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Sérgio
Greif, 25 anos, se formou em biologia pela Unicamp, onde agora
faz mestrado em nutrição humana. Apaixonado pela ciência e vegetariano
desde criança, ele se dedica de corpo e alma a pesquisar e divulgar
o vegetarianismo e a antivivissecção. Sérgio concretizou suas
idéias no livro (que escreveu com Thales Tréz, que agora faz mestrado
em ética prática na Bélgica) A Verdadeira Face da Experimentação
Animal - Sua Saúde em Perigo. Aqui o representante brasileiro
da Interniche fala, como não podia deixar de ser, sobre vivissecção
e vegetarianismo - e expõe para a Planeta na Web os motivos pelos
quais se tornou um fervoroso ativista pelo direito dos animais.
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Sérgio
Greif
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Planeta
na Web - Qual é a diferença entre bem-estar animal e direitos
dos animais?
Sérgio
Greif - Vamos primeiro pensar no que os direitos dos animais
pregam. No começo do livro do Peter Singer, Animal Liberation,
ele fala sobre outros grupos minoritários que não tinham direitos
no passado. Negros, por exemplo, eram considerados seres sem alma.
A mulher cozinhava e tinha filhos para o marido. Mas ela não tinha
alma, então não havia respeito. A mesma coisa acontece com os
animais. O filósofo Jeremy Bentham falou: "Não importa se eles
têm alma ou não. A pergunta é se eles sentem dor ou não". Se um
organismo tem a capacidade de sentir dor, não é nosso direito
atribuir-lhe dor. Se sentem medo, não podemos passar-lhes o medo.
Agora, o que o bem-estar prega? Prega que "tadinho do bichinho",
mas podemos explorá-lo, não vamos ser radicais. Então, podemos
comer animais, desde que o abate seja humanitário. Eu digo que,
se o abate pudesse ser humanitário, eu poderia matar uma pessoa
para comer. De vez em quando a polícia prende um canibal e o chamam
de maluco. Ele pode até dizer que não maltratou, só matou para
comer, mas essa justificativa não será válida. Ele vai em cana
mesmo porque fez uma coisa errada. Não há uma forma de abater
humanamente, porque o abate é intrinsecamente errado. O organismo
está vivo, está bem, e você o mata. Esta é a principal diferença:
o bem-estar animal não diz que você não tem o direito de matar
animais.
PnW
- Então o bem-estar animal não condena a experimentação em animais
e a vivissecção?
Sérgio - Não. E nem o consumo de carne. Isso pode atrapalhar
bastante. Por exemplo, muitas sociedades de bem-estar animal fazem
parte de comitês de ética. Um comitê de ética não fiscaliza como
um pesquisador se comporta dentro do laboratório. Quando muito,
fiscaliza como os animais são mantidos no biotério. Então o pesquisador
faz o que quiser com o animal e tem o aval de um comitê de ética
dizendo que ele está procedendo da forma correta, e a sociedade
do bem-estar animal não tem idéia do que ele está fazendo. Quando
eu for contrariá-lo, ele vai falar que tem o aval de um comitê
de ética e que está procedendo corretamente, e que há uma entidade
de bem-estar animal junto e apoiando. Aí me desarmou. A entidade
de bem-estar animal que cai nisso e se compromete com o pesquisador
não tem como contrariar uma pesquisa e nem tem mais interesse,
porque já virou amiga dele.
PnW
- A lógica do bem-estar animal não seria a de que, realisticamente,
não vamos conseguir parar, hoje, com experimentação animal e consumo
de carne - então vamos tentar pelo menos diminuir o sofrimento?
Sérgio - Eu entendo isso, mas não concordo. Albert Einstein
disse: "Não existe forma de você resolver um problema procedendo
com as mesmas formas de pensamento que levaram à sua criação".
