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paralelo com a tradição mística e esotérica é inevitável. "O mundo
físico é maya, ilusão", diz o budismo há 2.500 anos, antecipando
a física moderna, "e além desta aparência ilusória está o vazio
que é plenitude". A sabedoria hermética afirma: "Assim é o grande
como pequeno, e tudo está unido a tudo o tempo todo".
A unidade de todas as coisas não significa que não haja diferença
entre elas. Afinal, estamos acostumados a compreender o mundo
pelas suas partes, e estabelecendo contrastes entre elas: frio
e quente, alto e baixo, rápido e lento, próximo e distante. Há
um nível de percepção da realidade em que estas distinções funcionam
perfeitamente (conforme a física de Newton). Mas a aparente exatidão
e a segurança desta dimensão da ciência são limitadas. Capra dá
um exemplo disso.
Suponhamos, diz ele, que uma professora de física deixa cair de
certa altura um objeto até o chão, e mostra a seus alunos como
calcular o tempo de queda do objeto de acordo com uma fórmula
newtoniana clássica. Como a maior parte da física de Newton, a
fórmula vai ignorar a resistência do ar, e por isso não será perfeitamente
exata. Se o objeto fosse uma folha de papel, a experiência fracassaria.
A professora pode ir desta primeira aproximação e levar em conta
a resistência do ar acrescentando mais um elemento à sua fórmula.
Mas isto também não dará uma precisão total. A resistência do
ar depende da temperatura e da pressão atmosférica, e também do
movimento do ar da sala, o qual é movimentado inclusive pela respiração
dos estudantes. Capra mostra, então, que a precisão nunca é total,
derrubando o velho paradigma de que o conhecimento científico
é exato. "A ciência avança através de respostas parciais a questões
cada vez mais sutis, que alcançam cada vez mais profundamente
a essência dos fenômenos naturais", escreveu Louis Pasteur. "Em
ciência, nós sempre lidamos com descrições limitadas e aproximadas
da realidade", completa Fritjof Capra. E é a aceitação desta "imprecisão
relativa" que leva a desistir da obsessão como o detalhe e a olhar
as coisas em seu conjunto.
O cérebro humano, por exemplo, pode ser visto como uma rede ou
teia de relações. "A estrutura do cérebro é tremendamente complexa",
diz Capra. "Ela contém 10 bilhões de células nervosas (neurônios)
que estão interligadas formando uma grande rede graças a um bilhão
de junções (sinapses)". O cérebro pode ser dividido em seções,
ou sub-redes, comunicadas entre si de modo não-linear, isto é,
com a troca energética fluindo em todas as direções ao mesmo tempo
e provocando uma ação instantaneamente coordenada.
Algo semelhante ocorre com o planeta Terra, com o ecossistema
natural. Há uma auto-organização. E, segundo a hipótese Gaia,
a auto-organização ecológica também é consciente. Deste modo,
vemos que existe um ecossistema mental, que reúne nossas idéias
e pensamento, e que tem como ponto de apoio no mundo físico o
nosso cérebro; existe um ecossistema emocional, que tem como ponto
de apoio físico o nosso sistema nervoso; e há um ecossistema físico,
nosso corpo com os aparelhos digestivo, circulatório etc. Cada
um destes ecossistema tem sua própria forma de inteligência e
capacidade de se auto organizar.
Mas a visão ecológica da vida, que é, por estranho que pareça,
igualmente mística e científica, não pára neste ponto. Os ecossistemas
físicos e naturais externos ao ser humano também são auto-regulados
e têm sua própria forma de inteligência. Grande parte do livro
de Capra é dedicada à hipótese de Gaia, segundo a qual o planeta
Terra vive e regula seu metabolismo mantendo a temperatura certa
e as outras condições necessárias à vida.
"O processo de auto-regulação foi a chave da idéia de James Lovelock
(criador da hipótese Gaia)", escreve Capra. "Ele sabia, graças
à astrofísica, que o calor do Sol aumentou em 25% desde o começo
da vida na terra, e apesar disso, a temperatura na superfície
do planeta tem permanecido constante, em nível confortável para
a vida, nestes últimos quatro bilhões de anos".
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