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Reconectando: A Grande Teia

publicado em 02/02/2001
 

A musa anti-corporações

Planeta na Web entrevista Naomi Klein, teórica e inspiradora dos movimentos contra a globalização.

Débora F. Lerrer

Naomi Klein: "as empresas vendem os significados das marcas, e não os produtos"

Autora do livro No Logo (literalmente, "sem logotipo"), a jornalista canadense Naomi Klein, 30 anos, converteu-se em intérprete e inspiradora dos movimentos anti-globalização que têm infernizado diversos encontros de representantes do FMI (Fundo Monetário Internacional), Banco Mundial e OMC (Organização Mundial de Comércio). O incômodo que provoca o discurso de Klein pode ser medido em Davos, no Fórum Econômico Mundial. Ativistas britânicos que pretendiam protestar na Suíça foram barrados na fronteira por que carregavam o livro de Naomi, considerado "literatura subversiva".

Dona de uma coluna semanal em um jornal canadense, a jornalista esteve em Porto Alegre participando do Fórum Social Mundial, que seria tema de um longo ensaio para a revista The Nation, a maior publicação alternativa de esquerda dos Estados Unidos. Ao chegar para a entrevista com a Planeta Na Web, Naomi tinha acabado de conversar com um editor brasileiro e anunciou em primeira mão que No Logo chegará ao País ainda este ano.

Planeta na Web - Sobre o que trata o livro No Logo?
Naomi Klein
- O livro fala sobre empresas que vendem o significado das marcas, e a maneira como essa idéia, que parece ser simples, tornou-se tão poderosa. Quando uma empresa define que vende significado, ao invés de produtos, há uma frenética busca por novas maneiras de projetar essa marca na cultura. Há cada vez mais marketing em espaços públicos, mas também existe uma espécie de fome que surge com essa cultura. Eventos culturais e esportivos que eram públicos agora são patrocinados, e não existe jeito de fugir do logotipo dos patrocinadores. O melhor exemplo disso é o patrocínio da Nike para a seleção de futebol brasileira. A Nike não quer patrocinar a seleção - ela quer se fundir, se integrar, ficar no mesmo nível da seleção. O que temos não são empresas patrocinando a nossa cultura. Temos cultura patrocinada. Música, esportes, todos os tipos de cultura agora existem dentro dessa infra-estrutura corporativa.


PnW - O que isso acarreta para nossa sociedade?
Naomi
- Nós perdemos grande parte das nossas idéias e nossos espaços para corporações. Há uma nova geração de jovens que cresceu totalmente sem nenhum senso de esfera pública, de idéias e espaços não-comerciais. No entanto, são estas as pessoas que estão lutando para ter isso de volta, lutando pelo espaço público e comunitário. Esse tipo de marketing de significados é muito caro, e por causa disso as empresas estão vendendo suas fábricas e bases industriais para financiá-lo. A produção perdeu importância, e é por isso que vemos bases industriais que exploram mão-de-obra barata no terceiro mundo. O marketing afeta tanto a esfera pública, como os contratos trabalhistas. Meu livro descreve a maneira como essas duas coisas andam juntas e como a resistência a isso surgiu.


PnW - Que tipo de pesquisa você fez para escrever No Logo? Naomi - Em meu trabalho como jornalista, já havia observado a presença de marketing em espaços onde antes não se via, como escolas. Estava envolvida com a esquerda do Canadá, e comecei a perceber uma diferença de tática, particularmente entre os jovens, a nova geração de ativistas que estava entrando na política. Era diferente, mesmo para a minha geração, cinco anos mais velha do que eles. Nós ainda pensávamos que a maneira de mudar as coisas era fazendo lobby no governo, indo atrás das políticas que se queria. Mas eles cresceram com a idéia de que as corporações multinacionais eram mais poderosas do que os próprios governos, e criaram uma nova forma de ativismo. Eles foram direto às corporações, fazendo um desvio em volta de seus governos para ir atrás das companhias que os financiavam, das instituições internacionais como a OMC (Organização Mundial de Comércio), o Nafta, e tentar bloquear diretamente essas organizações. Era um novo tipo de ativismo que estava surgindo em pequenas ações pulverizadas, em campanhas contra a Monsanto, Shell, Nike. Comecei a perceber isso há seis anos, e me dei conta que era o início de um novo movimento.


PnW - Quais são as principais características desse movimento?
Naomi
- A característica dominante é a descentralização e a diversidade. O movimento funciona como uma rede, muito como a Internet. Entre os ativistas jovens há uma suspeita e um grande cansaço da velha maneira de fazer política, que era muito hierárquica, com seus líderes no topo e você tendo que segui-los, assinar manifestos. As pessoas eram apenas trunfos auxiliares dos líderes do movimento. É difícil inclusive dizer que é um crescimento do anarquismo, como alguns costumam pontuar, pois o movimento é muito diverso para ser uma coisa só. O que eu poderia dizer é que há um grande ressurgimento do ativismo anarquista e de idéias sobre descentralização do poder. Isso não significa que todo mundo é anarquista. Mas, ao menos nos protestos de rua em Seattle, em Washington e Praga, as ações diretas são todas organizadas de acordo com princípios anarquistas que foram usados na Guerra Civil Espanhola, os chamados "grupos de afinidade", que são autônomos ainda que conectados.


...a entrevista continua na próxima página>>




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