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  A Revolução dos Bichos

Se pudessem expressar sentimentos e reivindicar direitos, o que diriam os animais? Alguns humanos decidiram emprestar suas vozes para os bichos e, em alto e bom tom, expressam o descontentamento que os animais supostamente sentem neste mundo de humanos. A Planeta na Web discute a polêmica questão dos direitos dos animais.

ALESSANDRA NAHRA

O amor que as pessoas têm aos animais é algo incontestável. São raros os humanos que não gostam da companhia de um cão ou gato, e não se admiram com a força de um leão ou o tamanho de um elefante. Mas são poucos, também, os que enxergam os animais como iguais. Na maioria das vezes, os bichos são vistos como espécies inferiores, postas no mundo para serem governadas, ou domadas, pelo homem. Esse ponto de vista é coerente com a relação que o ser humano tem com o universo todo, uma relação de dominação e luta constante. Ao homem cabe domar a natureza selvagem - em vez de se harmonizar a ela. O homem explora o planeta, tentando dele tirar seu sustento - como se fosse o solitário desbravador no topo da cadeia alimentar, sem perceber que é apenas mais uma parte da teia da vida. Os resultados desse comportamento podem ser facilmente observados. A Terra está atingindo um nível de destruição que faz com que grandes inteligências humanas, como recentemente o físico Stephen Hawkins, sugiram que devemos começar a colonizar outros planetas. Segundo ele, dentro de mil anos a vida não mais será possível na Terra. Usa-se e abandona-se.

Mas quando foi que o homem começou a lutar com o planeta e seus habitantes como se precisasse vencer, ao invés de encontrar uma relação de cooperação mútua? Talvez no chamado "tempo das cavernas", quando a escassez fazia da sobrevivência uma luta real, e da astúcia do homem dependia a caça que garantiria a continuidade das gerações. Mas a definitiva consagração da superioridade humana frente às outras espécies talvez tenha se instalado depois que o filósofo francês René Descartes (1596-1650), um dos pais do racionalismo, cunhou, na obra Meditações (1641), a célebre frase: "Penso, logo existo". Depois disso, quem não pensa, não existe. Ou pelo menos não tem nenhum direito, já que, sem poder verbalizar seu descontentamento, é mero objeto nas mãos do homem.

Não se pode negar, no entanto, a inteligência da vida animal. Baleias, golfinhos, cães e macacos demonstram provas irrefutáveis de que possuem uma espécie de saber básico, instintivo, emocional. Inteligência, afinal, parece existir independente da razão. Talvez, no futuro, o mundo substituirá a máxima cartesiana por "sinto, logo existo".

Já há quem assim pense, e tome como causa principal a briga pelos direitos dos animais. Ao filósofo Peter Singer foi creditado o começo do movimento "animal rights", os direitos dos animais. Singer desconsidera a idéia de que a razão é o fator que determina o merecimento de justiça e dignidade. Apoiado pelas idéias do inglês Jeremy Bentham (1748-1832), Singer sustenta que o limite é traçado pela capacidade de sentir dor. Se um ser é capaz de sentir dor, não nos é permitido infligir dor. Se não levamos isso em consideração, é porque consideramos os animais não humanos como espécies inferiores. Temos, portanto, o direito de dispor deles para o nosso contentamento - entretenimento, alimento etc -, não importando se isso implica em sofrimento. Afinal, é para uma "causa maior".

Assim estaríamos sendo, segundo Singer, especistas: tal como racistas, que determinam escala de importância dentro de raças humanas, ou sexistas, que vêem um sexo como mais poderoso e superior que outro. Os especistas consideram que a raça humana é superior, portanto aos humanos é facultado o direito à exploração das raças consideradas inferiores, com base na ausência da razão.

Não tão radicais quanto os ativistas dos direitos dos animais, os defensores do animal welfare, ou bem-estar animal, acreditam que os animais precisam ser melhor tratados - mas ainda podem servir ao homem. Representantes deste movimento pensam que animais não devem ser usados em circos e rodeios - mas enquanto isso ainda acontece eles trabalham para minimizar o sofrimento desses bichos. São totalmente contra o abuso de animais domésticos, e defendem a posse responsável. Eles não consideram, no entanto, o fim dos animais de produção - já que esse seria um uso justificável dos animais. Os animal-welfaristas dizem que o abate precisa ser humanitário, mas não pregam o fim do abate. Esse tipo de abordagem às vezes origina situações desconfortavelmente incoerentes. Como por exemplo a que a reportagem de Planeta na Web pode observar no Congresso de Bem-Estar Animal que aconteceu nos dias 12, 13 e 14 de outubro de 2000 em Embú, SP. Numa palestra sobre o abate humanitário, a audiência toda chorava pelo destino dos animais num vídeo sobre as terríveis condições do transporte de gado na Europa. Logo após a palestra, era hora do almoço. Na maioria dos pratos, a carne desses mesmos animais.

O II Congresso Latino-Americano e III Brasileiro do Bem-Estar Animal foi promovido pela Arca Brasil, uma entidade de bem-estar animal que tem um trabalho consistente na área de animais domésticos. O Congresso reuniu tanto grupos de bem-estar como de direitos animais. A Planeta na Web explora aqui os principais tópicos da questão animal e algumas das opiniões e sugestões apresentadas no Congresso, que trouxe palestrantes de importantes entidades internacionais.





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No site da Arca Brasil, informações sobre o trabalho da entidade.

 

 
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