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Um outro mundo é possível
De
25 a 30 de janeiro, Porto Alegre se tornou a capital de debates
e conferências que aglutinaram intelectuais, ONGs, movimentos
sociais, sindicalistas, camponeses e políticos de 121 países
reunidos no Fórum Social Mundial. Rara oportunidade de encontrar
personalidades que desenvolvem trabalhos e propostas alternativas,
voltadas para a auto-sustentabilidade, solidariedade, crítica
ao materialismo e ao individualismo. Planeta na Web foi ao
FSM e traz aqui alguns temas levantados pelo encontro.
Debora
F.Lerrer
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A
ação do MST na plantação
de soja transgênica da Monsanto marcou os primeiros
dias do Fórum, que primou pela diversidade de
idéias, assuntos e táticas. A variedade
alimentou a discussão sobre a construção
de uma cidadania global.
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Inspirados
pela idéia de que um novo mundo é possível, 4.000 delegados
e milhares de participantes não-credenciados lotaram saguões,
salas, teatros e auditórios da PUC (Pontifícia Universidade
Católica) de Porto Alegre para ouvir, participar de oficinas
ou simplesmente trocar idéias no Fórum Social Mundial. O Fórum
reuniu em um mesmo espaço representantes de sindicatos e partidos
tradicionais, personagens históricos, como Ahmed Bem Bella,
84 anos, ex-presidente e líder da independência da Argélia,
membros de governos, como Guy Hascoet, ministro da Economia
Solidária da França, intelectuais, como Eduardo Galeano, e
uma miríade de representantes de ONGs e movimentos sociais,
entre os quais destacaram-se os chapéus e lenços verdes dos
40 representantes da Via Campesina, entidade que congrega
movimentos camponeses da América, Ásia e Europa.
Marcado para ocorrer nos mesmos dias em que Davos,
na Suíça, sediava o Fórum Econômico Mundial, o evento na capital
gaúcha ficou conhecido como "Anti-Davos". Seu objetivo era
demonstrar que não existe somente a globalização econômica,
mas também a globalização das alternativas e caminhos para
diminuir as disparidades econômicas internacionais, para proteger
o meio ambiente, respeitar as minorias, culturas e direitos
já consagrados internacionalmente.
Entre tantas propostas concretas e efetivas já postas
em prática e que foram apresentadas nas 408 oficinas, o Fórum
consagrou-se por reunir temas até então tratados setorialmente,
como a ecologia e a soberania alimentar, o comércio internacional
e a luta contra o trabalho infantil, discriminação racial
e direitos sexuais. Tanta diversidade de assuntos alimentou
a discussão sobre o que seria uma "cidadania global".
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O mexicano Vento Elétrico Blanco foi a pé de
Ushuaia, na Argentina, até Porto Alegre. Ele
está fazendo a Caminhada pela Paz e divulgando o calendário
das 13 Luas em todo o continente. Segundo ele, as guerras
são provocadas pelo calendário gregoriano.
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A
feminista peruana Virgínia Vargas acredita que ainda não
dá para definir o que é esta tal cidadania global, pois ela
está em processo de construção. "Não está definida nem terminada,
e justamente por isso é enriquecedor". Para ela, cidadania
global é o conjunto dos direitos que estão sendo construídos
em nível planetário, e que tanto os índios da selva
do Peru como os habitantes de Nova York terão - em qualquer
parte da Terra. Depois de dez anos vivendo sob a ditadura
do presidente Alberto Fujimori, Virgínia sentiu na pele o
que é ser reconhecida como cidadã fora de seu país. "Era a
única coisa a que podíamos recorrer, por isso eu dou muito
mais valor hoje a ser reconhecida como cidadã fora de meu
país, onde eu não tinha nenhum reconhecimento". Para ela,
a cidadania global inclui a luta para que as recomendações
feitas pelas Cúpulas e Conferências mundiais se convertam
em leis. "São direitos universais, formas de ação e de defesa
dos direitos das pessoas, que se transmitem em nível global,
mas que devem estar sustentadas por redações de direitos em
nível nacional".
O sociólogo português Boaventura de Souza Santos alerta
que essa cidadania global só pode ser construída se for com
"idéias gerais construídas a partir de baixo" e aceitas consensualmente.
"Não posso impor a minha concessão de universalismo aos outros.
A concessão universalista do Ocidente só é universalista para
nós. Em um debate na Índia, eles olham para nossas idéias
universais e acham que aquilo é um ocidentalismo sem remédio".
Para ele, mesmo os participantes do Fórum podem estar
convencidos de que os conhecimentos e lutas progressistas
ocidentais são suficientes para produzir emancipação social.
"Tenho aprendido muito na África, Ásia e aqui na América Latina.
As intenções são as melhores, mas até o inferno pode estar
cheio de boas intenções. Devemos ter muito cuidado com isso".
No caso dos ocidentais, sobretudo, Boaventura aconselha
uma
grande humildade. "As idéias ocidentais foram uma forma de
pilhar o mundo. Isso já vem desde o século XV e XVI e continua
hoje sob outras formas, algumas ainda mais virulentas porque
estão apoiadas em tecnologias muito mais poderosas".
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