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Reconectando: Jornadas

publicado em 04/07/2001

 

Apagão voluntário
Turismo ecológico e transformador num sítio sem luz elétrica no bucólico sul de Minas Gerais

Alessandra Nahra

Nesses tempos de crise energética, um apagão voluntário pode ser muito interessante. Nem que seja para aprender a lidar com uma vida no escuro. Este foi o espírito da nossa visita ao Núcleo Metamorfose, no sul de Minas Gerais. O Metamorfose é um sítio a 1.800 metros de altitude entre as cidades de Monte Verde e Gonçalves, na serra da Mantiqueira. Lá, a luz elétrica não chega. Acostumados à vida na cidade grande, onde os estímulos nos atropelam a cada minuto, como seria esta experiência voluntária na mais completa escuridão?


O Núcleo Metamorfose recebe grupos para realizar trabalhos terapêuticos, e a partir de julho/2001 também funciona como pousada. Idealizado por quatro sócios, o Metamorfose é administrado por Luis Rosado, 30 anos, cinco dos quais dedicados ao sítio no sul de Minas. "Trabalhamos com a qualidade de vida, a revitalização do ser, a ecologia humana. Este é um lugar para o silêncio e o descanso", explica Luis.

O nome, Metamorfose, é inspirado na história da fazenda. A mata nativa havia sido derrubada para a agricultura intensiva, cujo único cultivo era o pinheiro para a produção de madeira. Aos poucos, os pinheiros estão sendo derrubados para que a mata atlântica de altitude nasça novamente - o que dá ao lugar uma aura de constante mudança. E isto reflete a mudança interior dos que visitam o lugar. "O nome é Metamorfose porque toda a mata está em transformação, a caminho do que já foi um dia. Setenta por cento do sítio já está em estado natural. As nascentes voltam, os seres da mata também", diz Luis, ele próprio um ser em constante mutação.
Nascido em São Paulo, foi criado no mato, no sítio da família e nas aventuras como surfista, caverneiro e soldado.

Quando ficamos quietos nos percebemos melhor. Eu, por exemplo, descobri que tenho medo de escuro. Os quatro dias no sítio trouxeram lembranças da infância: quando faltava luz, eu tinha verdadeiro pavor de que o dia nunca mais voltasse, de que as trevas seriam eternas. Quando resolvi me aventurar numa caminhada noturna, fiquei com medo e voltei logo para casa, para o aconchego do fogo, a única fonte de calor além daquele que temos dentro.


Experimentei, assim, a luz das estrelas
e do fogo, das quais estava esquecida - e que são luz também, tanto quanto a elétrica. Para tomar banho, tive que "ligar" o fogão à lenha, o que aquecia a serpentina por onde passava a água, que em meia hora estava no ponto. Acostumada a sempre ter algo para fazer que invariavelmente depende de eletricidade, a falta dela às vezes era tediosa. A única saída era olhar para dentro, o que muitas vezes evitamos de qualquer a maneira. TV, computador, jornais, revistas, música: distrações que usamos para evitar o confronto com o que há dentro de nós. Segundo Luis, quando estamos em contato com a natureza passamos a absorver a mídia natural em vez da mídia urbana. "A gente gasta muita energia, e não sobre nenhuma para o processo de transformação. Mas se curarmos os nossos corações podemos curar o planeta", diz ele.


A escuridão, no entanto, é opcional. Para os que ficam na casa principal, o gerador oferece um alento até certa hora da noite. A comida, preparada tanto em fogão a gás quanto no fogão a lenha, é o que Luis chama de "natural criativa". Pode ser totalmente vegetariana ou pode também ter galinha caipira e truta. As refeições são servidas no salão onde uma lareira enorme está sempre crepitando, em grandes mesas que promovem a integração entre os hóspedes. Um dia típico pode começar com exercícios respiratórios e meditações. Depois do café, caminhadas pela mata. Mas tudo é muito espontâneo, avisa Luis.
"Não existem regras. As coisas acontecem com o compartilhar". Voltei à metrópole revigorada, e com a semente da transformação plantada dentro de mim.







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Serviço

O Núcleo Metamorfose pode ser contatado pelo telefone (11) 5084-6378, com Fernando. Visite o site e saiba mais sobre o sitio.

 



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