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Com o objetivo de fazer um escoamento para a produção de soja
do Centro-Oeste do país, o governo insiste em levar adiante o
projeto da Hidrovia Araguaia-Tocantins. Além de acumular várias
contestações judiciais, o projeto, que ameaça o frágil ecossistema
do rio Araguaia, a sobrevivência de tribos indígenas e da população
ribeirinha, também não se sustenta economicamente se comparado
a duas ferrovias que já estão em construção.
DÉBORA F. LERRER
No
final de 1996, Márcio Santilli, sócio-fundador do
ISA (Instituto Sócio Ambiental) foi procurado por um grupo
de lideranças Xavantes. Eles reclamavam que técnicos
do governo estavam invadindo sua reserva e colocando sinalizações
em torno do Rio das Mortes, afluente do Araguaia e vital para
a manutenção de sua tribo.
Os índios queriam que os advogados do ISA entrassem com
uma ação para impedir aquele trabalho que, na realidade,
era o início das obras para a instalação
da Hidrovia Araguaia-Tocantins, um dos projetos da atual gestão
do presidente Fernando Henrique Cardoso, batizado de "Avança
Brasil". Prevista desde 1995, a hidrovia tem por objetivo
escoar de maneira mais barata a soja produzida nas fazendas do
Centro-Oeste, que enfrenta estradas precárias para chegar
ao mercado externo.
Embora a princípio tenham reagido ao que consideravam um
desrespeito a seus direitos tradicionais, visto que os técnicos
do governo sequer pediram permissão para entrar na área,
as suspeitas dos Xavantes de que aquilo não era nada bom
para eles se confirmaram - e estão garantindo que as obras
da hidrovia continuem paralisadas pela Justiça, apesar
dos diversos expedientes usados pela empresa responsável
pelo empreendimento, a Aithar (Administração da
Hidrovia Araguaia - Tocantins), que é vinculada ao Ministério
dos Transportes.
Santilli conta que, a princípio, achou que era exagero
dos líderes Xavantes, que não era possível
que após tantos anos o atual governo federal reeditasse
o método largamente utilizado pelo governo militar que,
partindo do pressuposto de que era preciso "integrar a Amazônia
para não entregar", implantou diversos projetos que
não se adequavam à flora, à fauna e aos povos
que viviam na região.
Assim, antes abraçar a causa, ele conseguiu convencer as
lideranças indígenas a esperar para partir para
a disputa judicial após a realização de uma
audiência pública na Comissão de Meio Ambiente
da Câmara de Deputados. "Até o momento de entrar
na sessão, eu achava que a hidrovia era um bom projeto,
que o que faltava era interlocução", diz ele.
Escandalizado com o EIA-Rima (Estudo de Impacto Ambiental) apresentado
na sessão, "um palavrório desconexo para encher
páginas vazias", que não mencionava os povos
indígenas nem onde seria depositada a areia retirada do
fundo dos rios, a primeira medida de Santilli foi pedir que os
líderes Xavantes fossem imediatamente ao cartório
para fazer a procuração necessária para que
os advogados do ISA preparassem a ação judicial
contra a obra.
A partir daí, deu-se início a uma novela jurídica
que, por enquanto, tem dado vitória para a posição
das lideranças indígenas e de diversas organizações
não-governamentais que se reuniram para impedir que essa
obra seja realizada.
"É inconcebível que façamos os mesmo
erros de projetos do passado. O mínimo é exigir
que essas obras reflitam o que houve de avanço ambiental
e social, para que os brasileiros do futuro não voltem
a carregar a pesada herança ambiental que nós carregamos
por causa das "transamazônicas" do passado",
diz Santilli.
Ecossistema frágil
Rio sinuoso e instável, o Araguaia está localizado
em uma planície, ambiente geologicamente ativo, "frágil
a qualquer intervenção", explica Tadeu Veiga,
geólogo do Núcleo de Estudos Amazônicos da
UnB (Universidade de Brasília). Em um lugar assim, em que
o terreno ainda não se estabilizou, a erosão é
acelerada e o rio recebe e transporta esses sedimentos. Em épocas
de chuva, o rio enche e forma lagoas, e em épocas de seca,
formam-se praias em torno do rio, altamente freqüentadas
por turistas oriundos de Brasília e Goiás. Para
fazer a hidrovia, alguns diques naturais - pedras e travessões
- que existem ao longo do Araguaia serão derrocados (processo
de retirada de rochas), ao mesmo tempo em que seu leito será
aprofundado para permitir a passagem das barcaças de carga.
Veiga explica que essa intervenção irá alterar
completamente o curso do Araguaia, pois mais carga de sedimento
será transportada pelo rio para regiões ainda mais
distantes. "Isso pode acarretar graves problemas ambientais,
afetando o sistema fluvial da região e inviabilizando a
própria hidrovia", alerta Veiga. "O transporte
de mais sedimentos vai provocar o assoreamento de áreas
hoje alagáveis, e alagar áreas que hoje estão
secas, entulhando os próprios canais de navegação
que pretendem ser feitos", explica o geólogo, que
participou de um estudo de impacto ambiental independente, contratado
por um pool de entidades da sociedade civil, coordenado pela Fundação
CEBRAC (Centro Brasileiro de Apoio e Referência Cultural).
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