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  A Normalidade Que Faz Mal

Muitos hábitos considerados normais pela sociedade – como fumar e beber – mostram-se prejudiciais ao ser humano. Questioná-los pode levar a uma mudança de comportamento.

PIERRE WEIL

Arte: Alfer
O texto aqui apresentado é um excerto do capítulo 10 (parte II) do livro A Mudança de Sentido e o Sentido da Mudança, de Pierre Weil, lançado recentemente pela Editora Rosa dos Tempos. O texto original foi publicado pela primeira vez na revista Thot, nº 64, São Paulo, 1997.

Neologismo criado por Jean-Yves Leloup, um dos pioneiros da psicologia transpessoal na Europa, o termo normose remete à perigosa realidade em que o hábito nocivo torna-se a norma de consenso. O resultado pode ser a doença, a destruição e a morte.

No começo eu interpretava o termo com certa conotação humorística. Percebia que esse sentimento era reforçado pelos sorrisos ou risos do público, quando empregava a expressão em minhas conferências. Aos poucos, porém, dei-me conta de que essa palavra representa, na realidade, um conceito fundamental para a psicologia, a sociologia, a antropologia cultural e a educação, entre outras áreas. Efetivamente, a normose é uma das origens das nossas frustrações, sofrimentos e morte. Mas como se formou ela? Quais os seus contornos?

A descoberta do normal e do patológico – Quando todos estão de acordo em relação a uma opinião, atitude ou ação, forma-se um consenso que dita uma norma. Quando esta norma é adotada, forma-se um hábito. A grande maioria de nossos hábitos resulta de normas que adotamos de forma mais ou menos consciente, pela imitação de nossos pais e educadores ou – como diria Freud – por um processo de introjeção. Levantar, lavar o corpo, comer nas horas certas, trabalhar são hábitos que derivam de prescrições sociais bem definidas.

Essas, em geral, têm a função de preservar nosso equilíbrio físico, emocional e mental, assim como a harmonia e a sobrevivência da sociedade em que vivemos. Infelizmente, nem todas nos beneficiam. Algumas produzem sofrimento, doenças ou mesmo morte. Entretanto, como resultam de um consenso, são adotadas pela maioria, ou mesmo por todos, pois as pessoas não têm consciência de seu caráter anormal. Essa é uma característica patológica das regras.

Quando algumas são questionadas, por causa de suas características patológicas, pode haver dissolução e mudança de comportamentos, embora isso raramente aconteça. A mudança de atitude das pessoas em relação ao hábito de fumar é um exemplo. Quando eu tinha 20 anos, praticamente todos os meus amigos fumavam. Recordo-me bem de que para “ser como eles” comecei a fumar, ou pelo menos tentei. Para me sentir normal, comprei meu primeiro maço de cigarros. Fumar era considerado um símbolo de masculinidade. Quanto mais forte fosse o tabaco, mais viril e “macho” seria o homem. O cigarro significava também status social, riqueza e conforto. Fumar cachimbo evocava, para mim, um estado de profunda reflexão.

Apesar de tentativas de adaptação à norma, não consegui adquirir o hábito. Assim abandonei esse jogo. No entanto, para não ficar totalmente fora da regra, carregava sempre comigo um isqueiro, a fim de oferecer fogo e mostrar que não era contra. Essa era, certamente, uma forma de treinamento para o altruísmo.

Na época, não sabia que era um indivíduo normal, pois, na verdade, os outros é que eram anormais. Na medida em que foram descobertos os efeitos cancerígenos e respiratórios do fumo, começaram a aparecer nos aviões – e depois nos lugares públicos – os avisos de “proibido fumar”, prática rapidamente difundida em quase todo o mundo. Surgiram as novas legislações, que obrigavam os fabricantes a alertar o público sobre os efeitos nocivos do cigarro. Felizmente, assistimos agora ao fim dessa normalidade patológica.

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