|
A fuga da dor e a busca instintiva do prazer, em geral,
causam ao ser humano ainda mais sofrimento. A verdadeira
felicidade provém de cumprirmos nosso dever e, ao mesmo
tempo, mantermos espaço para a paz interior.
CARLOS
CARDOSO AVELINE
 |
| Busca
de leituras pouco construtivas: anestesia psicológica
|
A primeira nobre verdade do budismo é correta: “A vida causa
sofrimento.” Porém, quanta dor é necessária para viver? Esta
questão está sempre em aberto, porque depende da atitude de
cada um a cada momento. A arte de viver ensina a transmutar
a dor em sabedoria, e a obter satisfação duradoura consigo
mesmo, com os outros e com a vida.
O cidadão comum passa boa parte da vida fugindo da dor ou
buscando anestesia psicológica. Rádio, televisão, cinema,
futebol, comentários sobre a vida alheia, revistas inúteis
e outras formas de “diversão” têm, em parte, a função de
entorpecer o cidadão e desviar sua mente da questão central
da vida – o caráter breve e precioso da nossa visita a este
planeta. Mas o velho dilema entre dor e fuga da dor tem,
na verdade, um fundo falso.
Quando a dor é exagerada e transformada em algo central
podemos querer fugir dela por meio de algum dogma ou salvador,
ou fechar os olhos para ela através do refúgio nos prazeres
materiais, o que causa mais dor. Podemos desenvolver uma
espiritualidade mecânica e supersticiosa ou – no outro extremo
– cair em um materialismo que é a pura ignorância.
Por causa do falso abismo entre prazer e sofrimento, o caminho
da sabedoria é pouco compreendido. De um lado, a espiritualidade
é apresentada como o melhor modo de alcançar a felicidade,
a bem-aventurança, o bem-estar permanente. De outro lado,
é descrita como o caminho da cruz, do sofrimento e do sacrifício.
Onde está a verdade?
O primeiro efeito prático da caminhada espiritual é que
começamos a pensar mais profundamente sobre a vida e o nosso
bom senso gradualmente aumenta. E então vemos o lado escuro
dos prazeres promovidos pela sociedade de consumo:
•O alcoolismo gera insensibilidade e violência.
•Comer demasiado ou inadequadamente engorda.
•A alimentação carnívora não faz bem à saúde.
•Cigarro causa diversas doenças.
•Os sentimentos de ódio e inveja ameaçam o bem-estar físico,
emocional e mental.
•Sexo praticado sem amor, ou em excesso, tem diversas e
graves contra-indicações.
A prática da mentira, seja ela dita para os outros ou para
nós próprios – e mesmo que seja bondosa e “espiritual” –,
acaba gerando um mundo psicológico falso, confuso e sem
alicerces firmes, sobre o qual nada se pode construir de
duradouro.
Sem dúvida, a ética e a moderação surgem como porto seguro
e refúgio natural em nossa vida quando temos a calma e a
coragem necessárias para observar como funciona a lei da
causa e do efeito. Mas se, ao contrário, alguém vê as recomendações
éticas como mandamentos dogmáticos e as obedece supersticiosamente,
como se fosse membro de um rebanho animal e não tivesse
direito a decisões próprias, a prática da virtude é construída
sobre a areia movediça da obediência cega e normalmente
não dura muito tempo. É então que o indivíduo pensa no caminho
espiritual como uma perda dolorosa e não como uma libertação
e uma bênção. Quando isso ocorre, a experiência espiritual
pode terminar em hipocrisia.
|