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Trabalho
Espiritual
Ao
entrar pelo lado esquerdo do Templo do Amanhecer, se enxerga,
bem ao centro, uma espécie de altar coberto com um véu.
Era início de uma tarde de sexta-feira, e alguns médiuns
se reuniam, cantando, atrás deste altar, preparando-se
para o início dos trabalhos.
Algumas pessoas, sentadas em bancos de pedra localizados à
esquerda, aguardavam o início dos trabalhos de Tronos,
primeiro local de atendimento dos pacientes. Ali, eles são
atendidos individualmente, e dialogam com uma entidade espiritual
da linha dos Pretos Velhos. Cada paciente é atendido por
duas pessoas: o médium que incorpora a entidade, chamado
de apará, e um médium doutrinador, que tem o dom
da palavra: "o dom de discernir e doutrinar o espírito",
diz Damião. Os médiuns doutrinadores são,
em sua maioria, homens. Tanto eles como algumas das mulheres que
fazem parte desta linha são identificados com as cruzes
estampadas nas costas.
Além de fazer trabalho de limpeza da aura - "das projeções
negativas que você recebe no dia-a-dia", como explica
Damião -, é nessa etapa que a entidade vê
o quadro de necessidade da pessoa, encaminhando-a para os outros
trabalhos. "Nós não indicamos nada. Quem indica
são as entidades", garante ele.
Para os seguidores da seita, as tais projeções negativas
"sujam" a aura, o que dificulta a penetração
das projeções positivas. "Então você
se sente enjaulado, parece que está dentro de uma bolha,
sem respiração, começa a se sentir incomodado,
fica irritado com tudo".
Depois de limpar a aura do "cliente", ele pode seguir
para a Sala de Cura, se tiver algum distúrbio físico;
para a Indução, se seu problema for de ordem econômica,
ou então para a Linha de Passes. Nas quartas, sábados
e domingos, a partir das 18 horas, um médium incorpora
o Pai Seta Branca. "Ele fica projetando energias positivas
para todos os setores de trabalho que estão funcionando
aqui dentro do templo, atendendo as necessidades de todos aqueles
que estão aqui", diz Damião.
Um cliente que os procura para fazer trabalhos geralmente fica
de três a quatro horas no local. Luzeli Maria Carvalho Lopes,
25, levou o filho no templo naquele dia "para ver se ele
fica mais calminho. Ele é meio danadinho", disse ela,
que é médium e mora no Vale. "Tem dia para
trabalhar e tem dia para passar nos trabalhos. Aqui é assim",
explica ela.
O construtor Elvandro Pereira Pinto, 40, costumava ir ao Vale
quando era criança, pois seu pai trabalhava lá.
Na última vez que foi, tinha 12 anos. Aquela era a primeira
vez que voltava. "Vim procurar melhora na vida. É
um pouco de superstição que a gente tem", justifica.
"Acho que a pessoa que trabalha aqui tem paz de espírito.
Meu pai era tranqüilo. Vivia bem".
Outro trabalho desenvolvido templo são as "mesas evangélicas".
Durante este trabalho, tanto médiuns doutrinadores como
aparás se reúnem em volta de uma grande mesa e incorporam
espíritos sofredores - que eles chamam de irmãozinhos.
Esses espíritos seriam doutrinados e elevados para os planos
mais "altos", que eles chamam de "hospitais dos
planos espirituais".
Ritual semelhante também é feito diariamente no
templo aberto. Para livrar o mundo da ferocidade de espíritos
negativos, os médiuns do Vale tratam de levá-los
para o portal de desintegração chamado de Estrela
Candente. "Aí ele se desintegra e vai reintegrar em
uma outra dimensão, onde vai ser dada a continuação
da assistência dele, até que ele possa chegar próximo
a Jesus", resumiu Rômulo de Souza Miranda, mestre que
comandou uma parte deste ritual no dia da visita da nossa reportagem.
Segundo ele, esses espíritos desencarnados "têm
um grau negativo tão forte que, quando vibram, provocam
desastres coletivos".
Infelizmente, apesar da dedicação do povo do Amanhecer,
os desastres continuam acontecendo. Vai ver que, sem eles, seria
pior. O dia-a-dia do Vale, pelo menos, parece perto da perfeição.
Tem-se até a impressão de que a teoria do "povo
escolhido" efetivamente funciona. Pode não estar bom
para todo mundo - mas eles, pelo menos, parecem estar se sentindo
muito bem, obrigado.
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