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  O Cristianismo Esotérico - continuação


Ghirlandaio, O Chamado de Pedro e André/Afresco do séc. 15, Museu do
Jesus com os discípulos: mistérios transmitidos aos que eram purificados e comprometidos com a vida espiritual.
Esse ritual foi parcialmente preservado num documento apócrifo conhecido como Atos de João e, mais tarde, publicado como O Hino de Jesus. No rito do Hino, os discípulos aparecem num círculo, segurando as mãos uns dos outros. Jesus entoava invocações no centro da roda e seus discípulos respondiam “amém”, movendo-se em círculo.

O poder do hino pode ser aquilatado por algumas estrofes: “Glória a ti, Pai! Glória a ti, Verbo! Glória a ti, Graça! Glória a ti, Espírito! Glória a ti, Sagrado um! Glória a tua glória!” E o rito continuava com seu ritmo envolvente, conduzindo os participantes a elevados níveis de consciência. No hino encontram-se declarações de caráter esotérico como: “E agora responde ao meu dançar! Veja a ti mesmo em mim que falo; e vendo o que faço, guarda silêncio sobre os meus mistérios.” E uma afirmação que antecipa as descobertas psicológicas de Jung neste século: “Se tivesses sabido como sofrer, terias o poder de não sofrer. Conhece (pois) o sofrimento, e terás o poder de não sofrer.”

Outro importante ritual oficiado por Jesus é descrito nos evangelhos canônicos de forma tão velada que é geralmente interpretado como um “milagre”. Trata-se da assim chamada ressurreição de Lázaro. Se tomarmos a passagem em João (Jo 11:1-43), veremos que todo o relato assume um caráter curioso devido ao comportamento aparentemente bizarro de Jesus face às notícias sobre Lázaro.

É dito que Lázaro estava “doente” e que suas irmãs, Maria e Marta, mandaram avisar a Jesus sobre o fato. De forma surpreendente, Jesus demonstra um aparente desinteresse pelo estado de saúde de seu discípulo amado e diz: “Essa doença não é mortal, mas para a glória de Deus, para que, por ela, seja glorificado o Filho de Deus.” Depois disso, Jesus permaneceu mais dois dias no local onde se encontrava e só depois decidiu ir para o povoado de Lázaro, na Judéia. Disse então a seus discípulos: “Nosso amigo Lázaro dorme, mas vou despertá-lo.” E os discípulos ficaram confusos, pois lhes parecia que Jesus falara da morte de Lázaro como se fora apenas um sono. Então Jesus falou claramente: “Lázaro morreu. Vamos para junto dele!” Tomé, surpreendentemente, diz aos outros discípulos: “Vamos também nós, para morrermos com ele!” Como explicar o anseio dos discípulos por morrer com Lázaro, a não ser que essa “morte” fosse algo extremamente desejável?

Ao chegar, Jesus encontrou Lázaro já sepultado havia quatro dias. Então, disse Marta a Jesus: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido.” Jesus respondeu: “Teu irmão ressuscitará.” Jesus mandou então que retirassem a pedra do sepulcro e gritou em voz alta: “Lázaro, vem para fora!” O morto saiu, com os pés e mãos enfaixados e com o rosto recoberto com um sudário.

Para aqueles familiarizados com os rituais esotéricos, esse aparente milagre é a forma alegórica de descrever o ofício de um elevado rito de mistério no qual o iniciado entra em transe por três dias, aparentando estar morto. Ao fim do terceiro dia, o hierofante, nesse caso Jesus, usando palavras de poder, desperta-o de seu transe. Em outra passagem, Jesus refere-se a esse profundo mistério quando diz: “Destruí este templo, e em três dias eu o levantarei” (Jo 2:19). Compreende-se, portanto, por que Tomé queria também passar por aquela “morte”.

O fato de a maior parte das referências aos mistérios de Jesus encontrar-se nos evangelhos gnósticos não significa que os padres da Igreja dos primeiros séculos desconhecessem os mistérios. Alguns eram até mesmo iniciados neles. Existem inúmeras referências veladas nas epístolas de Paulo, o grande iniciado, usando a linguagem técnica dos mistérios, como por exemplo: “Como bom arquiteto, lancei o fundamento, outro constrói por cima” (1Co 3:10).








 
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