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CADMO SOARES GOMES
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| Vista
parcial da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais: natureza privilegiada. |
Quando parti para Minas, fazia idéia de que encontraria montanhas, cachoeiras, vegetação abundante, bichos, mas nunca esperei que fossem tantos. Passar a Semana Santa, de 20 a 22 de abril, trilhando a crista da Serra do Espinhaço, entre Ouro Preto e a Reserva Natural do Caraça, foi idéia que me ocorreu em cima da hora. Provou-se outra vez, para mim, a velha teoria de que as viagens pouco planejadas terminam por ser as mais divertidas.
Com um bem disposto grupo, o trajeto iniciou-se na bela Ouro Preto, Patrimônio da Humanidade. O percurso, que retomava antigas trilhas de tropeiros da época do ouro e dos diamantes, logo conduzia aos acentuados aclives e declives serranos, evocando histórias do tempo da Colônia e incendiando a imaginação: “Quanta aventura, quanta determinação tinha aquela gente desbravadora das Minas Gerais!” A proximidade da data dos 500 Anos fazia-nos sentir nós mesmos a descobrir o Brasil. Segundo nossos guias, essa era a segunda expedição que trilhava aquelas sendas que ora pisávamos.
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| Trilha
entre as montanhas: sensação de uma caminhada no topo do mundo. |
Ao fim do primeiro dia, chegamos à fazenda do Ronin, onde passaríamos a noite. Barracas armadas, recepção calorosa pelos proprietários da fazenda, delicioso jantar mineiro à luz de velas, nada de lâmpadas elétricas. A Lua cheia saía de trás das montanhas, enquanto, para espantar o frio, tomávamos um gole da mais que oportuna cachaça da fazenda, acompanhada do cafezinho da hora. Um violão fazia ouvir o dedilhado de modinhas do lugar.
De manhã cedo já partíamos rumo à região da campina Casa Nova. Ali a natureza revelava-se em toda a sua exuberância; bromélias e orquídeas enfeitavam as veredas e faziam-nos esquecer as dificuldades dos aclives, os cumes a serem vencidos, as estreitas passagens que às vezes tinham de ser transpostas entre um monte e outro. Ao final da tarde, instalamo-nos num imenso campo de sempre-vivas, entre altas pedras à margem de um córrego limpíssimo. O Sol já se punha nas montanhas da região de Capanema e o frio chegava rapidamente; o jantar fumegava cheiroso, o espírito companheiro do grupo ficava mais forte. Os dois cães da fazenda do Ronin, que haviam decidido por conta própria acompanhar-nos e terminariam por cumprir toda a caminhada conosco, observavam atentos os nossos movimentos e davam-nos a segurança de estarmos bem guardados.
A jornada seguinte seria de emoção. Acompanhando o serrilhado dos montes, por vezes havia passagens nas quais a imensidão se espraiava à direita e à esquerda, dando a sensação de caminhada nas nuvens. Sentíamo-nos como no topo do mundo. Almoçamos à margem de um riachinho margeado por jardins naturais. Que mão invisível traçara aqueles desenhos de plantas coloridas nas quais vinham dançar os pássaros sem temor nenhum dos visitantes? Até os cães, nossos companheiros, demonstravam sua alegria correndo, saltando de um lado para outro, brincando entre si e conosco.
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| Conjunto
arquitetônico instalado na Reserva Natural do Caraça: história
preservada. |
Já sabendo que o objetivo final estava próximo, um misto de alegria por chegar e uma tristeza por deixar apossava-se do grupo. Cedo, ainda nos detemos por cerca de uma hora para um banho restaurador na intocada cachoeira do Campo de Fora, com suas águas douradas pelo brilho do Sol. Não demoraríamos depois a atingir o Caraça, solenemente instalado entre as montanhas de sua reserva natural. A visão desse santuário à Virgem, em rigoroso estilo neoclássico, é, para dizer o mínimo, espetacular!
Quatro dias de caminhada. Trilhas difíceis, que exigiram disposição e ânimo. Frio, calor, cansaço. Mas também muita beleza, tranqüilidade, paz, abraço da natureza. Mais que tudo isso, porém, um joelho machucado fez-me provar das melhores expressões de amizade, principalmente companheirismo e solidariedade. No meu 22 de abril, descobri também um Brasil.
Serviço
O passeio pela Serra do Espinhaço é realizado pela agência mineira Brasil Aventuras tel.: (31) 284-9828.
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