E é por isso que eu digo que os três R's são uma armadilha. O
bem-estar animal defende esta estratégia para diminuir o uso de
animais: Refinar a pesquisa, os animais serem mais humanamente
tratados, na medida do possível; Reduzir o número de animais
necessários; e, se possível, Replace (substituir). Dessa
forma, eles falaram duas vezes que é necessário usar animais e
que a vivissecção é um mal necessário. Eles estão promovendo.
Eu estou tentando contrariar, e não porque o bichinho é um coitadinho.
O livro não fala quase nada de ética, está falando pelo lado científico.
Na verdade eles dizem que eu sou um utópico, um radical. Eu não
quero acreditar que eles sejam contra os animais, mas estão procedendo
contra os animais.
PnW
- As pessoas comem carne, sempre comeram, é tradição em alguns
lugares, é símbolo de muitas coisas. Não é como os testes em animais
que podem ser substituídos e começar a fazer de outro jeito. O
mundo não vai se tornar vegetariano da noite para o dia...
Sérgio - Não da noite para o dia. O que eu tento dizer
é que, se 10% dos Estados Unidos pararem de comer carne hoje ou
diminuírem em 10% o consumo, você consegue alimentar todas as
pessoas que não têm comida com os grãos que os bois deixam de
comer. Não é esse o motivo que me faz ser vegetariano, porque
eu não tinha consciência disso quando me tornei. Eu me tornei
vegetariano muito novo, por princípios óbvios. Minha mãe não me
deixava pisar em formiga, falava assim: "Você gostaria que um
gigante pisasse na sua casa?" Eu vi que ela tinha razão. Eu não
quero ser comido, então não vou comer também. Isso me levou a
ser vegetariano. É claro que as pessoas têm conceitos éticos e
morais diferentes. Mas temos que pensar: o que nos leva a atribuir
um valor tão especial à carne, não é o interesse da indústria
da carne para que a gente compre os produtos deles? Se você fosse
comprar a carne pelo preço que a carne vale, ninguém teria acesso.
A carne é muito subsidiada. Se você pensar que um boi come o que
20 pessoas comem, o boi deveria custar 20 vezes mais do que o
milho ou a soja. Você acaba avaliando o desenvolvimento de um
país pelo tanto de carne que as pessoas têm acesso. Não vou dizer
que a reforma agrária não acontece por causa disso, não vou dizer
que a má distribuição de terra acontece por causa da pecuária.
Mas se você quiser distribuir as terras igualmente, você vai ter
que abolir a pecuária. A pecuária exige terra e você está produzindo
um boi por três hectares. Se você quiser distribuir as terras,
vai ter que fazer o que fizeram na Ásia no século 6 antes de Cristo.
Não é a toa que o budismo ganhou a aceitação da população, eles
já estavam tendendo ao vegetarianismo e tinham que distribuir
as terras. Foi isso que fez a Ásia adotar religiões vegetarianas.
PnW
- Então você até concorda com o abate humanitário, mas prefere
educar as pessoas a parar de comer carne do que concentrar seus
esforços tentando tornar o abate mais humano?
Greif
- Claro, porque é um desperdício de energia para uma coisa
que não beneficia os animais realmente. O destino deles é o mesmo,
com menos dor ou com mais dor, é um destino cruel. Existem ainda
escravos na África, e muitas escravas são violentadas. Se você
é proprietário, é seu direito fazer o que quiser. Depois de violentá-las,
você ainda pode esmurrá-las, porque não há lei que impeça. Se
eu fosse um missionário na África, poderia pedir: "Depois que
você violentar sua mulher, você poderia não bater nela?".
PnW
- É como o Maluf, que disse: "Estupra mas não mata".
Greif - É. Mas estupro é necessário? Não é. Não é um desperdício
de esforços ir até a África para pedir para eles não batam na
mulher depois de estuprá-la? Já que você está na África, fala
para eles: "Não estupra a sua mulher e de preferência liberta
ela".
PnW
- A impressão que tive nesse congresso de bem-animal é a de que
nem todo mundo que luta pelo bem-estar animal é vegetariano...
Greif - Ninguém é vegetariano.
...na próxima página, saiba porquê a sua saúde
está em perigo>>
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