|
A
visita do Dalai Lama ao Brasil
reacende desejos de melhorar a
realidade e põe em evidência esforços
para tornar o ser humano mais
solidário. Afinal, como lembrou
o monge budista, instrução é fundamental,
mas cérebros brilhantes também
causam sofrimento. É preciso educar
os corações
MARTA GÓES
|
Foto: ANDRÉ DUSEK |
 |
Os olhos brincalhões do Dalai
Lama mantêm a simplicidade no
meio de um cenário grandioso,
de seguranças nervosos e das reverências
à sua passagem. Sentado em posição
de lotus sobre uma cadeira protocolar,
ele balança suavemente o tronco,
enquanto fala ora em inglês carregado,
ora em tibetano, traduzido para
as 1.800 pessoas que lotaram a
Ópera de Arame, em Curitiba, na
segunda-feira 5 e na terça-feira
6 de abril de 1999. Há sete meses,
a argentina Lia Diskin, uma das
fundadoras do Comitê Brasileiro
de Apoio ao Tibet, foi procurá-lo
na Índia, no Mosteiro de Dharamsala,
onde vive. "Expliquei que estamos
passando por uma verdadeira degringolada,
com decadência de valores, corrupção,
crescimento da marginalidade e
da violência", descreve Lia, que
estudou com o Dalai Lama na década
de 80. "Disse a ele que sua vinda
era necessária e urgente", lembra.
Ela exprimiu a aflição de milhões
de pessoas, e não apenas do Brasil
ou de outros países latino-americanos.
Melhorar o homem e o mundo é um
sonho que se repete em todas as
gerações. E que algumas almas
generosas tornam um projeto de
vida. Lia Diskin sabia que estava
batendo na porta certa. Tenzin
Gyatso, 64 anos, o 14º Dalai Lama,
é uma dessas reservas de esperança
e de atuação.
A proposta ambiciosa do monge
budista – melhorar a humanidade
– é no entanto terrena e realista.
E, para divulgar sua mensagem,
o Prêmio Nobel da Paz e militante
da não-violência sabe lutar com
as armas de seu tempo. Acalmou,
com a promessa de nos visitar,
a aflição da discípula latino-americana,
e apresentou-se para um seminário
de dois dias, cujo tema se lia
na imensa faixa à esquerda do
palco: "Extra Hipermercados apresenta:
Valores Humanos e sua prática
na vida cotidiana." Mais realista,
impossível.
|