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Eles
dizem ouvir vozes, assumir personalidades,
receber mensagens de mortos. As habilidades
dos médiuns, por muito tempo explicadas
só pela fé, atraem o olhar da ciência
e ganham novas interpretações
Isso
talvez reforce a tese do pedagogo
francês Allan Kardec, pai do
espiritismo, de que todos têm
capacidade para desenvolver
mediunidade, alguns mais, outros
menos. Em outros países, como
os Estados Unidos, o interesse
por mediunidade ainda é uma
surpresa. Os editores do médium
americano James Van Praagh,
autor de Conversando com os
espíritos, lançado no Brasil
pela editora Salamandra, se
espantam com a vendagem de 600
mil exemplares que ele alcançou
em três meses naquele país.
Hoje, há uma crescente disposição
da ciência para entender fenômenos
como esses. Embora continue
a negar a existência de espíritos
até prova em contrário, há menos
preconceito e mais interesse
pelo assunto. Sucessores de
Freud, que no final do século
XIX chamou de histeria e de
múltipla personalidade o que
seus contemporâneos consideravam
possessão, abriram espaço para
novas respostas. Essa brecha
pode ser observada, por exemplo,
nas recentes recomendações do
National Institute of Health,
nos Estados Unidos. Sugere-se
a prece e os tratamentos espirituais,
como passes ou toque pelas mãos,
para complementar tratamentos
médicos. Outro exemplo é a ressalva
do último DSM (Diagnostic and
Statistical Manual of Mental
Disorders), espécie de bíblia
da psiquiatria. Segundo o relatório,
o clínico deve tomar cuidado
ao diagnosticar como psicóticas
pessoas que dizem ver ou ouvir
mortos, pois em algumas culturas
religiosas isso pode não significar
alucinação ou psicose. "É a
admissão antropológica da mediunidade,
uma primeira abertura para entendê-la
como função psíquica", diz o
psiquiatra Sérgio Felipe de
Oliveira, pesquisador da área
de anatomia da Universidade
de São Paulo e diretor do Instituto
Pineal-Mind de Saúde, que estuda
a integração cérebro, mente
e espírito. "A mediunidade não
é um conceito religioso, mas
um atributo biológico", afirma
ele, que também dá um curso
de Psicobiofísica em convênio
com a USP.
Aparentemente, a distância entre
ciência e religião se reduziu.
"De alguns anos para cá, cientistas
começam a falar como místicos
e místicos tentam agir como
cientistas", observa o físico
francês Patrick Druot, estudioso
de fenômenos parapsicológicos
e pesquisador do Instituto Monroe,
nos Estados Unidos. Ele é autor
dos livros Somos todos imortais
e Vidas anteriores e futuras,
que venderam mais de um milhão
de exemplares da década de 80
até agora. Druot tenta reconciliar
a ciência moderna e a tradição
espiritual. Por meio da física
quântica e da termodinâmica,
estuda os estados alterados
de consciência. "Não é possível
dizer que mediunidade não existe",
diz o físico. "A ciência sabe
como o cérebro funciona quimicamente,
mas não sabe ainda o que faz
o cérebro funcionar". Para muitos,
a fonte dos estímulos e reações
cerebrais que não conseguimos
explicar seria aquilo que a
humanidade sempre chamou de
alma.
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