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O
circuito neo-esotérico - Continuação
PnW
- Você acredita que o neo-esoterismo é uma febre
comercial passageira ou veio para ficar?
Magnani - Veio para ficar. É uma busca de alargamento
dos horizontes. Essas formas foram sendo depuradas com o tempo
e vão subsistir aquelas que têm uma proposta
mais articulada. Não digo verdadeira ou falsa, mas
mais consistente internamente. Isso já está
ocorrendo. Hoje já não aparecem mais alternativas
deslumbrantes nos meios de comunicação, como
nos anos 90. Continua havendo uma busca dessas propostas,
mas já sem muito apelo, que é o que caracteriza
um modismo apenas comercial. Passado esse momento em que houve
experimentalismo sem controle, que qualquer um abria uma sala
e fazia massagem, algumas dessas práticas vão
se revelar oferecendo uma solução mais estruturada.
Essas ficam, as outras passam. E isso só o tempo vai
dizer
PnW
- Muito gente atribui essa busca a chegada da Era de Aquário.
O que acha disso?
Magnani - A Era de Aquário é uma utopia,
no sentido amplo da palavra, não quer dizer que seja
falsa. Isso mostra que as pessoas têm necessidade de
grandes sínteses. Ninguém consegue viver muito
tempo em uma situação muito fragmentária,
por isso elas procuram religiões, filosofias que dêem
um sentido para essa prática cotidiana. Qualquer religião,
filosofia, qualquer sistema oferece um significado. As pessoas
têm uma prática cotidiana fragmentada, sujeita
a vicissitudes, a problemas, às vezes está bem,
às vezes está mal, então ela precisa
ter uma explicação mais global. É essa
a idéia da magia, que de uma forma geral, aparece em
todo sistema religioso. É uma busca de significado
que integre os pedaços. Isso sempre existiu, sempre
vai existir seja qual for a solução que esteja
sendo oferecida hoje.
PnW - E hoje essas utopias convivem entre si, não
é?
Magnani - Convivem, entram em contato. Uma busca uma
coisa na outra. Essa é uma característica dos
tempos contemporâneos. Essa permeabilidade de fronteiras
ocorre na literatura, na música. Essas práticas
que eu estudo no neo-esoterismo são abrangentes. Elas
não te perguntam de onde você vem. Elas procuram
integrar às vezes uma prática religiosa tradicional
com uma outra. Mas as religiões tradicionais não,
elas são excludentes. Você não pode ser
evangélico e ao mesmo tempo praticar outra coisa.
PnW -Por que você acha que esse estilo de vida
que se pretende mais espiritualizado tenha se tornado mais
acessível em uma sociedade de alto consumo, como em
São Paulo, e entre pessoas que estão bem posicionadas
na estrutura produtiva?
Magnani - Essas pessoas bem situadas no aparelho produtivo
procuram essas práticas para dar conta de suas angústias
pessoais, de seus problemas existenciais. Isso é um
fenômeno contemporâneo e se encontra qualquer
grande cidade do mundo. Em uma cidade como São Paulo,
que é uma mega metrópole, isso é muito
mais claro, mas está dentro da classe média.
A minha pesquisa mostra que em bairros típicos de classe
média como a Vila Mariana e Pinheiros é que
se concentram a oferta e a procura por essas práticas.
Mas para ter acesso a isso tem que haver acesso não
só a dinheiro, mas também a conhecimento prévio.
As pessoas que vão fazer as danças circulares
têm que ter alguma idéia do que sejam essas danças,
de onde elas vêm. Há um estoque simbólico
prévio.
PnW
- O que é que te chamou a atenção nesse
fenômeno a ponto de você procurar descrevê-lo
antropologicamente?
Magnani - Contrariando o que a mídia e
as pessoas que tem preconceito dizem, essas práticas
não são completamente aleatórias, elas
geram comportamento coletivo. São pessoas que têm
nível cultural, não estão buscando uma
solução qualquer. Elas buscam com isso uma melhor
qualidade de vida. Em termos espirituais e físicos,
há preocupação com a alimentação,
com soluções alternativas na saúde. A
busca por mudança não é só no
modo de vida, mas também na maneira de encarar o mundo.
Percebe-se que as pessoas têm um comportamento previsível
em termos sociais e coletivos nos diferentes espaços
que freqüentei para fazer a pesquisa. Isso é um
sinal de que eu estou trabalhando com um movimento mais amplo
do que simplesmente a invenção maluca de alguma
pessoa. E essas práticas não estão restritas
somente a seus adeptos. Uma pessoa, mesmo que não seja
neo-esotérica, faz acupuntura, homeopatia e acende
um incenso para purificar o ambiente. Há algumas práticas
que transcendem, que vão além do grupo que é
diretamente identificado com elas.
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