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  A Alquimia de Nostradamus

Escritas em linguagem simbólica, as Profecias de Nostradamus escondem, em diversas quadras, a sabedoria esotérica preservada pelos iniciados na arte da alquimia.

Texto: PAULO URBAN/Ilustrações: CHRISTIANE S. MESSIAS

Pouca gente sabe que o médico e astrólogo Michel de Notredame (mais conhecido por seu nome latinizado, Nostradamus), considerado um dos maiores profetas da humanidade, levava particularmente uma vida secreta regrada pela excelsa tradição dos alquimistas. Seguiu à risca todos os seus preceitos, exceto aquele que pede a preservação do anonimato em suas vidas. Mas desculpa-lhe o fato de ter sido um dos principais médicos a se envolver no combate à terrível peste negra que assolava a Europa, mais precisamente o sul da França, na primeira metade do século 16.

Nostradamus nasceu em Saint-Remy de Provence em 14 de dezembro de 1503, e veio a falecer na cidade de Salon (onde escreveu suas Centúrias) em 2 de julho de 1566, exercitando com ousadia, na região da Provença, o seu ofício de salvar vidas. Por meio de métodos próprios, valendo-se de receitas originais inventadas por ele mesmo, e sempre contestando a ortodoxia do pensamento médico ensinado nas universidades, ainda muito jovem Michel atrairia sobre si uma fama desmedida. Afinal, quando infectados pela peste, seus pacientes pareciam sobreviver em maior número do que os demais. Antes desenganados, depois impressionados com suas curas, seus pacientes fazia mais propaganda dele do que aquela que seria feita, décadas mais tarde, com a publicação de seus livros de profecias, as chamadas Centúrias. Fruto inequívoco do alarde feito por seus pacientes, Nostradamus logo passaria a ser visto como alguém especial, a trazer algo misterioso em seu caráter, atributo misto entre o encanto e o poder, a denotar que guardasse consigo estranhos segredos.

De fato, a vida oculta do profeta assume um novo fascínio se observada pelos meandros obscuros da alquimia. Escritas em linguagem simbólica, as Profecias de Nostradamus prestam-se, antes de tudo, a uma análise de seu conteúdo alquímico. Se as lermos do começo ao fim, é impossível não tentarmos imaginar quais mistérios suas linhas guardam, quais segredos se acham ali ocultos, entremeados pelo palavreado difícil de um profeta que se revela um autêntico mestre do hermetismo. Encontramos ao longo das Profecias, editadas pela primeira vez em 1555 (segunda edição ampliada em 1557 e terceira completa em 1558), várias alusões claras ou indiretas à “Ciência dos Filósofos” (isto é, à alquimia). Há ali dezenas de quadras onde ela se esconde por detrás de alegorias – o estilo de velar as verdades praticado pelos alquimistas.

Visitemos brevemente algumas dessas quadras. Exemplo taxativo da importância do tema encontramos na IV Centúria, quadras 28, 29, 30, 31 e 33, raro ponto do extenso livro em que as quadras alquímicas se acham assim concentradas, muito próximas. Outras mais se dispersam ao longo de toda a obra. Detenhamo-nos na quadra 29, acima citada:

Le sol caché eclipse par Mercure,
Ne sera mis que pour le ciel seconde:
De Vulcan Hermes sera faicte pasture,
Sol sera veu pur, rutilant e blond.


(“O Sol estará eclipsado por Mercúrio,
Não estará posto senão em céu segundo:
De Vulcano Hermes será feito pastor [ou pasto],
Sol será visto puro, rutilante e dourado.”)

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