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No final dos anos 70, depois de viver a experiência de clínico geral no Vale do Ribeira, uma das regiões mais pobres de São Paulo, Marcos Kisil decidiu dedicar-se à cura do sistema de saúde. No meio da sua jornada, porém, acabou abandonando a medicina para devotar-se à organização do trabalho social no Brasil. Nesta entrevista a PLANETA, ele faz um balanço de toda a sua trajetória.

FÁTIMA AFONSO

Foto: Carmina Sophia
PLANETA – Logo depois de se formar em medicina, o senhor decidiu trabalhar no Vale do Ribeira, uma das regiões mais pobres de São Paulo. O que o levou a tomar essa decisão?

Marcos Kisil – Primeiro, eu sempre me imaginei como um clínico geral, trabalhando numa área do interior onde houvesse carência. Tive a oportunidade de conhecer o Vale do Ribeira enquanto era residente da faculdade de medicina e achei que ali poderia ser útil para a população. Segundo, eu sempre achei que saúde é algo um pouco maior do que medicina; portanto, eu poderia ajudar determinada comunidade a ser mais saudável. Isso não significa que teria obrigatoriamente de atuar apenas como um médico que cuidasse da doença, mas que ajudasse as pessoas a não ficarem doentes.

Eu encarava o doente, a doença e a comunidade como um todo e não como frações. O próprio indivíduo não é fracionado por órgãos. Ele é um cidadão, a pessoa no seu componente biopsicossocial e – o que é uma coisa muito importante – espiritual. Essa visão explica porque eu não quis ser um médico especialista, mas um médico generalista.

PLANETA – No meio do caminho, o senhor acabou abandonando a medicina e seguiu um rumo completamente diferente, mais voltado para o trabalho social. O que determinou essa decisão?

Marcos Kisil – Eu fui para uma comunidade onde havia um colega pediatra e eu, que atendia tudo; nós trabalhávamos num hospital público, pequeno. Em um determinado momento, eu me dei conta de que, se no meu lugar houvesse um médico que não tivesse recebido um treinamento adequado nem feito uma escola de melhor qualidade, para o doente era exatamente a mesma coisa. Ali não havia medicação, Raio X, laboratório... Então, se eu não tenho essas coisas, e receito um remédio certo e um outro colega receita um remédio errado, e o paciente não vai receber o remédio, tanto faz ele ter sido receitado certo ou errado.

Nessa época, eu me dei conta de uma questão muito séria: no curso médico você aprende sobre a doença, aprende pouco sobre a pessoa que tem a doença e não aprende praticamente nada sobre o sistema de saúde. Comecei a perceber que o sistema não estava dando condições para que aquele médico idealista pudesse se realizar. Assim, fui fazer o mestrado para poder entender o sistema de saúde; só que, à medida que passei a entendê-lo, fui sendo cooptado por ele. Logo que terminei o meu programa, fui contratado pelo Hospital das Clínicas para ser um assessor, virei uma espécie de vice-presidente para uma área de planejamento; a minha geração tocou no desenvolvimento físico do hospital. E nós tínhamos de treinar recursos humanos para essa área. Aí eu estava preocupado com esse gerente de sistema que pudesse ajudar o médico que estava lá na linha de frente. Naquele momento, a Fundação Getúlio Vargas e o Hospital das Clínicas de São Paulo criaram um programa para formar administradores para o hospital, no qual eu me envolvi. Um dia a Organização Mundial da Saúde (OMS) nos fez uma visita e achou que esse era o programa mais criativo que eles encontraram na formação de gerentes de saúde. E perguntaram por que ele não podia ser aberto ao público. Eles propuseram, então, que para isso a gente buscasse recursos externos. Nessa busca, eles identificaram a Fundação Kellogg como a eventual patrocinadora do programa.

Conheci , então, a fundação e decidi fazer o doutorado em administração pública, já migrando realmente para entender o sistema; trabalhei em projetos de comunidade para ver como poderia sair do nível micro para o macro. Quando começa a trabalhar em projetos sociais, você percebe que a necessidade da comunidade resulta de um emaranhado de condições, é algo complexo. Assim, comecei a entrar mais no social; passei a trabalhar com educação, desenvolvimento rural, etc. E, quando percebi, havia passado a ser uma pessoa que trabalhava com os problemas do sistema; o sistema passou a ser o grande doente com o qual eu tento trabalhar.

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