|
A
entrevista começou com um número de mágica. Wellington Zangari,
35 anos, me disse que tinha sonhado com cartas
na noite passada e com uma prima de sua mulher, Fátima Regina
Machado, 33, também chamada Débora. Colocou
três cartas na mesa e pediu para eu escolher qualquer uma delas.
Escolhi uma, onde estava colado um papelzinho que dizia: “eu sabia
que você escolheria esta”. Depois me
explicou que era um truque.
DÉBORA LERRER
 |
| Fátima
e Wellington |
Wellington e Fátima são mágicos
e pesquisadores. Eles fazem parte do Grupo Inter-Psi de Semiótica,
Interconectividade e Consciência
do Centro de Estudos Peirceanos
da PUC-SP, a primeira iniciativa acadêmica de estudar os fenômenos
conhecidos como paranormais, com o objetivo identificar, à luz
da metodologia científica, quem está de fato vivenciando experiências
por enquanto inexplicáveis.
Planeta na Web – Como é o trabalho de vocês?
Wellington – Procuramos diferenciar o que é verdadeiro
do que não é, utilizando o método científico. Nós não rejeitamos
nenhum fenômeno, nenhuma experiência humana, mas nós não acreditamos
no relato nem na experiência de forma apriorística.
Fátima – Dependendo da investigação, nós podemos precisar
de médicos, ou de outros profissionais, dando suporte necessário
para a pesquisa. No nosso grupo de sete pessoas, temos, por exemplo,
um engenheiro florestal, porque existem alguns fenômenos, como
aparições ou casas mal–assombradas, que na verdade são provocados
por questões ambientais. O próprio terreno pode ocasionar queda
de objetos. Imperceptivelmente a coisa vai indo até que cai, mas
a pessoa não vê. E tem também campos eletromagnéticos. Também
existem certos solos que soltam alguns tipos de gases que afetam
a percepção. Uma intoxicação também pode fazer a pessoa ter a
impressão de ver vultos.
PnW – O que vocês acham de pessoas que dizem vivenciar
experiências paranormais, afirmam usar o método científico para
comprovar, e criticam o excesso de cartesianismo da ciência?
Wellington - A primeira coisa interessante para se notar
é que todas essas pessoas que dizem que a ciência é reducionista
usam o nome da ciência para justificar e legitimar as suas próprias
crenças. A ciência é um saber, é uma forma de conhecer a realidade
que é baseada em um método desenvolvido em cima da observação
e da experimentação. Dentro dessas duas vertentes, há inúmeras
técnicas que você pode aplicar. Quando nós nos deparamos com alguém
que nos conta alguma experiência que tenha passado, o nosso papel
não é julgar essa pessoa, nem favorável nem desfavoravelmente.
Se a pessoa diz que tem o dom da precognição, existem métodos
e técnicas científicas para validar essa afirmação. A ciência,
portanto, tem como objetivo avaliar, colocar em juízo determinadas
afirmações.
PnW - Como vocês explicam a mediunidade? Como estudam pessoas
que se dizem médiuns?
Fátima – Qualquer pessoa pode passar por isso, umas mais
e outras menos. E essas que vivenciam mais vivem em um contexto
cultural que determina uma série de coisas, por exemplo, o modo
como ela lida com a realidade, os símbolos que ela vai usar para
lidar com essa realidade. A religião é um modo de você ver a realidade.
Às vezes as pessoas se apegam naquele simbolismo, naquele modo
de estar interpretando a realidade, e então as experiências dela
serão vistas com a lente da religião. Ela vai colocar nomes, narrar
experiências de acordo com essa visão religiosa que ela tem da
vida. Os evangélicos vão falar que um determinado tipo de experiência
foi proporcionado pelo demônio. Espíritas vão falar que foi o
espírito de alguém falecido, os esotéricos vão falar que são anjos.
Para uma mesma experiência você encontra milhares de interpretações.
Wellington – A ciência não tem capacidade de dizer se essas
interpretações são corretas ou incorretas, mas o fenômeno é capaz
de existir independentemente da interpretação. Quando nós temos
alguém que diz possuir essa habilidade, que diz ter essa experiência,
então nós o convidamos para fazer uma série de exames. Se for
um caso em que a pessoa diz que se comunica à distância com outras,
a gente pode colocar em situação Gansfield, para ver se ela de
fato recebe as mensagens de outra pessoa em outra sala. Se a pessoa
diz que ela pode mover objetos, existem programas de computador
produzidos especificamente para verificar se a pessoa consegue
mesmo fazer isso. Se ela conseguir de maneira consistente, acima
do que se espera pelo acaso, então você pode dizer que essa pessoa
teve lá uma manifestação, uma ação desconhecida pela ciência.
A investigação é de maneira rigorosa e controlada.
PnW - Você afirma que esses fenômenos paranormais existem
mesmo? Wellington – Experiência é algo diferente de fenômeno.
Experiência é aquilo que a pessoa narra ter vivido. A ciência
simplesmente ouve, descreve, anota, registra e vai procurar algum
tipo de investigação. A gente não pode negar a experiência, mas
nem sempre o fenômeno por trás da experiência existe. Pode ser
um truque. O que me interessa é saber o que o médium tem do ponto
de vista psíquico. Se ele tem alguma coisa específica e diferente
dos não-mediuns. Eles entram em transe, rodam e não ficam tontos,
bebem álcool e não parecem estar bêbados, parecem ter um insensibilidade
a dor. Isso nos faz acreditar que eles podem ter algum tipo de
funcionamento psicológico um pouco diferente das pessoas que não
são médiuns, independentemente da existência ou não das divindades.
