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Um Asterix contra os transgênicos
José
Bové, o ativista francês que o governo FHC quis expulsar do
Brasil, fala à Planeta na Web.
Débora
F. Lerrer
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| José
Bové: resistência à agricultura
industrial |
O
ativista francês José Bové foi a grande estrela do Fórum
Social Mundial, realizado em Porto Alegre. Em 26 de janeiro,
segundo dia do encontro, Bové trocou a capital gaúcha por
Não-Me-Toque (a 300 km de Porto Alegre) para participar da
destruição de dois hectares de soja de uma plantação experimental
de transgênicos da empresa Monsanto. A ação, promovida pelo
Movimento Sem Terra (MST), quase provocou a expulsão do agricultor
francês do País, pedida pelo governo. Bové só não foi expulso
graças a um hábeas-corpus expedido pela Justiça.
Com seus grandes bigodes à la Asterix, Bové ficou conhecido
no mundo inteiro depois de liderar, em 1999, a destruição
de uma loja do McDonald's na França, em protesto contra a
sobre-taxação de produtos franceses pela Organização Mundial
de Comércio (OMC). Fundador da Confederação Camponesa, que
representa 60 mil agricultores, Bové encarna hoje as demandas
da Via Campesina, organização que congrega pequenos agricultores
de cerca de 40 países da América, Ásia e Europa e que tem
como uma de suas principais bandeiras a luta contra os organismos
geneticamente modificados, popularmente conhecidos como transgênicos.
Foi durante essa ação na estação experimental da Monsanto
que José Bové concedeu essa entrevista exclusiva para a Planeta
na Web.
Planeta na Web - Por que vocês são contra os transgênicos?
José Bové - O problema mais grave dos transgênicos é que,
com essa tecnologia, quatro ou cinco grandes multinacionais
podem controlar o conjunto das sementes de toda a Terra. Hoje
a Monsanto, a Novartis, a Du Pont e outras estão comprando
todas as sementeiras (fabricantes de semente) do mundo, e
investindo no patenteamento das plantas mais produzidas no
planeta. O objetivo deles é impedir os agricultores de semearem
seus próprios grãos, obrigando-os a comprar todos os anos
as sementes das empresas. Eles querem aumentar o lucro sobre
as sementes mais importantes e controlar a alimentação, do
campo até o prato. Nosso combate contra os organismos geneticamente
modificados é para barrar o controle das multinacionais sobre
a agricultura. Nós não queremos que daqui a alguns anos as
multinacionais decidam tudo: o que as pessoas devam comer,
o que os camponeses devam plantar, ao mesmo tempo em que controlarão
o conjunto da biodiversidade do planeta.
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PnW
- Qual é a situação dos transgênicos na Europa?
Bové - Desde que o combate contra os transgênicos começou
na Europa, há uma moratória sobre a utilização de sementes.
Ou seja, esse processo está bloqueado. Os camponeses recusam
sementes transgênicas e cerca de 90% de consumidores europeus
também se recusam a consumir transgênicos. Em menos de três
anos, as firmas transnacionais como a Monsanto e a Novartis
tiveram um fracasso completo. Hoje em dia estamos tentando
impedir a entrada na Europa de navios que carregam soja transgênica.
Além dessas ações, mais e mais cooperativas, mais e mais produtores
de animais exigem a garantia de que os alimentos não contenham
transgênicos, tanto no caso do milho, como da soja. Há uma
grande batalha hoje para se ter certificação sobre os alimentos
que são dados aos animais.
PnW - O plantio de transgênicos não é autorizado no Brasil.
Mas no Rio Grande do Sul há agricultores que os plantam, como
indicam exames feitos por importadoras, que concluíram que
30% da soja importada desse Estado é transgênica. A que você
atribui esse fato?
Bové - O Rio Grande do Sul faz fronteira com a Argentina,
e há um tráfico de sementes que é favorecido pela Monsanto.
Ao mesmo tempo, há a vontade de produzir um sistema irreversível.
Ou seja, a Monsanto empurra os agricultores, os grandes proprietários,
a introduzir os transgênicos, para que eles poluam toda a
produção, pois os agricultores que estão ao lado dos campos
transgênicos podem ter seu campo poluído, mesmo se não plantaram
transgênicos. A vontade da Monsanto e mesmo do governo federal
é debilitar a luta no Rio Grande do Sul. É por isso que a
ocupação feita aqui é muito importante e deve se tornar o
símbolo da resistência dos camponeses contra os transgênicos.
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entrevista continua na próxima página>>
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