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A
ética para ser mais bruxa
Com o trabalho divulgado unicamente pelo antigo método
do boca-a-boca, Marina contabiliza o atendimento a cerca de
600 clientes por ano, cuja maioria, pasmem, é de homens. "Eles
me procuram porque eu não conto abobrinha". Existem clientes
que vão até ela perguntar sobre o boom da bolsa, se o mundo
vai acabar, sobre a política - mas ela não gosta de fazer
previsões para pessoas públicas que não a procuraram. "Eu
não sair fazendo previsões sobre personalidades importantes
porque elas não me pediram e eu não me sinto no direito de
fazer isso".
Muitos de seus clientes, entretanto, acham estranho
que ela, "que fala tanto", cobre "pouco": o equivalente à
hora-aula que ela recebe como professora universitária (em
torno de 80, 100 reais). Para ela, é uma questão de princípios:
"A gente não pode tirar disso um ganho maior do que o de qualquer
outra profissão. Pode ser que eu até tivesse condições, mas
eu não tiro. Eu só quero ser mais bruxa". Agora, de graça
ela não faz. "Pega carma. Cria um vínculo cármico com a pessoa
e eu não tenho essa dívida", justifica. "A pessoa me procura
porque sou uma profissional e tem que me respeitar por isso".
Já no caso de quem não pode pagar o seu preço, ela diz que
procura cobrar na medida da pessoa. "Se a mulher vem aqui
com o leite das crianças eu falo para ela me pagar metade",
diz.
Ela acredita que o fato de não cobrar fortunas, não
criar dependência com seus clientes e nunca mentir a torna
cada vez mais vidente. "Deus me livre de deixar uma pessoa
dependente de mim para ganhar dinheiro. Eu não preciso disso".
É por causa dessa atitude, ela sente, que de uns seis anos
para cá se iniciaram os contatos com pessoas que já morreram.
"Antes isso não acontecia. Fui criando mais confiança cósmica.
A casa foi ficando mais iluminada".
Para ela, o problema de quem trabalha com vidência
não é cobrar, e sim manipular e influir subliminarmente sobre
seus clientes. "O fato de alguém procurar uma vidente, uma
empática, já transtorna a cabeça das pessoas e pode fazer
de um gabinete de atendimento uma grande oficina de emoções,
tornando o cliente dependente de você", diz ela. "Você pode
criar uma realidade virtual para ele, dizendo, por exemplo,
que a tal amante um dia virá. O subliminar que existe em cada
coisa que um bruxo ou um mago fala é muito grande. A pessoa
está muito pronta para isso". Por esta razão ela procura adotar
uma postura neutra, um tom monocórdio e evitar qualquer tipo
de gestualização - para influenciar o menos possível o cliente.
"Eu explico que existem alguns futuros possíveis. Desses futuros
possíveis o indivíduo vai escolher um deles. Um vidente pode
ajudar a escolher, mas não pode escolher por um cliente. Se
ele se empolga, faz gestos, está usando subliminares".
Muitas pessoas ficam descontentes quando ela diz verdades
que incomodam. "Quem não vive disso fala a verdade. Quem vive
só disso não é bom não, porque vai acabar manipulando". Ela
conta que muitas vezes sabe que vai perder o cliente e todos
os outros que ele poderia lhe trazer se ficasse contente com
o que ela dissesse, mas ela simplesmente não consegue mentir.
"O cabelereiro de uma política famosa veio aqui e não gostou,
porque que eu falei que não ia dar pé o caso com a pessoa
que ele queria. Se eu mentisse, teria o dobro de clientes.
A minha inteligência racional diz "mente", mas eu não consigo.
É uma escolha pessoal, uma postura, e isso me dá mais percepção
ainda."
Em casos drásticos, no entanto, ela admite que interfere
- como quando apareceu uma cliente com um revólver para matar
o namorado. "Fiquei duas horas conversando com ela e a dissuadi.
Eu não vou deixar passar pela minha mão uma pessoa tão desequilibrada
que está com uma arma na mão sem deixá-la mais tranqüila".
Ela também costuma dar umas ajudinhas para facilitar
a vida de seus clientes. Por exemplo, dar uma força para arranjar
emprego ou acabar com uma briga entre mãe e filha. Mas ela
frisa que quando não dá, não adianta interferir. "Às vezes
a predisposição dos caminhos do cara não está tão boa. Eu
posso até não dizer que vai ter muita dificuldade, porque
senão ele vai se assustar e programar mal. Então eu faço o
possível para deixá-lo otimista, para que ele não fique mal".
No caso de relacionamentos amorosos, no entanto, ela
só ajuda a esclarecer a cabeça da pessoa que está confusa.
"Nada de torcer destino porque não pode". Ela conta que muita
gente a procura dizendo que outra cartomante disse que seu
amor ia voltar daqui a um ano. "Não se pode pôr um cliente
a viver um amor virtual ou um emprego que um dia vai vir.
Ou você mata a cobra e mostra o pau aqui ou você não faz,
porque isso de dizer que vai acontecer envolve a pessoa em
uma atmosfera de expectativa". Para ela, se o vidente consegue
acalmar, "pôr luz", o atendimento já vale, pois a pessoa fica
mais calma para enfrentar as situações difíceis. "É um socorro.
Ainda que o vidente manipule e seja subliminar, é melhor do
que a pessoa se desesperar".
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