muçulmana e é invocada constantemente na prática sufista.

A seguir, os presentes se preparam para zikr, que é precedido pela oração da noite, a última das orações diárias dos muçulmanos. Na frente, Isaias, membro da ordem que veio da Turquia após casar-se com uma brasileira. Músico e cego, ele sabe o Alcorão de cor e pontuou o jantar respondendo às questões colocadas pelos presentes com histórias sufis e exemplos da sabedoria muçulmana.

Débora Lerrer

Durante a cerimônia, onde os homens ficaram na frente e as mulheres atrás, vários nomes e atributos de Alá eram recitados repetidamente em voz alta, ao mesmo tempo em que os dervixes faziam movimentos ritmados com a cabeça, acompanhando o ritmo das enunciações. Algumas vezes, o sheik Ragip pegava um instrumento de percussão que aprofundava ainda mais o ritmo que exalava do ambiente. No início do zikr todos estavam voltados para a parede que simboliza a direção de Meca. Durante a cerimônia, os homens fizeram um círculo que foi se fechando até que, no final, eles deram-se as mãos e rodaram juntos. As mulheres ficaram o tempo todo lado a lado, voltadas simbolicamente para Meca. Durante todo o ritual, sheik Ragip dirigia o início e o fim da recitação de um dos nomes ou atributos. Em alguns momentos, os dervixes pareciam entrar em transe tal a intensidade de suas palavras e movimentos. Infelizmente, como era tarde, nenhum dos dervixes fez o sama, a dança cósmica rodopiante dos sufis.

Ao final da cerimônia, a atmosfera era de paz. Com o belo cumprimento sufi, o braço dobrado em cima do lado do coração, as visitas foram então embora, tocadas pela leveza daquela experiência e pela hospitalidade de seus anfitriões.

Leia Mais:

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Links relacionados

Site da ordem sufi Halveti Al-Jerrahi, que tem sede na Turquia e representação em São Paulo.

Whirling dervishes, Rumi, relato de um sama na Turquia.

Lindo poema de Al Hallaj sobre Deus.

O pensamento e obra de Rumi.

Lista de inúmeros sites sobre sufismo.

Em português, site da ordem Naqshabandiya, que existe no Brasil há 25 anos e tem sede no Rio de Janeiro.

 



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