TRANSCENDENDO > Mente
  Além da Dor e do Prazer

A fuga da dor e a busca instintiva do prazer, em geral, causam ao ser humano ainda mais sofrimento. A verdadeira felicidade provém de cumprirmos nosso dever e, ao mesmo tempo, mantermos espaço para a paz interior.

CARLOS CARDOSO AVELINE

Foto: Pedro P. Guimarães
Busca de leituras pouco construtivas: anestesia psicológica
A primeira nobre verdade do budismo é correta: “A vida causa sofrimento.” Porém, quanta dor é necessária para viver? Esta questão está sempre em aberto, porque depende da atitude de cada um a cada momento. A arte de viver ensina a transmutar a dor em sabedoria, e a obter satisfação duradoura consigo mesmo, com os outros e com a vida.

O cidadão comum passa boa parte da vida fugindo da dor ou buscando anestesia psicológica. Rádio, televisão, cinema, futebol, comentários sobre a vida alheia, revistas inúteis e outras formas de “diversão” têm, em parte, a função de entorpecer o cidadão e desviar sua mente da questão central da vida – o caráter breve e precioso da nossa visita a este planeta. Mas o velho dilema entre dor e fuga da dor tem, na verdade, um fundo falso.

Quando a dor é exagerada e transformada em algo central podemos querer fugir dela por meio de algum dogma ou salvador, ou fechar os olhos para ela através do refúgio nos prazeres materiais, o que causa mais dor. Podemos desenvolver uma espiritualidade mecânica e supersticiosa ou – no outro extremo – cair em um materialismo que é a pura ignorância.

Por causa do falso abismo entre prazer e sofrimento, o caminho da sabedoria é pouco compreendido. De um lado, a espiritualidade é apresentada como o melhor modo de alcançar a felicidade, a bem-aventurança, o bem-estar permanente. De outro lado, é descrita como o caminho da cruz, do sofrimento e do sacrifício. Onde está a verdade?

O primeiro efeito prático da caminhada espiritual é que começamos a pensar mais profundamente sobre a vida e o nosso bom senso gradualmente aumenta. E então vemos o lado escuro dos prazeres promovidos pela sociedade de consumo:
•O alcoolismo gera insensibilidade e violência.
•Comer demasiado ou inadequadamente engorda.
•A alimentação carnívora não faz bem à saúde.
•Cigarro causa diversas doenças.
•Os sentimentos de ódio e inveja ameaçam o bem-estar físico, emocional e mental.
•Sexo praticado sem amor, ou em excesso, tem diversas e graves contra-indicações.

A prática da mentira, seja ela dita para os outros ou para nós próprios – e mesmo que seja bondosa e “espiritual” –, acaba gerando um mundo psicológico falso, confuso e sem alicerces firmes, sobre o qual nada se pode construir de duradouro.

Sem dúvida, a ética e a moderação surgem como porto seguro e refúgio natural em nossa vida quando temos a calma e a coragem necessárias para observar como funciona a lei da causa e do efeito. Mas se, ao contrário, alguém vê as recomendações éticas como mandamentos dogmáticos e as obedece supersticiosamente, como se fosse membro de um rebanho animal e não tivesse direito a decisões próprias, a prática da virtude é construída sobre a areia movediça da obediência cega e normalmente não dura muito tempo. É então que o indivíduo pensa no caminho espiritual como uma perda dolorosa e não como uma libertação e uma bênção. Quando isso ocorre, a experiência espiritual pode terminar em hipocrisia.

| 1 | próxima>>










 
© Copyright 1996/2000 Editora Três