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Reconectando: A Grande Teia

publicado em 31/01/2001
 

Um Asterix contra os transgênicos

José Bové, o ativista francês que o governo FHC quis expulsar do Brasil, fala à Planeta na Web.

Débora F. Lerrer

José Bové: resistência à agricultura industrial

O ativista francês José Bové foi a grande estrela do Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre. Em 26 de janeiro, segundo dia do encontro, Bové trocou a capital gaúcha por Não-Me-Toque (a 300 km de Porto Alegre) para participar da destruição de dois hectares de soja de uma plantação experimental de transgênicos da empresa Monsanto. A ação, promovida pelo Movimento Sem Terra (MST), quase provocou a expulsão do agricultor francês do País, pedida pelo governo. Bové só não foi expulso graças a um hábeas-corpus expedido pela Justiça.

Com seus grandes bigodes à la Asterix, Bové ficou conhecido no mundo inteiro depois de liderar, em 1999, a destruição de uma loja do McDonald's na França, em protesto contra a sobre-taxação de produtos franceses pela Organização Mundial de Comércio (OMC). Fundador da Confederação Camponesa, que representa 60 mil agricultores, Bové encarna hoje as demandas da Via Campesina, organização que congrega pequenos agricultores de cerca de 40 países da América, Ásia e Europa e que tem como uma de suas principais bandeiras a luta contra os organismos geneticamente modificados, popularmente conhecidos como transgênicos. Foi durante essa ação na estação experimental da Monsanto que José Bové concedeu essa entrevista exclusiva para a Planeta na Web.

Planeta na Web - Por que vocês são contra os transgênicos? José Bové - O problema mais grave dos transgênicos é que, com essa tecnologia, quatro ou cinco grandes multinacionais podem controlar o conjunto das sementes de toda a Terra. Hoje a Monsanto, a Novartis, a Du Pont e outras estão comprando todas as sementeiras (fabricantes de semente) do mundo, e investindo no patenteamento das plantas mais produzidas no planeta. O objetivo deles é impedir os agricultores de semearem seus próprios grãos, obrigando-os a comprar todos os anos as sementes das empresas. Eles querem aumentar o lucro sobre as sementes mais importantes e controlar a alimentação, do campo até o prato. Nosso combate contra os organismos geneticamente modificados é para barrar o controle das multinacionais sobre a agricultura. Nós não queremos que daqui a alguns anos as multinacionais decidam tudo: o que as pessoas devam comer, o que os camponeses devam plantar, ao mesmo tempo em que controlarão o conjunto da biodiversidade do planeta.

PnW - Qual é a situação dos transgênicos na Europa?
Bové
- Desde que o combate contra os transgênicos começou na Europa, há uma moratória sobre a utilização de sementes. Ou seja, esse processo está bloqueado. Os camponeses recusam sementes transgênicas e cerca de 90% de consumidores europeus também se recusam a consumir transgênicos. Em menos de três anos, as firmas transnacionais como a Monsanto e a Novartis tiveram um fracasso completo. Hoje em dia estamos tentando impedir a entrada na Europa de navios que carregam soja transgênica. Além dessas ações, mais e mais cooperativas, mais e mais produtores de animais exigem a garantia de que os alimentos não contenham transgênicos, tanto no caso do milho, como da soja. Há uma grande batalha hoje para se ter certificação sobre os alimentos que são dados aos animais.


PnW - O plantio de transgênicos não é autorizado no Brasil. Mas no Rio Grande do Sul há agricultores que os plantam, como indicam exames feitos por importadoras, que concluíram que 30% da soja importada desse Estado é transgênica. A que você atribui esse fato?
Bové
- O Rio Grande do Sul faz fronteira com a Argentina, e há um tráfico de sementes que é favorecido pela Monsanto. Ao mesmo tempo, há a vontade de produzir um sistema irreversível. Ou seja, a Monsanto empurra os agricultores, os grandes proprietários, a introduzir os transgênicos, para que eles poluam toda a produção, pois os agricultores que estão ao lado dos campos transgênicos podem ter seu campo poluído, mesmo se não plantaram transgênicos. A vontade da Monsanto e mesmo do governo federal é debilitar a luta no Rio Grande do Sul. É por isso que a ocupação feita aqui é muito importante e deve se tornar o símbolo da resistência dos camponeses contra os transgênicos.

 

...a entrevista continua na próxima página>>


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