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O Guia Ecológico Doméstico e o ambientalismo interior
ALESSANDRA
NAHRA
"Comecei
a vir para o trabalho de bicicleta, então não ando com a consciência
pesada por essa cidade poluída". Dan Schneider está seguindo as
passos de Maurício Waldman, que todo dia põe no cofrinho o dinheiro
da gasolina e pedala 40 minutos, da Aclimação (zona sudoeste de
São Paulo) até o Canindé (zona norte), para ir trabalhar. E os
dois estão seguindo à risca as dicas do livro de sua autoria,
Guia Ecológico Doméstico. Viver de uma maneira mais simples
e auto-suficiente, e trazer a consciência ambiental para dentro
de casa: esses são os princípios delineados no livro. Ecologia,
segundo eles, começa na vida diárias - e não numa
longínqua floresta ou salvando as baleias lá no meio do oceano.
O Guia ensina a reciclar, cultivar uma horta em casa, fazer
compostagem. Dá dicas de ervas medicinais, boa alimentação,
economia doméstica e ensina até a fazer papel reciclado.
A
militância é companheira de longa data dos dois. Maurício é mestre
em antropologia pela USP e doutorando em Geografia. Já foi secretário
do meio-ambiente de São Bernardo do Campo e agora é responsável
pela Coleta Seletiva da Cidade de São Paulo. Dan é engenheiro
metalurgista com especialização em Gestão Ambiental. Atualmente
trabalha com a informatização do sistema de gestão do lixo de
São Paulo. Neles, a esquerda encontra o ambientalismo. O resultado
é a consciência do poder que nossas ações individuais representam
na sociedade atual. "É muito fácil falar em mudar o mundo, o difícil
é mudar você mesmo", lembra Maurício. A Planeta na Web traz uma
entrevista exclusiva com os novos guerreiros ecologistas urbanos.
Planeta
na Web - Como surgiu o livro? Percebe-se que são informações
que vocês juntaram ao longo de muito tempo...
Maurício
Waldman - Dan e eu passamos por divórcios ao mesmo tempo.
Quando se fica sozinho, essa coisa da casa, de zelar por um espaço,
é bem mais explicitada. Nesse momento a gente percebeu que, apesar
de ter uma militância ambientalista muito forte, havia uma lacuna
quando se tratava de ambientalismo no cotidiano. A questão ambiental
ainda é colocada de uma forma muito externalizada, o meio ambiente
é sempre uma coisa que está fora, muito longe: a floresta equatorial,
uma represa qualquer. Não existe nenhuma literatura de apoio no
sentido de ecologizar o ambiente doméstico. A nossa idéia é repensar
a casa numa ótica ambientalista, para que as pessoas adotem essa
postura no dia-a-dia e possam, dessa forma, conseguir uma sabedoria
geral do meio ambiente.
Dan
Schneider - Quando o nosso exterior está ruim, a gente começa
a olhar para dentro, e eu não gostei muito do que vi. Eu tinha
um discurso em defesa das florestas, contra as reservas extrativistas,
mas não enxergava e não tinha a clareza de que pequenos atos do
dia-a-dia contribuem para aquilo que a gente é contra, contribuem
para o desequilíbrio, para mudanças climáticas, para o buraco
na camada de ozônio, para a poluição do ar, para a paisagem feia
da nossa cidade. Eu comecei a pensar o quão era responsável. É
muito fácil falar que é a transnacional, a multinacional, o imperialismo,
a indústria ou o governo. São eles também, mas a gente faz parte
do mesmo cenário. Se queremos de fato mudar esse cenário, temos
que começar mudando a nós mesmos.
PnW - A mudança da sociedade então é iniciada a partir de um processo
individual, ao contrário de décadas passadas, quando se queria
mudar o mundo através de movimentos coletivos?
Maurício
- É muito fácil falar em mudar o mundo, o difícil é mudar você
mesmo. Não adianta ficar se preocupando com tudo se você mesmo
não faz nada. Tem que se mudar e entender que essa mudança, embora
pequena, se soma com muitas pessoas fazendo pequenas coisas que
resultam numa mudança geral. A preocupação com a mudança do mundo
continua sendo a mesma, apenas o vetor é outro. Até pela própria
forma como as pessoas estão se organizando hoje em dia, não dá
para se levantar bandeiras que excluam o universo particular.
Está inserido no geral, mas a partir do modelo particular. Você
tem que pensar o seu espaço e articulá-lo em função do geral,
e não o oposto.
Dan
- A leitura que eu faço do momento que vivemos é a dos hindus,
que falam que a gente está no Kalidurga, a treva das trevas. Acho
que agora é o momento de resistência das pessoas que querem mudar,
que não satisfeitas com o "em torno" delas. Nessa fase de resistência,
as pessoas não estão sozinhas, é uma espécie de conluio de redes.
Rede é uma palavra mágica hoje, e uma das ferramentas desenvolvidas
é o computador, que está possibilitando a formação dessas redes.
Pessoas que têm os mesmos interesses e comungam os mesmos ideais
se juntam mais facilmente e não precisam ter exatamente uma mesma
bandeira.
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