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O
santo ecumênico
Divisor
de águas no espiritismo brasileiro, Chico Xavier é cultuado
por pessoas de inúmeras religiões. A casa do médium - em Uberaba,
Minas Gerais - se transformou em uma espécie de Meca, ou talvez
uma nova Aparecida do Norte. Os fiéis são capazes de enfrentar
longas viagens e intermináveis horas de espera na fila - para
simplesmente ver, ouvir e cumprimentar este que é o médium
mais prolífico de todos os tempos e que ainda vivo foi canonizado
pela vontade popular.
Débora
F. Lerrer
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"Você
conta para pessoas de várias religiões que vem aqui ver
o Chico Xavier, e todas abrem um sorriso", diz Rita Amaral,
33 anos, psicóloga carioca que chegou às 14 horas na fila
que todo o santo sábado cerca o Centro Espírita da Prece,
em Uberaba (MG), para ver o célebre médium brasileiro. Espírita,
Rita esperava ter a oportunidade de ver, apertar a mão e,
quem sabe, captar "as energias positivas" que emanam de Chico
Xavier na sessão que se iniciaria por volta das 21 horas.
Seu namorado, o relações-públicas Marco Antônio Marinho, 32
anos, sorridente acompanhava a maratona, fazendo a ressalva
de que era católico. Mais tarde, graças "à sua luz", garantia
a prima, a policial Elaine Guimarães, 45, Marco Antônio foi
convidado a compor a mesa com Chico e outros médiuns durante
a realização dos trabalhos.
Atrás deles na fila estava Carlos Eduardo da Silva,
21, programador e estudante universitário que encarou 20 horas
de estrada, desde Florianópolis, para ver Chico pela segunda
vez. "Venho agradecer a luz e a sabedoria que os livros que
ele psicografou me deram, e o que ele representa na edificação
e na consolidação do espiritismo em nosso país", explicou
ele. Em sua primeira visita, Carlos Eduardo encontrou uma
freira na fila, confirmando o que para ele é líquido e certo.
"Chico Xavier é um mensageiro de Jesus na Terra. Ele é um
missionário que veio aliviar as dores de muita gente e mostrar
o verdadeiro caminho que conduz a Jesus. O caminho do amor,
da verdade, da fraternidade", diz ele.
Um grupo que encheu um ônibus vindo do Recife também
chegara naquele momento. A assistente social Lindalva Leita,
58, enfrentou gloriosamente, junto com suas companheiras,
36 horas de viagem. Para elas, entretanto, valia a pena: "Conhecer
o Chico é desejo de todo mundo, principalmente de quem é espírita
como nós".
A
primeira pessoa na fila, Rosângela Maria Severino Silva,
veio de Sabará (MG), e mostrava seu olhar transpassado de
dor ao explicar porque tinha chegado à porta daquele modesto
centro às 8 horas da manhã, com a perspectiva de enfrentar
uma espera de mais de 12 horas. "A gente busca na psicografia
de Chico Xavier os entes queridos mortos. Minha filha, a Roberta,
de 25 anos, morreu há dois meses, assassinada por um traficante
de drogas que queria violentá-la. Ele não conseguiu. Ela lutou
até o final", disse debulhada em lágrimas e revoltada com
a "justiça dos homens" - que no momento em que sua filha estava
sendo enterrada soltou o acusado mediante o pagamento de nove
mil reais de fiança.

A casa, em Uberaba, onde Chico mora e recebe seus
fiéis |
Ela
não sabia, mas sua espera seria infrutífera. Chico não
tem mais forças para psicografar mensagens individuais. Seu
corpo combalido já não suporta mais. Além dos dois infartos
e de algumas pneumonias, ele sofre de angina, moléstia que
matou sua mãe e que já lhe provocou muito sofrimento. Segundo
um dos biógrafos de Chico, o jornalista Marcel Souto Maior,
já na década de 70 Chico previu que seria o coração o órgão
que o levaria a morte. "Vou morrer por causa do órgão do qual
mais vivi: o coração", teria dito o médium. Segundo o médico
Eurípedes Tahan Vieira, que o trata há mais de 30 anos, o
quadro dele está estacionário, pois Chico é disciplinado.
"Ele toma os remédios no horário certo, controla a alimentação,
nunca abusou de nada, a não ser do trabalho que ele executa
há muitos anos em benefício dos outros".
Fora os males do coração, Chico está praticamente cego
do olho esquerdo, e o direito enxerga apenas com 30% da capacidade.
Por esta razão, durante à noite, quando aparece no Centro
Espírita da Prece, seus auxiliares insistem, sem grande sucesso,
para que as fotos sejam tiradas sem flash. Sua amiga Fernanda
Terra lamenta: "As pessoas não entendem. Mas no decorrer da
semana, por causa do flash, o olhinho dele fica lacrimejando
sem parar. Ele sente muita dor na vista".
Para se locomover, o médium precisa do apoio
de outras pessoas. No sábado, dia 13 de janeiro, ele apareceu
caminhando arqueado e apoiando-se firmemente em seus auxiliares.
De acordo com o médico, essa dificuldade de locomoção é um
efeito de sua idade. Chico está com 90 anos. No dia 2 de abril
- dia em que morreu Allan Kardec, o criador da doutrina espírita
- ele estará completando 91 anos. Apesar da saúde frágil,
Chico mantém-se totalmente lúcido. "Ele tem uma cabeça melhor
do que a minha", diz Fernanda.
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