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Longo dia de festa
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| O
altar, decorado para a festa de ano novo e aniversário
do senhor Caitanya |
O dia da festa de Ano Novo na fazenda Nova Gokula começou,
como de costume, às 4h15 da manhã, quando iniciam-se
os rituais diários da comunidade. Primeiramente, os
devotos se reuniram em um pequeno pagoda, onde está
reproduzida a imagem de Srila Prabhupada, sentado em tamanho
natural - réplica da imagem que também existe
no templo, no lado oposto ao altar das divindades.
Depois,
os cantos e danças migraram para o grande templo,
onde confluíram mais pessoas do que na noite anterior.
Durante mais de uma hora o grupo de homens e mulheres, cada
qual ocupando um dos lados do salão, cantou e dançou
mantras invocando os vários nomes de Krishna. Periodicamente,
os devotos dançavam com as mãos levantadas e
as palmas, gesto que eles acreditam ter o poder de alterar
o carma ruim. Enquanto isso, ao longo do ritual, uma acerdotisa
fazia puja, ou seja, oferecia os cinco elementos da tradição
hindu às divindades do panteão, então
ornadas com os colares de flores que vimos sendo confeccionados
na noite anterior. Posicionada no canto do altar e voltada
para as divindades, a sacerdotisa tocou uma sineta, queimou
incenso, que representa o elemento éter, ofereceu água,
uma lâmpada de fogo, abanou as divindades, representando
o ar, e ofereceu uma flor, que simboliza o elemento terra.
O puja de fogo e flor também foi oferecido por devotos
aos participantes do ritual que aproximavam a mão da
lâmpada, levando-a à testa, e aspiravam o aroma
da flor.
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A
certa altura do ritual, duas plantas idênticas foram
trazidas para o salão. Era a Túlase, uma árvore
indiana considerada sagrada pelos Hare Krishna. As mulheres,
em volta de uma, e os homens, em volta da outra, circularam
as plantas três vezes. Na terceira regaram a árvore
com três colherinhas de água. Vrajavara, 32,
uma devota gaúcha que visitava Nova Gokula para participar
das festividades, me convidou a dar as três voltas.
"Apaga os pecados de várias vidas passadas",
me garantiu ela. Reza a tradição que a Túlase
tem uma alma muito especial, pois há cinco mil anos,
quando Krishna esteve na terra, ela era uma "golpi",
uma de suas servas. Como gostava muito de servir a seu Deus,
a moça transformou-se na Túlase para ficar sempre
aos pés de Krishna. Os Hare Krishna acreditam, portanto,
que ao adorarem a planta eles desenvolvem devoção
a Deus.
Depois de terminada essa primeira parte do ritual,
que foi até cerca de 6:30 da manhã, as portas
do altar foram fechadas. Todos os devotos se deitaram de bruços,
tocando a testa no chão, em sinal de humildade. Essa
posição é adotada toda a vez que o altar
se abre, se fecha ou quando um devoto entra ou sai da sala.
A seguir, um dos membros da comunidade, sentou-se em uma espécie
de poltrona, localizada em um dos cantos da sala e proferiu
uma palestra, cujo tema era a vinda do "Senhor Caitanya",
há 500 anos.
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| Na
noite da festa, devotas prestam homenagens a Krishna
dançando e cantando mantras em frente ao altar |
Depois
da palestra, os devotos entraram em meditação.
Com um japa mala (o "rosário" hindu), que
tem 108 contas, eles recitam o mantra Hare Krishna, dando
16 voltas no colar - ou seja, repetindo o mantra 1728 vezes
(108 x 16). Para evitar que o sono atrapalhe a meditação,
a maioria dos devotos adota a tática de fazê-la
em movimento, caminhando em torno do templo. Ao final da meditação,
houve um novo culto, agora voltado para o altar dedicado a
Srila Prabhupada. Foram entregues uma porção
de pétalas de flores a cada um dos presentes, que jogaram
nos pés da estátua deste senhor, morto em 1977,
que divulgou o movimento Hare Krishna no Ocidente.
Depois de finalizados os rituais, os devotos, que deveriam
permanecer todo o dia de jejum, se organizaram na tarefa de
cozinhar as 108 preparações que seriam oferecidas
à Krisnha, bem como a comida que seria oferecida aos
convidados naquela noite. Em dias de festa, o templo costuma
receber a visita de devotos que vêm de outras regiões.
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| No
altar, monja faz "puja" a Krishna, oferecendo
os cinco elementos às divindades |
Logo
ao cair da noite, no momento em que a lua cheia despontou
no céu, deu-se início ao ritual da festa de
Ano Novo. O salão do templo estava repleto. As mulheres
em seus "saris de festa" coloriam o ambiente. O
ritual desenvolveu-se semelhante ao da manhã, mas os
devotos estavam ainda mais animados e as portas do altar estavam
fechadas. Não era permitido assistir, mas dentro, os
sacerdotes ofereciam as 108 preparações a Krishna.
Ao final do ritual, quando enfim as portas do altar se abriram,
todos os devotos deitaram-se no chão, de bruços.
Dentro do altar, bandejas com comidas, doces, dois imensos
bolos e as divindades ainda mais ornamentadas. Para celebrar
aquele momento, mais cantos e danças em tons cada vez
mais altos e animados. "A vida dos devotos é só
alegria", disse-me Vrajavara sorridente, convidando-me
mais uma vez a dançar com eles no meio do salão.
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| A
imagem de Srila Prabhupada, com o grande bolo que
depois foi dividido entre os devotos |
No
final do ritual, os alimentos oferecidos a Krishna foram
transportados
para o altar dedicado a Srila Prabhupada. Começaria
então a esperada prasadam, ou seja, o banquete que
encerrou do dia de festividades.
Foram
entregues bandejões metálicos e quem deu
sorte conseguiu colher e copo de plástico. Todos sentaram
no chão, esperando a comida que vinha dentro de baldes,
servida por alguns devotos voluntários. Depois de encerrada
a janta propriamente dita, as 108 preparações
que foram antes dedicadas a Krisnha também foram oferecidas
aos convidados. É costume comer nem que seja um bocado,
pois acredita-se que essa comida seja abençoada. Terminada
a prasadam, findou-se a festa de Ano Novo dos Hare Krishna,
e os visitantes que não iam curtir mais alguns dias
naquele pequeno paraíso encravado na Serra da Mantiqueira
tomaram o caminho de casa - driblando as vacas e os pavões
que vivem soltos, colorindo ainda mais a vida de devotos e
turistas espirituais.
SERVIÇO:
A fazenda Nova Gokula pode ser contatada pelo fone (12) 243
- 1804
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