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Reconectando: A Grande Teia

publicado em 02/02/2001
 

Um outro mundo é possível

De 25 a 30 de janeiro, Porto Alegre se tornou a capital de debates e conferências que aglutinaram intelectuais, ONGs, movimentos sociais, sindicalistas, camponeses e políticos de 121 países reunidos no Fórum Social Mundial. Rara oportunidade de encontrar personalidades que desenvolvem trabalhos e propostas alternativas, voltadas para a auto-sustentabilidade, solidariedade, crítica ao materialismo e ao individualismo. Planeta na Web foi ao FSM e traz aqui alguns temas levantados pelo encontro.


Debora F.Lerrer

A ação do MST na plantação de soja transgênica da Monsanto marcou os primeiros dias do Fórum, que primou pela diversidade de idéias, assuntos e táticas. A variedade alimentou a discussão sobre a construção de uma cidadania global.

Inspirados pela idéia de que um novo mundo é possível, 4.000 delegados e milhares de participantes não-credenciados lotaram saguões, salas, teatros e auditórios da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Porto Alegre para ouvir, participar de oficinas ou simplesmente trocar idéias no Fórum Social Mundial. O Fórum reuniu em um mesmo espaço representantes de sindicatos e partidos tradicionais, personagens históricos, como Ahmed Bem Bella, 84 anos, ex-presidente e líder da independência da Argélia, membros de governos, como Guy Hascoet, ministro da Economia Solidária da França, intelectuais, como Eduardo Galeano, e uma miríade de representantes de ONGs e movimentos sociais, entre os quais destacaram-se os chapéus e lenços verdes dos 40 representantes da Via Campesina, entidade que congrega movimentos camponeses da América, Ásia e Europa.

Marcado para ocorrer nos mesmos dias em que Davos, na Suíça, sediava o Fórum Econômico Mundial, o evento na capital gaúcha ficou conhecido como "Anti-Davos". Seu objetivo era demonstrar que não existe somente a globalização econômica, mas também a globalização das alternativas e caminhos para diminuir as disparidades econômicas internacionais, para proteger o meio ambiente, respeitar as minorias, culturas e direitos já consagrados internacionalmente.

Entre tantas propostas concretas e efetivas já postas em prática e que foram apresentadas nas 408 oficinas, o Fórum consagrou-se por reunir temas até então tratados setorialmente, como a ecologia e a soberania alimentar, o comércio internacional e a luta contra o trabalho infantil, discriminação racial e direitos sexuais. Tanta diversidade de assuntos alimentou a discussão sobre o que seria uma "cidadania global".

O mexicano Vento Elétrico Blanco foi a pé de Ushuaia, na Argentina, até Porto Alegre. Ele está fazendo a Caminhada pela Paz e divulgando o calendário das 13 Luas em todo o continente. Segundo ele, as guerras são provocadas pelo calendário gregoriano.

A feminista peruana Virgínia Vargas acredita que ainda não dá para definir o que é esta tal cidadania global, pois ela está em processo de construção. "Não está definida nem terminada, e justamente por isso é enriquecedor". Para ela, cidadania global é o conjunto dos direitos que estão sendo construídos em nível planetário, e que tanto os índios da selva do Peru como os habitantes de Nova York terão - em qualquer parte da Terra. Depois de dez anos vivendo sob a ditadura do presidente Alberto Fujimori, Virgínia sentiu na pele o que é ser reconhecida como cidadã fora de seu país. "Era a única coisa a que podíamos recorrer, por isso eu dou muito mais valor hoje a ser reconhecida como cidadã fora de meu país, onde eu não tinha nenhum reconhecimento". Para ela, a cidadania global inclui a luta para que as recomendações feitas pelas Cúpulas e Conferências mundiais se convertam em leis. "São direitos universais, formas de ação e de defesa dos direitos das pessoas, que se transmitem em nível global, mas que devem estar sustentadas por redações de direitos em nível nacional".

O sociólogo português Boaventura de Souza Santos alerta que essa cidadania global só pode ser construída se for com "idéias gerais construídas a partir de baixo" e aceitas consensualmente. "Não posso impor a minha concessão de universalismo aos outros. A concessão universalista do Ocidente só é universalista para nós. Em um debate na Índia, eles olham para nossas idéias universais e acham que aquilo é um ocidentalismo sem remédio".

Para ele, mesmo os participantes do Fórum podem estar convencidos de que os conhecimentos e lutas progressistas ocidentais são suficientes para produzir emancipação social. "Tenho aprendido muito na África, Ásia e aqui na América Latina. As intenções são as melhores, mas até o inferno pode estar cheio de boas intenções. Devemos ter muito cuidado com isso".

No caso dos ocidentais, sobretudo, Boaventura aconselha
uma grande humildade. "As idéias ocidentais foram uma forma de pilhar o mundo. Isso já vem desde o século XV e XVI e continua hoje sob outras formas, algumas ainda mais virulentas porque estão apoiadas em tecnologias muito mais poderosas".




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