| |
|
Enxergando
além
Basta
você sentar na frente dela que como que do nada Marina Gold
começa a descrever seu estado de espírito, suas preocupações
e possíveis futuros a serem descortinados na sua vida. Professora
de Comunicação e Semiótica, fluente em alemão, inglês e iídiche
(idioma que era falado pelos judeus da Europa Oriental) e
dona de uma editora, Marina é uma vidente peculiar. Não é
muito fã de apetrechos esotéricos, prefere Lacan a Jung, cobra
a mesma hora-aula que recebe como professora universitária
e tem como centro de suas preocupações falar da maneira mais
isenta possível a seus clientes, para evitar a manipulação.
Ainda que perca clientela, garante que faz questão de dizer
a verdade, mesmo que seja doída. "Não dependo disso para viver",
diz ela.
Débora
F. Lerrer
 |
Consultar
a vidente Marina Gold é a princípio uma experiência insólita.
Alta e ruiva, esta senhora de "40 anos e muitos meses" até
pouco tempo atrás dava consultas no meio da sala de seu confortável
apartamento em Higienópolis, tradicional bairro de São Paulo
que virou moda e tem entre seus famosos moradores o presidente
Fernando Henrique. Depois de concluir que seus atendimentos
invadiam "a privacidade da casa", fechou uma parte da peça,
construindo uma saleta - onde, munida somente de papel, caneta
e um copo de água, Marina recita monocordicamente informações
relativas à vida pregressa, às preocupações presentes e às
possibilidades de futuro do cliente com uma acuracidade impressionante.
Nada de incenso, vela ou baralho, pois ela não gosta, acha
"anti-natural".
Acometida de uma espécie de transe, não é incomum
que durante seus atendimentos, entes queridos já mortos de
seus clientes aproveitem a ocasião para fazer contato. Dependendo
do caso e da necessidade, Marina também dá uma ajudinha. Em
poucos segundos, livra o cliente de algum bloqueio emocional
ou cármico ou mesmo de algum perigo. "Enfio a minha cabeça
na coisa, é que nem uma luz que sai, uma água que lava, vem
dentro de mim que nem uma fonte de água e vai lavando a coisa
das pessoas. Todo mundo trabalha com vela, com fogo. Eu trabalho
com água", explica ela.
Certa vez, conta ela, veio a filha de um dos homens
mais ricos do Brasil. Logo que a cliente entrou, Marina pegou
na mão dela e imediatamente percebeu que o pai dela estava
na China. "Fizeram um negócio ruim para ele. Vou tirar. Dá
as duas mãos, vou aproveitar a tua energia para ir até a China
atrás dele", disse para a cliente. "Fui lá, fiz o serviço,
dali a três minutos, voltei. Volto e chamo a moça e ela não
responde. Ficou estática, sonambúlica. Acho que a China era
muito longe", riu ela. Depois de alguns minutos avaliando
a encrenca que tinha se metido se sua rica cliente não voltasse,
a moça despertou perguntando como é que ela sabia que o pai
dela estava na China, pois ninguém mais, fora ela, sabia da
viagem. Marina acha que era exatamente o perigo que o pai
dela corria que a levou a moça consultar-se com ela.
Apesar de colecionar várias pequenas intervenções
de sucesso, em alguns casos, para sua tristeza, não há nada
a fazer e ela não vê nada. Ela conta que no ano passado, na
mesma semana em que havia alertado uma moça de que seu namorado
poderia sofrer um acidente na rua Tutóia, ou na Av. Bandeirantes,
em São Paulo, do qual, avisado, ele se safou, Marina despediu-se
de um grande amigo, "uma pessoa muito querida e brilhante",
que ia fazer uma viagem de carro. "Eu disse a ele. Vai com
Deus, como eu digo para todo mundo, e ele morreu na viagem.
Era a hora dele. Não era comigo. E o namorado da moça era",
recorda.
Convivendo com esse dom desde pequena, Marina nunca
ficou assustada ou preocupada com a habilidade de saber tanto
da vida de pessoas que nem sequer tinha visto antes. Depois
de tomar consciência de que conseguia ver bem além do que
as outras pessoas, começou a trabalhar em festas, de forma
comunitária, meio de brincadeira. Só aos 18 anos iniciou atendimentos
individuais, mas ainda sem uma linha definida de trabalho.
"Uma coisa é ter percepção, outra é saber trabalhá-la. Há
um abismo no meio."
Leia
mais:
Enxergando
além
Mais
empática do que premonitória
A
ética para ser mais bruxa
|