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A musa anti-corporações
Planeta
na Web entrevista Naomi Klein, teórica e inspiradora dos movimentos
contra a globalização.
Débora
F. Lerrer
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| Naomi
Klein: "as empresas vendem os significados das
marcas, e não os produtos" |
Autora
do livro No Logo (literalmente, "sem logotipo"),
a jornalista canadense Naomi Klein, 30 anos, converteu-se
em intérprete e inspiradora dos movimentos anti-globalização
que têm infernizado diversos encontros de representantes do
FMI (Fundo Monetário Internacional), Banco Mundial e OMC (Organização
Mundial de Comércio). O incômodo que provoca o discurso de
Klein pode ser medido em Davos, no Fórum Econômico Mundial.
Ativistas britânicos que pretendiam protestar na Suíça foram
barrados na fronteira por que carregavam o livro de Naomi,
considerado "literatura subversiva".
Dona de uma coluna semanal em um jornal canadense,
a jornalista esteve em Porto Alegre participando do Fórum
Social Mundial, que seria tema de um longo ensaio para a revista
The Nation, a maior publicação alternativa de esquerda
dos Estados Unidos. Ao chegar para a entrevista com a Planeta
Na Web, Naomi tinha acabado de conversar com um editor brasileiro
e anunciou em primeira mão que No Logo chegará ao País
ainda este ano.
Planeta na Web - Sobre o que trata o livro No Logo?
Naomi Klein - O livro fala sobre empresas que vendem o
significado das marcas, e a maneira como essa idéia, que parece
ser simples, tornou-se tão poderosa. Quando uma empresa define
que vende significado, ao invés de produtos, há uma frenética
busca por novas maneiras de projetar essa marca na cultura.
Há cada vez mais marketing em espaços públicos, mas também
existe uma espécie de fome que surge com essa cultura. Eventos
culturais e esportivos que eram públicos agora são patrocinados,
e não existe jeito de fugir do logotipo dos patrocinadores.
O melhor exemplo disso é o patrocínio da Nike para a seleção
de futebol brasileira. A Nike não quer patrocinar a seleção
- ela quer se fundir, se integrar, ficar no mesmo nível da
seleção. O que temos não são empresas patrocinando a nossa
cultura. Temos cultura patrocinada. Música, esportes, todos
os tipos de cultura agora existem dentro dessa infra-estrutura
corporativa.
PnW - O que isso acarreta para nossa sociedade?
Naomi - Nós perdemos grande parte das nossas idéias e
nossos espaços para corporações. Há uma nova geração de jovens
que cresceu totalmente sem nenhum senso de esfera pública,
de idéias e espaços não-comerciais. No entanto, são estas
as pessoas que estão lutando para ter isso de volta, lutando
pelo espaço público e comunitário. Esse tipo de marketing
de significados é muito caro, e por causa disso as empresas
estão vendendo suas fábricas e bases industriais para financiá-lo.
A produção perdeu importância, e é por isso que vemos bases
industriais que exploram mão-de-obra barata no terceiro mundo.
O marketing afeta tanto a esfera pública, como os contratos
trabalhistas. Meu livro descreve a maneira como essas duas
coisas andam juntas e como a resistência a isso surgiu.
PnW - Que tipo de pesquisa você fez para escrever No
Logo? Naomi - Em meu trabalho como jornalista, já
havia observado a presença de marketing em espaços onde antes
não se via, como escolas. Estava envolvida com a esquerda
do Canadá, e comecei a perceber uma diferença de tática, particularmente
entre os jovens, a nova geração de ativistas que estava entrando
na política. Era diferente, mesmo para a minha geração, cinco
anos mais velha do que eles. Nós ainda pensávamos que a maneira
de mudar as coisas era fazendo lobby no governo, indo atrás
das políticas que se queria. Mas eles cresceram com a idéia
de que as corporações multinacionais eram mais poderosas do
que os próprios governos, e criaram uma nova forma de ativismo.
Eles foram direto às corporações, fazendo um desvio em volta
de seus governos para ir atrás das companhias que os financiavam,
das instituições internacionais como a OMC (Organização Mundial
de Comércio), o Nafta, e tentar bloquear diretamente essas
organizações. Era um novo tipo de ativismo que estava surgindo
em pequenas ações pulverizadas, em campanhas contra a Monsanto,
Shell, Nike. Comecei a perceber isso há seis anos, e me dei
conta que era o início de um novo movimento.
PnW - Quais são as principais características desse
movimento?
Naomi - A característica dominante é a descentralização
e a diversidade. O movimento funciona como uma rede, muito
como a Internet. Entre os ativistas jovens há uma suspeita
e um grande cansaço da velha maneira de fazer política, que
era muito hierárquica, com seus líderes no topo e você tendo
que segui-los, assinar manifestos. As pessoas eram apenas
trunfos auxiliares dos líderes do movimento. É difícil inclusive
dizer que é um crescimento do anarquismo, como alguns costumam
pontuar, pois o movimento é muito diverso para ser uma coisa
só. O que eu poderia dizer é que há um grande ressurgimento
do ativismo anarquista e de idéias sobre descentralização
do poder. Isso não significa que todo mundo é anarquista.
Mas, ao menos nos protestos de rua em Seattle, em Washington
e Praga, as ações diretas são todas organizadas de acordo
com princípios anarquistas que foram usados na Guerra Civil
Espanhola, os chamados "grupos de afinidade", que são autônomos
ainda que conectados.
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entrevista continua na próxima página>>
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