|
A
visita do Dalai Lama ao Brasil
reacende desejos de melhorar a
realidade e põe em evidência esforços
para tornar o ser humano mais
solidário. Afinal, como lembrou
o monge budista, instrução é fundamental,
mas cérebros brilhantes também
causam sofrimento. É preciso educar
os corações
A artista plástica carioca Yvone
Bezerra de Mello, que há 16 anos
trabalha com crianças de rua e
faveladas, conhece bem essas resistências.
"Se dependermos do Primeiro Mundo,
dos nossos governantes e dos ricos
brasileiros, não vamos conseguir
nada. O Primeiro Mundo só se interessa
em faturar e gastar seus armamentos.
Os ricos e os nossos governantes
só mudam se a catástrofe for bater
à sua porta", diz. Ela se queixa
de que é raro um milionário ter
R$ 30 para contribuir quando ela
pede. "O dia em que os pobres
se organizarem o País vai para
frente e é através das crianças
que isso vai acontecer".
| Foto:
LIZ WOOD |
 |
|
A
PROFESSORA Márcia ensina
a seus alunos que legal
é quem encerra a briga
e não quem começa
|
É mais ou menos unânime que a
grande oportunidade de formar
pessoas íntegras é da família.
Uma chance às vezes perdida. "A
família dá tudo o que é bom e
tudo o que é ruim, por isso deveria
ser ajudada. Os pais vivem estressados,
ansiosos, vítimas da violência
social", diz Leonardo Posternak,
pediatra e autor do livro E agora
o que fazer? A difícil arte de
criar os filhos (Editora Best
Seller). "Junto com a educação
de um filho, está a educação de
um cidadão. Temos que unir o que
desejamos para nós ao que fazemos
para os outros". O pediatra, pai
de três filhos adultos, sabe que
educar é um trabalho miúdo no
dia-a-dia, mas fundamental para
o futuro. A escola tem um poder
quase tão grande quanto o da família
de formar cidadãos. A professora
Márcia Vasconcellos Bacellar,
44 anos, supervisora de primeira
a quarta séries no Colégio Anjo
da Guarda, de 1.043 alunos, em
Curitiba, comenta: "Podemos interferir
nos valores da criança na hora
que os conflitos aparecem, de
modo que o que ensinamos tem a
força dos exemplos; não se torna
um discurso." As inevitáveis brigas,
sobretudo na hora do futebol,
são situações instrutivas. "Mostramos
que dar socos não é a melhor solução
para nada, e que há maneiras civilizadas
de resolver discordâncias. Explicamos
que o legal é quem consegue acabar
uma briga, e não quem a começa",
diz Márcia, participante do seminário
do Dalai Lama.
Adesão na universidade Uma onda
de interesse pelo aperfeiçoamento
humano cresce entre universitários.
Criado há 30 anos na Índia pelo
educador e líder espiritual Sathia
Baba, o Programa de Educação em
Valores Humanos é aplicado hoje
em escolas e universidades de
133 países, entre elas a de Harvard,
nos Estados Unidos. No Brasil,
a Fundação Getúlio Vargas, a Unicamp
e a Unicapital são escolas parceiras,
além de colégios de ensino fundamental
e médio. Marilu Martinelli, professora
da Fundação Peirópolis, criada
para divulgar a proposta no Brasil,
explica que ela pretende promover
uma ordem social mais humana.
"Ela propõe uma educação humanista
e espiritual que, sem ser religiosa,
resgata valores humanos de todas
as religiões", explica Marilu.
Em Brasília, oito mil pessoas
ouviram o Dalai Lama em suas palestras
na UnB e na Câmara dos Deputados.
Como os adeptos do budismo tibetano
não passam de três mil no País,
há uma evidente avidez por mensagens
de esperança. Gilberto Gil, um
dos artistas que se apresentaram
em Curitiba, num show em homenagem
ao Dalai Lama, sente que o homem
quer mudar. "Esse desejo nunca
foi tão firme quanto agora", considera.
O deputado Fernando Gabeira acredita
que, para a humanidade evoluir,
as mudanças individuais pregadas
pelo líder budista devem se articular
às coletivas. Por via das dúvidas
é bom garantir as duas.
Colaboraram: Chantal Brissac,
Gisele Vitória, Bruno Weis e Celina
Côrtes (RJ)
|