| |
Tantra:
expandindo o prazer
 |
| Astarte,
deusa do amor |
De
acordo com Heródoto, historiador grego do século III a.C.,
era costume babilônico que toda a mulher virgem perdesse sua
virgindade no templo do amor e tivesse relações sexuais com
estranhos. Não importava a quantia de dinheiro, ela nunca
recusaria, pois isso é que seria pecado. Segundo ele, as mulheres
altas e belas logo ficavam livres para partir, mas as feias
tinham que esperar muito tempo, podendo chegar a três ou quatro
anos. Todo o dinheiro e o ato em si eram dedicados à deusa,
e portanto, considerados santos. Para a mulher, esse ato não
representava a desonra, era motivo de orgulho. Em outras localidades,
tal honra só era alcançada pelas mais nobres de estirpe. O
ato sexual com estranhos consagrado à deusa era considerado
purificador. Mais tarde, até as matronas romanas, da mais
alta aristocracia, vinham ao templo de Juno Sospita para entrar
no ato da prostituição sagrada quando era necessária uma revelação.
No Egito, as deusas Hátor e Bastet eram adoradas como
deusas da fertilidade. Freqüentemente são representadas nuas,
acompanhadas por um coro de mulheres dançantes. No tempo das
grandes festas, as mulheres permaneciam a serviço da deidade.
Tendo cumprido suas obrigações na noite do ritual, elas voltavam
a suas casas para reassumirem sua vida diária.
Em Hierápolis, no Líbano, a moderna Baalbek, matrona,
bem como virgens, prostituíam-se a serviço da deusa Atar.
Em alguns casos, mulheres que não desejavam levar vida casta,
nem casar, passavam a morar nos recintos do templo. Eram elas
as Virgens Vestais. Elas serviam à deusa grega ou romana Héstia
ou Vesta, como encarregadas do fogo das lareira. Tinham como
propósito trazer o poder fertilizante da deusa para o contato
efetivo com as vidas dos seres humanos.
Em outros casos, o caminho da mulher à prostituição
sagrada realizava-se através da sujeição ao conquistador guerreiro.
Ramsés III atesta esse fato nos relatos de inscrição de prisioneiros
que fez na guerra da Síria. Os homens foram levados para um
"depósito", e suas mulheres foram feitas súditas do templo.
Independentemente de virem ao templo do amor por determinação
da lei, por dedicação ou por servidão, por sua origem real
ou comum, por uma noite ou por toda a vida, sabemos que as
prostitutas sagradas eram muito numerosas. De acordo com Estrabão,
nos templos de Afrodite em Érix e Corinto havia mais de mil.
No código de Hamurabi, uma legislação especial salvaguardava
os direitos e o bom nome da prostituta sagrada; era protegida
contra difamações, assim como seus filhos, através da mesma
lei que preservava a reputação da mulher casada. Elas também
gozavam do direito de herdar propriedades do pai e receber
renda da terra trabalhada por seus irmãos.
Há mais de 5.000 anos, onde hoje é o Paquistão, floresceu
uma civilização chamada Harappiana, de etnia drávida, cujos
remanescentes vivem hoje no Sul da Índia e no Sri Lanka. Escavações
arqueológicas feitas neste século indicam que era uma civilização
agrícola, que dominava técnicas urbanísticas avançadas e que
surpreendentemente não tinha religião. Nos sítios arqueológicos
não existem resquícios de templos, esculturas de deuses, nem
de palácios destinados a sacerdotes e imperadores. Esta civilização
concebeu o Tantra, uma filosofia comportamental de características
matriarcais, sensoriais e desrepressoras, que desenvolveu
uma maneira de usar a energia sexual para propiciar crescimento
interior.
Mestre De Rose, codificador mundial do Yôga pré-clássico
e profundo conhecedor do Tantra, rejeita todo o tipo de associação
que é feito entre Tantra que ele professa, o mais antigo,
conhecido como de linha branca, com espiritualismo. Além do
Tantra da linha branca, existe o negro e o cinza.
O Tantra branco foi desenvolvido pela civilização harappiana
antes da invasão ariana no século 1500 a.C. "Era natural,
discreto, não queria provar nada para ninguém", explica De
Rose. Além de ser o mais antigo, é também o mais sutil, refinado
e bem reputado. Seus seguidores não fumam, não tomam bebida
alcoólica, não comem nenhum tipo de carne e não usam drogas.
Os invasores arianos baniram o Tantra, que continuou
existindo como uma tradição secreta transmitida oralmente
ao longo de várias gerações, até que foi escrito, no século
VIII - quando também surgiu o Tantra Negro, que incorporou
o intenso misticismo da Índia medieval. O Tantra Negro tornou-se
uma corrente mais ritualística e mais transgressora do que
a linha branca, pois procurava desafiar a dominação ariana.
Pouco tempo depois, surgiu na Índia uma linha intermediária,
chamada de Tantra Cinza, que mescla elementos das duas primeiras
linhas.
Nessa época, o Tantra atravessou as fronteiras da Índia.
"Pegou como fogo em gasolina. A Ásia inteira ficou contaminada
pelo Tantra", diz De Rose. Desse encontro surgiu o budismo
tântrico, que eliminou o ritual sexual, mas manteve o simbolismo
da união sexual como metáfora da união com o divino. Na China,
a mistura de taoísmo com práticas sexuais tântricas resultou
na Alquimia taoísta, enriquecida ao longo dos séculos com
as contribuições de seus praticantes.
A reação à expansão do Tantra, entretanto, foi implacável.
"Quem fosse acusado de praticar o Tantra sofria mais perseguição
e tortura do que os acusados de heresia durante a Inquisição",
conta De Rose.
Leia
Mais:
O Sexo Sagrado
Tantra: expandindo o prazer
Maithuna
|