|
Diante
da flagrante escassez de água doce no planeta, o secretário
estadual de Recursos Hídricos de São Paulo, Antonio Carlos
M. Thame, defende a cobrança pelo seu uso e uma taxação mais
pesada para aqueles que a poluem. Associadas à educação ambiental,
tais medidas, segundo ele, devem garantir o uso sustentável
da água.
FÁTIMA
AFONSO
PLANETA - Apesar de a Terra ser composta de 2/3 de
água, já há algum tempo a ONU prevê que em breve ela vai
se tornar um recurso natural escasso. Quais as maiores causas
desse problema?
Thame - Em primeiro lugar, da água que existe na
Terra, menos de 3% é água doce; assim mesmo, boa parte está
inacessível, acha-se nas geleiras ou em lugares subterrâneos
de difícil acesso. Em segundo lugar, está muito mal distribuída:
em alguns locais ela existe em quantidade acima do necessário
e, em outros, abaixo do mínimo necessário. Por outro lado,
as preocupações da ONU vêm crescendo porque, nestes últimos
50 anos, a população mundial aumentou em mais de três bilhões
de pessoas; e estima-se que nos próximos 50 anos vai aumentar
em torno de 2 bilhões e 700 milhões de pessoas. As preocupações
são, portanto, em função de se perceber que, em alguns lugares
da Terra, já está havendo escassez de água e também por
causa do crescimento populacional. Não há, nas prateleiras
dos institutos de pesquisa, nada que nos permita, nessas
próximas décadas, aumentar a produção de água na mesma proporção
do crescimento populacional.
PLANETA - Já existe hoje, no planeta, quem passe
sede por pura escassez de água?
Thame - Nós temos diversos lugares onde a disponibilidade
de água está abaixo do índice considerado mínimo por habitante.
Em pelo menos cinco países, nós estamos tendo problemas
de produção agrícola por falta d'água: na China, na Índia,
no Paquistão, Iêmen e México. Nesses países, a produção
agrícola já passou dos limites da chamada agricultura com
base na água superficial; ou seja, se consegue manter esses
índices de produção perfurando-se poços que vão até o lençol
freático. Nos últimos anos, o custo de uma perfuração caiu
muito. Com isso, a agricultura em geral mudou, avançou para
a água subterrânea. E os dados mostram que a quantidade
de água que está sendo tirada do lençol freático é maior
do que a capacidade natural que os aqüíferos têm de se recompor.
Hoje se pode medir, por fotografias aéreas, o afundamento
do lençol freático. Já é possível calcular o volume de água
por ano que não é reposto: em torno de 160 bilhões de toneladas.
Para produzir um quilo de grãos, eu preciso de uma tonelada
de água, durante todo o ciclo da planta. Isso significa
que essas 160 bilhões de toneladas de água permitem a produção
de 160 milhões de toneladas de alimentos - o suficiente
para alimentar 480 milhões de pessoas. Essas pessoas estão
sendo alimentadas de uma forma não-sustentável, ou seja,
utilizando uma água que não é mais um recurso infinito,
um recurso renovável.
Mas, falando isso, a gente imagina o quê? Que esses problemas
de água só estão ocorrendo em países em desenvolvimento.
Não é verdade. Mesmo os países desenvolvidos estão tendo
problemas.
|