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Trazidos
para este continente pelos negros escravizados, os deuses
africanos (orixás) estabeleceram uma crescente legião de
seguidores, praticantes das diversas correntes da nossa
religiosidade afro. Traduzir os sinais dessas entidades
na vida dos seres humanos é condição básica para o desenvolvimento
dos seus adeptos.
ROMEO
GRACIANO
Ivone me contava sobre suas ligações com os cultos afro-brasileiros,
durante uma de minhas visitas ocasionais à sua banca de revistas,
localizada nas imediações do centro de São Paulo. De repente,
ela confidenciou: “Freqüentei muito tempo a umbanda, mas só
ajeitei minha vida foi no candomblé.” A revelação espontânea
atiçou meu interesse e Ivone, que costuma dar orientação espiritual
às pessoas, transformou-se num importante indicador dessa
religiosidade de origem africana que atrai seguidores de todas
as camadas sociais.
Entre tiradas do curioso realismo de suas observações, minha
colega começou a contar que vem se empenhando para que um
afeto seu seja iniciado no candomblé, atendendo ao chamado
do seu orixá. “Quando Omolu é o santo-de-cabeça, se a pessoa
não faz o que deve ele vem buscar”, disse-me com certo suspense.
E explicou que uma iniciação dessas, lá no terreiro onde
trabalha, não sai por menos de R$ 7 mil! Depois, sorrindo
com a convicção de que no final tudo se arruma, Ivone foi
justificando as coisas que o iniciante deve providenciar
para a cerimônia, dos trajes aos animais que serão sacrificados.
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| Ritual
iniciático no candomblé: troca energética
com o orixá |
O candomblé é uma religião muito próxima da realidade humana,
na qual sempre existe um jeito para tudo. Intelectuais ou
analfabetos, gente pobre ou rica, heteros ou homossexuais,
negros ou brancos, todo mundo pode ser beneficiado pela
intervenção de um babalorixá ou uma ialorixá (o pai ou a
mãe-de-santo no comando do terreiro).
Outro ponto típico dessa religiosidade é que suas práticas
servem para produzir harmonia e expansão pessoais aqui no
presente, restaurando o equilíbrio de forças entre o orum
(o mundo do além, o sobrenatural) e o ayé (a terra, o mundo
material). Nesse processo destaca-se a presença do orixá
de cada indivíduo, ou seja, da divindade africana à qual
ele está relacionado. Ori é a cabeça da pessoa, uma região
fundamental ao seu intercâmbio energético com a força mística
personificada pelo orixá (o dono do ori), popularmente chamado
de santo-de-cabeça. A energia emanada dos orixás é o axé,
a força vital de que todo ser vivo precisa para manter-se
saudável.
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| Filha-de-santo
saudando a divindade: pedidos de ajuda |
Numa definição sucinta, o candomblé é o culto aos orixás.
Sendo que “candomblé” é o termo genérico atribuído às diversas
correntes derivadas do culto aos deuses africanos, trazido
pelos negros escravizados que começaram a chegar neste continente
no século 16. Suas diferentes raças e origens (jeje, iorubá,
angola, ketu, malê, efam, congo, entre outras) explicam
a multiplicidade de suas manifestações pelo território brasileiro,
o que faz o candomblé da Bahia, por exemplo, ter características
distintas do candomblé praticado no Rio de Janeiro ou em
São Paulo. Ele se mantém fragmentado em várias “nações”,
conservando, entretanto, uma unidade em torno da sua essência
original, que se acredita remontar à pré-história.
Aos orixás são feitos pedidos de proteção, de saúde, de
prosperidade, de ajuda na resolução de problemas existenciais,
seja para conseguir um emprego, recuperar um amor ou favorecer
uma transação comercial, seja para enviar ou desfazer trabalho
de demanda (magia para prejudicar). Tem-se a impressão de
que não há limites à ação dessas forças na vida dos seres
humanos, inclusive porque o candomblé não é regido pela
dicotomia que separa as coisas entre bem e mal. Daí vem
o preconceito e o medo que os leigos sempre alimentaram
contra os macumbeiros, geralmente encarados como indivíduos
sem ética e dispostos a dar qualquer atendimento em troca
de uma boa recompensa.
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