A
generosidade daquela gente me impressionou. De repente, sai da
escola Zezinho, um índio alfabetizado. Há mais ou
menos 30 anos, oito indiozinhos foram mandados para cidades, porque
o pajé havia sonhado que eles deveriam aprender a nossa
cultura, para comunicar melhor com os brancos. Zezinho foi um
deles. Morou e estudou em Ribeirão Preto, aprendeu nossa
língua, nossa cultura e nossas malícias também.
Nossa sorte é que ele era amigo do Laranjinha e, por coincidência,
morou com uma família muita conhecida do meu marido. Nota-se
de longe quando um índio saiu da sua cultura. Até
o seu olhar é diferente. É um olhar seco, duro,
difícil de penetrar.
Laranjinha, querendo preparar uma surpresa, deu-me um pacote de
balas e mandou que eu distribuísse para as crianças.
É impressionante como elas são educadas. A organização
é a base da educação das crianças
daquela aldeia. O interessante é que não existe
repressão.
Os pais não batem nos filhos e nem chamam sua atenção.
Todas fizeram filas para ganhar balas e roupas. Ninguém
avançou no pacote, ninguém tomou a bala do outro,
ninguém brigou nem xingou - e todos tinham uma expressão
nos olhos de agradecimento.
Até então, o encontro não estava acontecendo
como eu queria. Estavam todos na porta das ocas nos observando
de longe. A aldeia parou para nos receber, e os índios
estavam separados dos brancos. Eram dois mundos diferentes em
um mesmo lugar. A concepção de tempo também
era diferente. A frieza e a desconfiança estavam no olhar
de cada um quando pedi para fotografar e filmar. Mesmo assim o
Cacique Ivan deixou. Mas algo estava faltando, uma maior integração.
As mulheres, entre trançados de palha, olhavam meio desconfiadas.
Algumas riam tampando a boca. Até que o pajé Sibupá
chegou. Um senhor de aproximadamente 90 anos de idade, cabelo
pintado com urucum, sem camisa, pés descalços, pele
queimada. Tinha um olhar sereno, sutil, penetrante, puro. Parecia
que olhava com o coração. Todos se levantaram quando
ele chegou, pois esse homem é a essência e a base
da cultura daquela aldeia. Os índios acreditam que os velhos
são uma ponte que liga o que já aconteceu com o
que acontece e com que está por vir. Que o velho é
sábio por guardar os segredos divinos que recebe através
dos sonhos.
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Indiazinha
carrega cesta feita por eles
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Então
ele veio em minha direção. Acho que é porque
estava mais próxima do cacique. Fiquei mais assustada ainda,
porque pensei que ele fosse nos mandar embora. Foi chegando perto
de mim com o semblante sério, mas quando se aproximou,
abriu os braços e me abraçou. Fiquei sem reação.
Ele me apertou forte e sussurrava sem parar em meus ouvidos: warazú
sawide, sawide, tam ram sawide. E ele não me soltava mais.
Senti um certo aconchego. Meu coração acalmou e
continuei abraçada. Parecia o abraço do meu avô.
Então ele começou a falar, e Zezinho, meio assustado,
foi traduzindo. Percebi que teve algum receio em traduzir o que
o Pajé tinha dito. Insisti para que ele falasse e então,
finalmente, nos contou. Disse que o Pajé naquela noite
havia sonhado com o Deus deles e este disse que warazú
sawide (branco amigo) estava chegando na aldeia para ajudá-los.
Mais tarde descobri que a ajuda de que o Pajé falava era
relacionada a uma hidrovia que o governo quer construir no Rio
das Mortes, que é o terceiro rio mais limpo do mundo! Só
depois desta revelação senti que todos esqueceram
que éramos brancos e passaram a nos tratar como sawide
de coração. E o Pajé continuou abraçando
todos da equipe. A aldeia voltou a funcionar normalmente, mas
o melhor e mais surpreendente
estava por vir.
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