|
 |
| Jesus
com os discípulos: mistérios transmitidos aos que eram
purificados e comprometidos com a vida espiritual. |
Esse ritual foi parcialmente preservado num documento apócrifo
conhecido como Atos de João e, mais tarde, publicado como
O Hino de Jesus. No rito do Hino, os discípulos aparecem num
círculo, segurando as mãos uns dos outros. Jesus entoava invocações
no centro da roda e seus discípulos respondiam “amém”, movendo-se
em círculo.
O poder do hino pode ser aquilatado por algumas estrofes:
“Glória a ti, Pai! Glória a ti, Verbo! Glória a ti, Graça!
Glória a ti, Espírito! Glória a ti, Sagrado um! Glória a
tua glória!” E o rito continuava com seu ritmo envolvente,
conduzindo os participantes a elevados níveis de consciência.
No hino encontram-se declarações de caráter esotérico como:
“E agora responde ao meu dançar! Veja a ti mesmo em mim
que falo; e vendo o que faço, guarda silêncio sobre os meus
mistérios.” E uma afirmação que antecipa as descobertas
psicológicas de Jung neste século: “Se tivesses sabido como
sofrer, terias o poder de não sofrer. Conhece (pois) o sofrimento,
e terás o poder de não sofrer.”
Outro importante ritual oficiado por Jesus é descrito nos
evangelhos canônicos de forma tão velada que é geralmente
interpretado como um “milagre”. Trata-se da assim chamada
ressurreição de Lázaro. Se tomarmos a passagem em João (Jo
11:1-43), veremos que todo o relato assume um caráter curioso
devido ao comportamento aparentemente bizarro de Jesus face
às notícias sobre Lázaro.
É dito que Lázaro estava “doente” e que suas irmãs, Maria
e Marta, mandaram avisar a Jesus sobre o fato. De forma
surpreendente, Jesus demonstra um aparente desinteresse
pelo estado de saúde de seu discípulo amado e diz: “Essa
doença não é mortal, mas para a glória de Deus, para que,
por ela, seja glorificado o Filho de Deus.” Depois disso,
Jesus permaneceu mais dois dias no local onde se encontrava
e só depois decidiu ir para o povoado de Lázaro, na Judéia.
Disse então a seus discípulos: “Nosso amigo Lázaro dorme,
mas vou despertá-lo.” E os discípulos ficaram confusos,
pois lhes parecia que Jesus falara da morte de Lázaro como
se fora apenas um sono. Então Jesus falou claramente: “Lázaro
morreu. Vamos para junto dele!” Tomé, surpreendentemente,
diz aos outros discípulos: “Vamos também nós, para morrermos
com ele!” Como explicar o anseio dos discípulos por morrer
com Lázaro, a não ser que essa “morte” fosse algo extremamente
desejável?
Ao chegar, Jesus encontrou Lázaro já sepultado havia quatro
dias. Então, disse Marta a Jesus: “Senhor, se estivesses
aqui, meu irmão não teria morrido.” Jesus respondeu: “Teu
irmão ressuscitará.” Jesus mandou então que retirassem a
pedra do sepulcro e gritou em voz alta: “Lázaro, vem para
fora!” O morto saiu, com os pés e mãos enfaixados e com
o rosto recoberto com um sudário.
Para aqueles familiarizados com os rituais esotéricos, esse
aparente milagre é a forma alegórica de descrever o ofício
de um elevado rito de mistério no qual o iniciado entra
em transe por três dias, aparentando estar morto. Ao fim
do terceiro dia, o hierofante, nesse caso Jesus, usando
palavras de poder, desperta-o de seu transe. Em outra passagem,
Jesus refere-se a esse profundo mistério quando diz: “Destruí
este templo, e em três dias eu o levantarei” (Jo 2:19).
Compreende-se, portanto, por que Tomé queria também passar
por aquela “morte”.
O fato de a maior parte das referências aos mistérios de
Jesus encontrar-se nos evangelhos gnósticos não significa
que os padres da Igreja dos primeiros séculos desconhecessem
os mistérios. Alguns eram até mesmo iniciados neles. Existem
inúmeras referências veladas nas epístolas de Paulo, o grande
iniciado, usando a linguagem técnica dos mistérios, como
por exemplo: “Como bom arquiteto, lancei o fundamento, outro
constrói por cima” (1Co 3:10).
|