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O psiquiatra Zacaria Ramadam, chefe do departamento de psiquiatria
da Faculdade de Medicina da USP, analisa que a aparente permissividade
evidenciada pelo Jardim das Delícias na realidade exprime
o fato de que naquela época o sexo deveria estar mais presente
na vida das pessoas do que agora. "O próprio Foucault, em sua
obra A História da Sexualidade, desenvolve essa teoria,
ao dizer que modernamente a sexualidade adquiriu mais importância
no discurso e, na prática, ela se restringiu".
A
função da mulher - que na época não trabalhava nem em casa, pois
a sociedade árabe era escravocrata - era meramente reprodutiva
e, portanto, ela estava realmente mais devotada à sua sexualidade.
"No plano do desejo, a coisa deve ter sido muito mais acesa naquela
época", diz o médico.
Enquanto
no Ocidente a Igreja entrou com força na repressão e na regulação
das práticas sexuais a partir de um período da Idade Média, no
mundo árabe, segundo Ramadam, as restrições e a acentuada
moralidade só passaram realmente a existir nesse século. "A partir
das investidas do Ocidente, muito em função do petróleo, os árabes
sentiram necessidade de radicalizar, voltar à raiz. Sempre que
você se sente ameaçado, a tendência é traçar modelos de comportamento
mais rígidos, como mecanismo de defesa". Para ele, como na época
do sheik Nefzaui o Islã estava em expansão, os costumes andavam
mais soltos. Sendo assim, mesmo debaixo do pano, já que evidentemente
as regras morais existiam, a sexualidade teve mais abertura.
Esse
aspecto fica claro ao longo de todo o livro, onde em nenhum momento
é citada alguma preocupação com a manutenção da virgindade, moeda
de troca importante nas sociedades tradicionais. Além disso, a
maioria das personagens femininas aparece nas histórias cometendo
adultério.
Ramadam,
que é descendente de uma família xiita do Líbano, acha que é uma
simplificação chamar o livro e mesmo a cultura árabe de machista.
Muitas das linhas de conduta traçadas pelo Alcorão tinham uma
fundamentação social bastante consistente.
No caso da permissão para que o homem possa ter até quatro mulheres
e tantas concubinas quanto puder sustentar, a explicação é que
como a sociedade árabe vivia em guerras e as mulheres dependiam
dos homens para viver, essa foi uma solução engenhosa para reparar
a falta de homens, que morriam lutando - e assim, prevenir a prostituição,
na época único meio de sustento das mulheres, além do casamento.
"Aceitar o casamento múltiplo é uma forma de regulamentar a situação
e proibir a via subterrânea", diz Ramadam. O mesmo raciocínio
vale para a lei que determina maior parte da herança aos filhos
homens. Como eles seriam encarregados de sustentar suas mulheres,
a eles teria que caber a maior parte do quinhão.
De
qualquer maneira, o próprio costume árabe que obriga as mulheres
a andar nas ruas com os cabelos, os braços e os corpos cobertos
com um manto negro talvez seja, na verdade, um indício de como
os apetites sexuais são mais exaltados por lá. Não é à toa que
um jornalista que fazia parte da comitiva do príncipe herdeiro
da Arábia Saudita, Abdullah Al-Saud, que recentemente esteve no
Brasil, acabou sendo preso em um shopping de Brasília. Sem a mínima
cerimônia, ele apalpou o derrière de uma jovem - que, como boa
brasileira, naturalmente fez o maior escândalo.
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