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Mau
uso e falta de eficiência no processamento podem tornar escassa
uma das substâncias mais abundantes do planeta
DÉBORA
LERRER
O Brasil é um dos únicos países do mundo que não vai enfrentar
problema com relação à escassez de água doce, pois detemos
18% das reservas existentes no planeta. Só para ter uma
idéia, oito Estados da nossa federação - Rio Grande do Sul,
Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato
Grosso e Goiás - estão deitados em cima do maior reservatório
de água doce subterrânea do mundo: o aqüífero Guarani, que
nós dividimos com a Argentina, o Paraguai e o Uruguai. Além
da abundância - 50 mil km cúbicos de água - e da qualidade
da água, ela está protegida de contaminações por causa da
espessa camada de basalto existente por cima deste aqüífero.
Além das reservas de água do Guarani, ainda podemos contar
com o enorme reservatório natural que é a região amazônica,
onde cada habitante tem à sua disposição entre 100 mil e
1 milhão de metros metros cúbicos de água por ano, embora a ONU avise que bastam 2000 metros
cúbicos. Mas até o lugar mais seco do Brasil, o Nordeste,
esconde em suas entranhas grandes reservatórios de água
doce que poderiam estar sendo utilizados em irrigação e
poderiam estar garantindo o abastecimento de pelo menos
1/3 das cidades do sertão, explica Aldo Rebouças, professor
de recursos hídricos do Instituto de Estudos Avançados da
USP, e consultor da Secretaria Nacional de Recursos Hídricos.
Segundo Rebouças, metade das nossas reservas subterrâneas
de água estão na região Sul e Sudeste. Na outra metade,
1/3 correspondem às reservas existentes na bacia geológica
amazônica, e 2/3 - quem diria - são os aqüíferos existentes
na região Nordeste, que de seca não tem nada.
Com todo este potencial, hoje poderíamos estar disputando
o mercado mundial com um produto que tende a se valorizar
muito no futuro. "O Canadá vende bônus de água para o Kuait.
O navio vem de lá com petróleo e volta com água", conta
Rebouças.
Além de não tirarmos proveito de todo o potencial competitivo
deste mercado, este grande capital ecológico sofre, de acordo
com Rebouças, com um "problema de estilo", ou seja, a cultura
de desperdício vigente no país em relação a esse recurso
natural tão vital. "Nossas companhias de água são as menos
eficientes do mundo. Nossos vazamentos de água de rua fazem
aniversário, não há compromisso com a regularidade de fornecimento
nem com a qualidade da água que chega na sua torneira",
diz ele. Para completar, segundo o Censo Sanitário do IBGE,
só em São Paulo 47% da água que é tratada se perde. Em Recife,
cidade que sofre de um violento problema de falta de água,
58% da água tratada e injetada na rede desaparece por vazamento
e ligações clandestinas. Em países mais desenvolvidos, o
índice de perda de água tratada não passa de 15%.
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