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Um
filósofo discute alquimia, clonagem e imortalidade
Já
a questão relativa à clonagem de seres humanos é um pouco
mais complicada. Os opositores a esta técnica defendem que
a vida é um dom divino, ou seja, só a Deus cabe não só matar
como também dar a vida. Argumentam também que o Homem não
deve brincar de Deus. Cabe-nos, entretanto, o direito de
pergunta: porque devemos conceder apenas a Deus o privilégio
da criação ? Se tivéssemos certeza de que Deus é um ser
infinitamente bom, creio que a resposta estaria dada. É
dele o privilégio porque ele criou o mundo de tal modo que
há uma orientação em direção ao bem. Nós homens, exatamente
pela nossa índole não necessariamente boa, ao nos arvorarmos
esta capacidade poderíamos estar rompendo esta ordem que
tende à perfeição moral. O grande problema, me parece, é
que nós não temos nenhuma espécie de certeza de que Deus
é de fato bom. Aliás, se olharmos os sinais do mundo com
a infinidade de guerras, de tormentos, de aflições pelo
qual passamos, teríamos mais motivos para supor, pelo menos
no tocante a nossa espécie, que Deus conosco não foi propriamente
um Pai muito bom... Se assim é, não há porque deixar a Deus
ou aos desígnios da natureza a responsabilidade pela criação.
Nós, seres humanos, podemos tomar para nós essa tarefa,
e não haveria, então, porque condenar a clonagem humana.
Afinal, se Deus, ou os deuses, brincam conosco, porque não
podemos nós brincar de sermos deuses?
Se aceitamos esta possibilidade, porém, devemos estar absolutamente
cônscios de nossa responsabilidade moral. Só há sentido
em tornar humanos imortais se estes humanos forem bons homens,
muito bons homens. Imortalizar um Hitler ou um serial killer
seria absoluta e totalmente catastrófico. No próximo milênio
me parece absolutamente fora de dúvida que a questão da
imortalidade irá se colocar concretamente para a humanidade.
Junto a ela me parece fundamental que os homens façam uma
profunda revisão nos seus valores mais básicos e fundamentais,
de modo que orientemos nossos comportamentos e nossas práticas
em direção ao bem. Com o desenvolvimento científico e tecnológico
avassalador que teremos, haverá a necessidade de operarmos
também uma profunda reformulação ética. E talvez aí, ao
operarmos com esses dois dados, se coloque a necessidade
de olhar seriamente para a Alquimia, seus objetivos e seus
fundamentos, para que nos sejam dadas luzes... benditas
luzes!
Os alquimistas procuraram a imortalidade sim, procuraram
transformar o chumbo em ouro, sim. Mas se o objetivo disto
fosse simplesmente obter infinita riqueza ou infinito poder,
a chave da natureza lhes ficaria negada para sempre, eles
jamais obteriam seu intuito. Só encontra o segredo da transmutação
dos metais e da vida eterna aquele que tem a alma purificada.
Uma boa alma sabe que riqueza, poder e imortalidade devem
estar comprometidos com a idéia de construção de uma humanidade
e - porque não? -, de um universo orientado para o bem.
Eis aí, a Grande Obra!
Cinara Nahra
é Bacharel em Filosofia pela UFRGS, Mestre em Filosofia
Moral e Política pela UFRGS, Professora de Filosofia da
UFRN.
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