PARANORMAL > Outro Plano
  O Auxílio na
Passagem da Morte

O sofrimento pela perda de um ente querido pode ser compensado por práticas que ajudem a alma na sua nova situação extra-corpórea. E assim também o ser humano vai amadurecendo a consciência do verdadeiro sentido da sua existência neste mundo.

ROMEO GRACIANO

Pablo Picasso, A Morte de Casemas/Museu Picasso, Paris
Meu velho e amado amigo Milton fez sua passagem desta vida no início de 1998. Após terminar o circuito da corrida São Silvestre, que todo princípio de ano é realizada em São Paulo, ele sentiu-se mal e foi encaminhado ao pronto-socorro. Sua esposa aguardava na recepção quando recebeu a dolorosa notícia, que, de imediato, lhe pareceu um terrível engano. Infelizmente, não era. Uma parada cardíaca fatal encerrara a existência de Milton neste mundo, bem no auge da meia-idade e com um casal de filhos adolescentes.

O impacto da morte inesperada é difícil de traduzir. A desorientação e o sofrimento gerados criam uma sensação de desamparo que nos rouba a segurança proporcionada pela razão. Ficamos paralisados e imersos em uma dor quase incurável, pois a perda de um ente querido nos coloca diante da assustadora fragilidade da vida, por maior que seja nosso nível de esclarecimento espiritual. Outro agravante vem da falta de uma cultura para entender a morte – experiência absolutamente inevitável a todos que estão no mundo da matéria.

No caso de Milton, meus questionamentos ganharam um fator adicional, uma vez que o seu velório transcorreu dentro da prática budista (segundo a tradição religiosa da sua família), desconsiderando a sua formação espírita kardecista. E, sete dias depois, foi realizada a costumeira missa que segue ao falecimento de todo católico.

Amigos e familiares budistas, espíritas e católicos tiveram seus respectivos espaços ritualísticos para as despedidas fúnebres. Mas até onde foi o respeito pelo perfil religioso de Milton? Numa situação de morte súbita, é óbvio que tais providências acabam sendo esquecidas, mesmo porque não há clima emocional para isso. E as pessoas, no ímpeto de fazer o melhor, nem imaginam a possibilidade de auxiliar aquela alma que parte de uma perspectiva mais eficiente.

Minha esperança, ao redigir estas linhas, é incentivar uma postura nova, esclarecida, diante do fenômeno do passamento. Considerando que somos portadores de um espírito imortal, cuja jornada prossegue em outros planos quando o corpo físico, seu instrumento de ação na realidade material, não tem mais condições de abrigá-lo. Certamente, a prova de desapegar-se do próprio corpo, que concentra grande parte da nossa atenção, exige razoável parcela de consciência e fé no que virá depois desta existência.

Muito do aspecto sombrio da morte deriva da ignorância do ser humano com relação a quem somos e ao que fazemos aqui. Se mal sabemos isso, o que dizer do post-mortem? Pelo jeito, o homem enredado nos sonhos do mundo levará muito tempo compartilhando o reconhecimento fatalista de Fausto, de Goethe, que afirmou: “Oh! Feliz quem ainda pode esperar emergir deste mar de enganos! O que não se sabe é justamente o que se precisaria, e o que se sabe não se pode aproveitar!”

Vivemos em pleno tempo de libertação e maravilhosas conquistas na esfera da consciência. E aí aumenta a responsabilidade das religiões que instituíram “verdades” por conveniência, privando gerações e gerações de expandir a visão interior. Tal como aconteceu no ano de 553, durante o Concílio de Constantinopla, quando se decidiu eliminar das confissões cristãs o ensinamento essencial da reencarnação.

Felizmente, ao tratar o tema da morte na sua devida profundidade, só temos a ganhar em termos de maior compreensão do significado da vida. Porque ambas nunca estiveram dissociadas – são complementares. Para o ser humano, a única espécie capaz de exercer a autoconsciência, um dos objetivos de importância máxima no processo da vida é a aquisição de experiência. Outro é o desenvolvimento da vontade (não confundir com desejo), que se fortalece sob influência da nossa realidade superior individualizada.

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