A ciência ainda não tem meios de avaliar se existe um mundo sobrenatural.
A única coisa que nos cabe é avaliar as pessoas que dizem ter
contato, que dizem prever o futuro ou movimentar objetos.
PnW - Vocês acreditam que esses fenômenos poderão um dia
ser explicados?
Fátima – Existem coisas que são inexplicadas, mas não são
necessariamente inexplicáveis. O eclipse, por exemplo, é um fenômeno
natural, mas durante muito tempo foi interpretado como sobrenatural,
motivado pela ira dos deuses. Com o desenvolvimento da astronomia,
você vê que o eclipse é um fenômeno natural que ocorre de tempos
em tempos. Não é porque eu ainda não tenho resposta nem instrumental
para decidir que eu vou concluir que o fenômeno é sobrenatural.
Esses fenômenos com os quais nós lidamos estão em uma zona fronteiriça,
não têm ainda uma teoria científica para interpretá-los. É como
o Einsten, que teve que criar toda uma nova teoria para explicar
o fenômeno que ele descobriu. Estatisticamente os fenômenos paranormais
existem. E isso significa que quando as pessoas dizem ter passado
por experiências de previsão de futuro ou de movimento de objetos,
essas pessoas não estão necessariamente mentido ou estão iludidas.
O ser humano não está afastado de seu ambiente. Apesar do cartesianismo
ter demonstrado que nós somos separados do mundo físico, experimentos
demonstram que nós não estamos separados uns dos outros, nem estamos
separados do ambiente. Podemos interferir no ambiente e receber
informações sem usar os nossos sentidos conhecidos.
PnW - Além do Jung, mais familiarizado e aberto a este
tipo de fenômeno, o próprio Freud escreveu artigos sobre isso,
não é?
Wellinton
– Ele teve experiências com os pacientes, mas foi impedido
de publicar por seu discípulo e biógrafo, Ernest Jones, que argumentou
que ele já não era bem visto socialmente por falar sobre sexualidade
e por ser judeu, então era melhor ele não publicar sobre isso.
Mas ele acabou publicando em vida dois textos, “Sonhos e Ocultismo”
e “Psicanálise e Telepatia”, em que ele aborda estas questões,
não deixando bem clara a sua posição. Ele inclusive tinha a teoria
de que a telepatia era o meio de comunicação dos homens primitivos,
mas que foi atrofiando por causa do desenvolvimento da comunicação
verbal. Na biografia mais recente dele, escrita por Peter Fry,
está descrito que Freud fazia experimentos telepáticos com sua
filha, Anna, e seu discípulo Ferencze.
PnW – O que vocês acham da projeciologia?
Wellington - Conhecemos muitas pessoas que dizem terem
tido experiências fora do corpo. Existem pesquisas que são realizadas
em todo mundo em várias universidades. O que esses pesquisadores
têm afirmado é que a experiência de fato existe. As pessoas de
fato se sentem fora do corpo. Isso é diferente de poder se afirmar
que elas de fato saem do corpo. Essas interpretações científicas
dadas por essas pessoas estão muito próximas das interpretações
dadas aos chamados sonhos lúcidos. Muitas pessoas conseguem controlar
os próprios sonhos lúcidos.
PnW - Wagner Borges (o criador da projeciologia) afirma
que a diferença entre sonho lúcido e projeção é que na projeção
as pessoas interagem conscientemente e vêem coisas que fazem sentido...
Wellington – Sim, mas isso é característica do próprio
sonho lúcido. Inclusive do próprio sonho vívido. Existe o sonho
lúcido e vívido que você pode de fato interagir ou ter um certo
tipo de controle. Você tem consciência e, portanto, age, testa,
interage com os elementos, sejam elementos considerados vivos
ou inanimados. O que a gente pode fazer é de fato convidar essas
pessoas, por intermédio da Planeta, a um experimento muito simples.
A gente pode colocar na redação um cofre fechado, com algumas
coisas lá dentro para que as pessoas que saem do corpo se dirijam
até o cofre e verifiquem o que tem ali. Se as pessoas toparem,
a gente pode fazer o controle dessas experiências. Todos os livros
escritos por projeciologistas famosos como Valdo Vieira não podem
ser considerados científicos de modo algum, porque não respeitam
a metodologia científica. Eles se baseiam única e exclusivamente
na descrição da experiência da pessoa. Isso não significa negar
a experiência, isso significa negar as conclusões as quais os
projeciologistas chegam.
PnW - E quanto à pesquisa dos transcomunicadores?
Wellington - A metodologia que eles dizem ser científica,
de maneira alguma é científica. Nós estivemos com a Sonia Rinaldi
mais de uma vez, inclusive no laboratório na casa dela, fizemos
lá uma simulação de experimento que não teve nenhum resultado.
Pedi para o meu irmão falecido dizer o nome dele e veio um nome
que não tinha nada a ver. Nós também estivemos em uma outra apresentação
grande, com um grupo de transcomunicadores, e onde nós pudemos
identificar uma série de erros metodológicos, que geraram o artigo
“Recomendações metodológicas aos transcomunicadores” que será
publicado em Portugal ainda esse ano.
|