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Reconectando: A Grande Teia

publicado em 04/01/2001
 

Desmontando o McDonald's

Para Bové, a rede McDonalds uniformiza a cultura

PnW - Vocês fazem ações desse tipo na Europa?
Bové
- Na Europa fizemos muitas ações em 1998 e 1999. Em junho de 1999, destruímos os experimentos de arroz transgênicos. Como as multinacionais estão sentindo que há problemas com a soja e o milho, eles estão buscando outras variedades, particularmente o arroz, que é a maior produção mundial de cereal e é comido pela maior parte da população mundial. O arroz transgênico será um mercado muito importante.


PnW - Há pesquisadores que dizem que os transgênicos vão acabar com a fome no mundo. O que você acha?
Bové
- Isto é uma vigarice completa. O problema da fome no mundo é a distribuição, repartição da terra, acesso à terra para os camponeses. A Europa e os Estados Unidos subvencionam cereais e carne para exportar para os países do Sul, a um preço inferior ao deles, e essas exportações estão acarretando a destruição de todas as agriculturas, tanto na África como na América do Sul. A OMC permite às grandes multinacionais saquearem o mercado de alimentos do mundo. O nosso combate é conduzido localmente contra os grandes proprietários e os Estados que favorecem a agricultura industrial e, ao mesmo tempo, em nível internacional, contra as instituições como a OMC, que favorecem esse mercado de dumping que permite que produtos sejam vendidos em um país abaixo do custo de produção dos camponeses. Os agricultores são destruídos quando se destrói a possibilidade de eles nutrirem sua própria população com sua agricultura. O objetivo da agricultura é alimentar a população de onde ela está. Hoje eles querem impor a lei do comércio à agricultura, mas há menos de 10% de produtos agrícolas que circulam em volta da Terra. 90% dos produtos agrícolas são consumidos onde eles são produzidos.

PnW - O que a destruição de uma loja do McDonalds tem a ver com a luta contra a OMC?
Bové
- A ação que nós fizemos em 2 de outubro de 1999 foi a desmontagem do McDonalds. O prédio ainda estava em construção. Decidimos fazer essa ação para protestar contra a decisão da OMC que tinha acabado de condenar a Europa porque ela se recusava a consumir a carne com hormônios vinda dos Estados Unidos. Depois de 1999, ficou proibido utilizar hormônio nas criações na Europa. Nós protestávamos contra isso e contra a OMC que, ao mesmo tempo em que condenou a Europa, deu autorização para que os EUA sobretaxassem, a 100%, 60 produtos europeus, entre eles o roquefort, queijo que é fabricado somente na nossa região da França. Existem três mil produtores desse queijo que não pode ser feito em nenhum outro lugar do mundo.


PnW - Não existia alguma outra alternativa, além de "desmontar" o McDonalds?
Bové
- Não havia nenhum outro recurso jurídico. Fomos ao ministro da Agricultura, ao Primeiro-Ministro e por todo lado nos disseram que nós não podíamos nos defender diante dessa decisão da OMC. Para alertar a opinião pública, decidimos fazer essa ação simbólica contra o McDonalds, símbolo da agricultura industrial e padronização alimentar que uniformiza a cultura e leva uma comida idêntica para todo o mundo. É a carne recomposta, as grandes criações que são feitas na América do Sul e que destroem as florestas para produzí-la. Como é a primeira multinacional de alimentação do mundo, nos parecia que atacar esse símbolo poderia fazer com que o movimento fosse compreendido por muita gente, e foi o que aconteceu. Essa manifestação deu um clique na opinião, porque as pessoas perceberam que o objetivo da OMC não é simplesmente organizar o mercado, mas também obrigar as pessoas em sua vida cotidiana a consumir o que é de interesse do mercado, mesmo que este interesse seja contrário à saúde pública.

 


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