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Desmontando o McDonald's
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| Para
Bové, a rede McDonalds uniformiza a cultura |
PnW - Vocês fazem ações desse tipo na Europa?
Bové - Na Europa fizemos muitas ações em 1998 e 1999.
Em junho de 1999, destruímos os experimentos de arroz transgênicos.
Como as multinacionais estão sentindo que há problemas com
a soja e o milho, eles estão buscando outras variedades, particularmente
o arroz, que é a maior produção mundial de cereal e é comido
pela maior parte da população mundial. O arroz transgênico
será um mercado muito importante.
PnW - Há pesquisadores que dizem que os transgênicos
vão acabar com a fome no mundo. O que você acha?
Bové - Isto é uma vigarice completa. O problema da fome
no mundo é a distribuição, repartição da terra, acesso à terra
para os camponeses. A Europa e os Estados Unidos subvencionam
cereais e carne para exportar para os países do Sul, a um
preço inferior ao deles, e essas exportações estão acarretando
a destruição de todas as agriculturas, tanto na África como
na América do Sul. A OMC permite às grandes multinacionais
saquearem o mercado de alimentos do mundo. O nosso combate
é conduzido localmente contra os grandes proprietários e os
Estados que favorecem a agricultura industrial e, ao mesmo
tempo, em nível internacional, contra as instituições como
a OMC, que favorecem esse mercado de dumping que permite que
produtos sejam vendidos em um país abaixo do custo de produção
dos camponeses. Os agricultores são destruídos quando se destrói
a possibilidade de eles nutrirem sua própria população com
sua agricultura. O objetivo da agricultura é alimentar a população
de onde ela está. Hoje eles querem impor a lei do comércio
à agricultura, mas há menos de 10% de produtos agrícolas que
circulam em volta da Terra. 90% dos produtos agrícolas são
consumidos onde eles são produzidos.
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PnW
- O que a destruição de uma loja do McDonalds tem a ver
com a luta contra a OMC?
Bové - A ação que nós fizemos em 2 de outubro de 1999
foi a desmontagem do McDonalds. O prédio ainda estava em construção.
Decidimos fazer essa ação para protestar contra a decisão
da OMC que tinha acabado de condenar a Europa porque ela se
recusava a consumir a carne com hormônios vinda dos Estados
Unidos. Depois de 1999, ficou proibido utilizar hormônio nas
criações na Europa. Nós protestávamos contra isso e contra
a OMC que, ao mesmo tempo em que condenou a Europa, deu autorização
para que os EUA sobretaxassem, a 100%, 60 produtos europeus,
entre eles o roquefort, queijo que é fabricado somente na
nossa região da França. Existem três mil produtores desse
queijo que não pode ser feito em nenhum outro lugar do mundo.
PnW - Não existia alguma outra alternativa, além de
"desmontar" o McDonalds?
Bové - Não havia nenhum outro recurso jurídico. Fomos
ao ministro da Agricultura, ao Primeiro-Ministro e por todo
lado nos disseram que nós não podíamos nos defender diante
dessa decisão da OMC. Para alertar a opinião pública, decidimos
fazer essa ação simbólica contra o McDonalds, símbolo da agricultura
industrial e padronização alimentar que uniformiza a cultura
e leva uma comida idêntica para todo o mundo. É a carne recomposta,
as grandes criações que são feitas na América do Sul e que
destroem as florestas para produzí-la. Como é a primeira multinacional
de alimentação do mundo, nos parecia que atacar esse símbolo
poderia fazer com que o movimento fosse compreendido por muita
gente, e foi o que aconteceu. Essa manifestação deu um clique
na opinião, porque as pessoas perceberam que o objetivo da
OMC não é simplesmente organizar o mercado, mas também obrigar
as pessoas em sua vida cotidiana a consumir o que é de interesse
do mercado, mesmo que este interesse seja contrário à saúde
pública.
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