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Transcendendo: Alma

 

O circuito neo-esotérico

Olhadas com desconfiança pela mídia e pela Universidade, as práticas de espiritualidade e cura alternativas foram se tornando populares no Brasil, principalmente a partir da década de 80. Observando esse fenômeno, o antropólogo José Guilherme C. Magnani, do Departamento de Antropologia da USP (Universidade de São Paulo), que já havia feito estudos sobre a umbanda, voltou seu olhar para esse mundo que ele classifica de "neo-esotérico". Em entrevista para a Planeta na Web, Magnani conta algumas das interpretações que ele tirou de sua pesquisa e que resultaram nos livros "Mystica Urbe", da editora Studio Nobel, e "O Brasil da Nova Era", da Jorge Zahar Editores.

Débora F. Lerrer

PnW - O que o termo neo-esotérico define?
Neo-esotérico é um conjunto de práticas que vão desde as que têm alguma ligação com a religiosidade até processos de cura que apelam para outros sistemas que não os ocidentais dominantes.
PNW - E porque estudar e descrever esse meio da cidade de São Paulo?
Magnani - O que eu percebi em São Paulo - e que ocorre em outras cidades - é que essas práticas que há um tempo atrás eram conhecidas como supersticiosas, sinônimo de falta de cultura, a partir dos anos 80 começaram a ser vistas com um sentido mais positivo do que negativo. De estigma, passou a ser uma opção. As pessoas buscam essas práticas com uma atitude positiva e não escondida. Não é mais superstição. É uma alternativa que se tem para a espiritualidade e até para uma melhor condição de vida, para a saúde.

PnW - A que você atribui essa mudança de valor? Já vi até um rapaz fazendo uma consulta de tarô na frente da PUC-SP.
Magnani - Há vários fatores. Um deles é que há um segmento da população insatisfeito com as alternativas dadas pelas religiões tradicionais e hierárquicas. Essas pessoas vão procurar uma síntese pessoal. Em vez de receberem pronta uma solução, vão buscar de várias fontes um conjunto de práticas que satisfazem seus desejos pessoais e esse anseio de religiosidade. Há criatividade nessas buscas. Você não recebe simplesmente uma solução pronta de algum ministro. Isso mostra que é um segmento de classe média mais intelectualizada que se preocupa com a questão da espiritualidade, mas está insatisfeito com as alternativas dadas pelas religiões tradicionais. Uma outra razão é uma certa popularização da busca do entendimento dos processos internos, que veio com a psicologia e a psicanálise. Hoje há muitas formas de cultivo do eu dentro de práticas ligadas à terapias menos tradicionais. É uma busca de alternativas que compartilham um pouco da religião, mas que também tem a ver com o desenvolvimento da personalidade. As pessoas querem uma melhor qualidade de vida. Em vez de ficarem fechadas no universo do pecado, do que é proibido, elas procuram desenvolver as potencialidades internas.

PnW - Esse processo também não seria reflexo de um certo desencanto com as utopias coletivas?
Magnani - Um grande número de pessoas que eram egressos não só do movimento da contracultura, como da política, em função até de um desencanto com soluções políticas globais, das grandes propostas políticas de militância, se voltaram para soluções mais individualizadas ou em pequenos grupos. Existe uma busca de uma utopia que paradoxalmente é cósmica. Você busca a mudança e a comunhão com forças muito mais amplas do que simplesmente um partido político ou uma ideologia. Há realmente um desencanto com certas alternativas no campo da política partidária, em função de uma política mais ampla, que é a política do meio ambiente e da defesa de valores mais gerais da humanidade.

...a entrevista continua>>

 


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